As lições que o "doutor seca" trará para o RS

Termo é usado nos EUA para se referir a Donald Wilhite, especialista no tema, que fará palestra online a convite do consulado americano de Porto Alegre

15/04/2021 – 06h39minAtualizada em 15/04/2021 – 06h39min

GISELE LOEBLEIN

Consulado dos EUA / Divulgação
Consulado dos EUA / Divulgação

O extenso conhecimento rendeu a Donald Wilhite o título de “doutor seca”. Professor e diretor emérito de Ciências Climáticas Aplicadas na Escola de Recursos Naturais da Universidade de Nebraska-Lincoln atuou extensivamente no Brasil. É autor de livros e coordena projeto sobre o tema financiado pelo Bird. Na tarde de hoje, às 16h, dividirá seus conhecimentos em evento do consulado dos EUA na Capital. A participação é aberta (inscrições no link bit.ly/3s2nS7l) e terá tradução simultânea. Abaixo trechos de entrevista à coluna.

Considerando os estudos e os projetos que já desenvolveu, o senhor diria que faltam políticas públicas de enfrentamento à seca nos países do sul da América do Sul? Ou essas políticas são ineficientes?
Na maioria, países sul-americanos não têm políticas nacionais que são proativas e focadas na redução do risco da seca. Como parte de um projeto liderado pela Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, há alguns países da América do Sul que estão em estágios iniciais de desenvolvimento de políticas nacionais de combate à seca, como, por exemplo, Paraguai, Bolívia e Equador.

Quais são os maiores impactos da seca na agricultura e na produção de alimentos?
A seca normalmente é o resultado da combinação de precipitações deficientes e temperaturas acima do normal. Isso leva à redução da produção. A dimensão dessa redução depende do momento em que ocorre a deficiência hídrica, do tamanho da falta de umidade no solo, da temperatura de partida e do estágio do ciclo de desenvolvimento da colheita. A seca afeta a eficácia de fertilizantes e nutrientes quando a produção é colhida. Essa perda então se transfere para a economia. Redução na produção leva a perda de rendimentos dos agricultores que faz com que menos dinheiro seja gasto em equipamentos, bens domésticos, etc. e poucos impostos pagos e maior desemprego.

No Rio Grande do Sul, secas e estiagens vêm em ciclos, a cada cinco, sete anos. Ainda assim, há grandes perdas quando acontecem. O senhor diria que os agricultores têm de estar mais preparados?

Produtores, com certeza, precisam estar mais bem preparados pra a seca. Alertas prévios ou sistemas de monitoramento e previsão mais acurada podem providenciar informação com antecedência para que possam se adaptar para uma seca em evolução. Enquanto secas podem ocorrer de tempos em tempos, não acontecem em ciclos, então, não é eficaz supor que será um ano normal e esperar estiagem somente a cada cinco, sete anos. O momento que as secas acontecem é irregular e, nesta região, estão relacionadas com a ocorrência de fenômenos climáticos. E aí que a previsão pode ajudar. Os produtores também precisam usar práticas de gestão da propriedade e determinar como podem se ajustar antes e durante a estiagem para reduzir riscos.

Em um país tão grande e com climas diferentes como o Brasil, como desenvolver uma política nacional de combate à seca?
Uma política nacional recomenda ou determina em que princípios estará focada a redução de risco. Isso é feito com a criação de uma comissão nacional da seca, composta por líderes das principais agências/ministérios e stakeholders. O passo seguinte é a aplicação desses princípios na esfera estadual. É nesse nível que a política de enfrentamento à seca é ajustada ou adaptada à situação local e aos impactos mais significativos que acontecem em razão da falta de chuva. Por exemplo, uma política desenvolvida para uma região amplamente urbanizada seria completamente diferente de uma região agrícola. E uma política voltada a uma região agrícola dependente da chuva seria consideravelmente diferente de uma que depende largamente de irrigação.

O que é preciso para que o produtor possa usar informações climáticas para a tomada de decisões? Qual o papel da tecnologia?
Informações climáticas precisam ser customizadas para as necessidades/demandas dos produtores e para o momento certo. Isso significa que o desenvolvimento de ferramentas para o acompanhamento de clima deve ser feito de forma próxima aos produtores. É um processo em evolução.

Quais são os principais benefícios do monitoramento, planejamento, mitigação e políticas de combate à seca?
Os benefícios primários são melhor tomada de decisão, redução de impactos econômicos, sociais e ambientais, uma economia mais estável, melhoria da gestão de recursos naturais e financeiros e do ecossistema.

Fonte: Zero Hora

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