ARTIGOS | Carlos Lacerda, por Paulo Brossard*

Pode-se dizer que Carlos Lacerda nasceu jornalista, tão cedo o ofício surgiu em sua vida, antes mesmo da maioridade, e foi a sua dominante.
Foi vereador em 1947, deputado federal em 1958, governador da Guanabara em 1960; como fora um formidável demolidor, ao ser eleito governador, poucos esperavam o seu êxito; no entanto, Lacerda revelou-se administrador excepcional, imbuído de exemplar espírito público, com preocupação especial no tocante à educação, ao ponto de mesmo adversários intransigentes reconhecerem a superior concepção com que governou.
Ao cabo de 13 anos, sua carreira começada na vereança culminava no governo do Estado. Em julho de 1964, da Europa, manifestou o interesse em ser candidato à presidência da República. Com a abolição das eleições diretas, frustrada sua candidatura, situação severamente agravada com a edição do chamado AI-5, de 13 de dezembro de 1968, com o qual se consumou a deterioração institucional consagrando sem rebuços o Estado autoritário. Preso no dia seguinte ao do AI-5, libertado uma semana depois, em razão de uma greve de fome, no dia 30 de dezembro, foi cassado e suspensos seus direitos políticos por 10 anos. Desta forma, aos 56 anos, foi banido da vida pública da nação e como esse banimento terminasse em 1978, vindo a falecer em 21 de maio de 1977, morreu como proscrito em sua pátria.
De forma resumida, assim começou e terminou a sua atividade política. Não obstante, foi ela de tal variedade e intensidade que não se pode escrever ou analisar aquele período sem mencionar a marcante passagem de Lacerda e sua repercussão na vida do país.
Ao lado disso, no plano intelectual e cultural não foi menos significativa, bem ao contrário, publicou dezenas de livros dentre os quais O Poder das Ideias, Na Tribuna da Imprensa, O Cão Negro, Uma Rosa é uma Rosa é uma Rosa, O Rio São Francisco, Palavras e Ação, Em Vez, sem falar em Discursos Parlamentares, Minhas Cartas e as dos Outros e fez dezenas, se não centenas de traduções, uma das quais A Vida de Thomas Jefferson, do diplomata inglês Francis W. Hirst, é uma das mais antigas e excelentes. Esquecia-me de referir diferente de todos e o melhor de todos, pelo menos como obra literária, A Casa de Meu Avô.
Embora um bom escritor possa ser um mau orador, e vice-versa, não há qualquer exagero em acentuar sua facúndia de escritor, o que não excluía o talento de orador. De início afirmei que Lacerda nascera jornalista e o mesmo se pode dizer a respeito da oratória. O seu estilo simples e objetivo tinha uma certa modulação própria e tenho para mim que influiu em novo estilo da arte de falar. Sua voz era inconfundível e de harmoniosa sonoridade. É digno de registro que Lacerda foi das primeiras vítimas do AI-5, editado a 13 de dezembro de 1968; no dia imediato, 14, foi ele fulminado pelo ato infame. Em consequência de ter sido praticamente proibido de escrever e falar, dedicou-se à atividade empresarial no setor imobiliário, financeiro e de editor, tornando-se festejado em todos os ramos em que atuou. Por tudo isso pensei em lembrar-lhe a memória na passagem de seu centenário, acentuando os perversos efeitos do arbítrio.
Para encerrar, valho-me de observação do escritor Otávio Frias Filho, em ilustrativo ensaio sobre Lacerda, O Tribuno da Imprensa:
“Legou à linguagem corrente o termo “lacerdismo”, que resume um moralismo seletivo, praticado contra os adversários do momento, sobretudo na forma de campanhas jornalísticas devastadoras, baseadas em indícios frágeis e conclusões precipitadas. Não há como eximi-lo desse pecado, exceto recordando que quase todos o cometiam, embora com menos paixão e talento, além de outros pecados piores, dos quais Lacerda nunca foi acusado, como venalidade e até extorsão.”.

*JURISTA, MINISTRO APOSENTADO DO STF

Fonte: Zero Hora

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