Arroz ‘vintage’ ganha espaço no Japão com boom do saquê

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Trabalhadores espalham arroz cozido que será usado na preparação de saquê na fabricante Asahishuzo Co., em Iwakuni

Pela primeira vez em dez anos, os agricultores da costa oeste do Japão começarão a semear em 2014 o arroz Nihonbare. A decisão ocorre no momento em que produtores de todo o país retomam o plantio de variedades mais antigas do cereal para atender à demanda recorde por exportações de saquê.

As vendas externas da tradicional bebida alcoólica à base de arroz alcançaram o maior valor de todos os tempos – 8,5 bilhões de ienes ou US$ 80 milhões – no período de dez meses encerrado em outubro, quando se encaminhavam para sua quarta expansão anual, conforme o Ministério da Agricultura do Japão.

Os fornecedores das fabricantes da bebida estão aumentando a área plantada, num momento em que o primeiro-ministro do país, Shinzo Abe, tem como meta quintuplicar as exportações de saquê, biscoitos de arroz e de outros produtos elaborados a partir do cereal para 60 bilhões de ienes até 2020.

O objetivo caiu como uma bênção para as destilarias do país, como a Takara Holdings, e uma oportunidade para os agricultores adotarem variedades diferentes do cereal diante do quadro de queda no consumo de arroz no Japão, mais afeito hoje a novas dietas alimentares. Em Echizen, no oeste japonês, a cooperativa agrícola Echizen Takefu informou que os produtores locais produzirão 1.080 toneladas de arroz Nihonbare este ano.

"Os fabricantes de saquê estão cada vez mais conscientes da importância da qualidade do arroz", disse Shunsuke Kohiyama, assessor de exportações da Associação Japonesa de Fabricantes de Saquê e de Shochu (um tipo de destilado). "Eles tratam a questão como as vinícolas francesas, que tentam obter as melhores uvas".

A variedade Nihonbare era o tipo de arroz mais procurado para a alimentação no Japão até a década de 1970, quando foi ultrapassada pelo Koshihikari, mais doce e úmido. As destilarias, no entanto, ainda preferem a Nihonbare pelo baixo teor de proteína, próprio para produzir um saquê de sabor seco.

"[Ela] é de alto rendimento e vai ajudar a aumentar a renda", afirmou Sadahiko Yasui, diretor-assistente da cooperativa. "A Nihonbare também mostra resistência a altas temperaturas e a tufões, e é relativamente fácil de cultivar".

Na área administrativa de Yamaguchi, de onde Abe provém, a fabricante Asahishuzo está elevando a produção de saquê daiginjo – considerado "top" de linha – por causa do arroz Yamadanishiki, outra variedade antiga, disse Kazuhiro Sakurai, vice-presidente da empresa. A Asahishuzo aprecia essa variedade pelo grande tamanho de seu grão e por sua alta concentração de amido, e empregou 2.400 toneladas no ano passado para fabricar um saquê "aromático e claro", segundo o executivo.

Em junho passado, o premiê japonês ofereceu o saquê da empresa, conhecido pela marca Dassai, ao presidente da França, François Hollande, em visita a Tóquio, e ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, em seu 61º aniversário.

A produção do arroz Yamadanishiki na área administrativa de Hyogo, onde a variedade foi desenvolvida 90 anos atrás, aumentou para 15.796 toneladas em 2012, em relação às 15.227 toneladas de 2011, segundo o governo local.

Segundo o Ministério da Agricultura do Japão, as exportações de saquê aos EUA alcançaram 3,2 bilhões de ienes, ou 38% do total das vendas da bebida, de janeiro a outubro de 2013. As vendas ao país em todo o ano de 2012 somaram 3,25 bilhões de ienes. Já as remessas para Hong Kong atingiram 1,3 bilhão de ienes no mesmo intervalo de dez meses, ante 1,5 bilhão de ienes de 2012.

"As vendas ao exterior estão aumentando na esteira do sucesso da comida japonesa", explica Tomoko Sakaguchi, porta-voz da divisão de saquê da Takara Holdings. A empresa é a maior vendedora de saquê nos mercados internacionais, para onde embarcou cerca de 7,3 milhões de litros em 2012 de suas fábricas no Japão e no exterior.

Abe pretende duplicar as exportações de alimentos do país para 1 trilhão de ienes até 2020. Os embarques recuaram 8,3% em 2011, para 451 bilhões de ienes, após o desastre nuclear de Fukushima ter afastado os consumidores estrangeiros dos produtos japoneses. O arroz para a produção de saquê respondeu por não mais que 250 mil toneladas dos 8,6 milhões de toneladas produzidas no Japão em 2013, segundo dados do ministério e da associação do saquê.

Agora, o Japão precisa expandir suas exportações de produtos agrícolas para além dos produtos premium, e isso exige maior foco no aumento da eficiência das propriedades rurais e na redução dos custos.

Em Echizen, os agricultores pretendem expandir a produção do Nihonbare para até 5.400 toneladas até 2018, disse Yasui, da JA-Echizen. Os produtores de Yamagata vão semear a centenária variedade Kamenoo, enquanto os da ilha de Hokkaido, no norte, estão usando arroz Ginpu, desenvolvido em 1989, segundo o Ministério da Agricultura.

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Fonte: Valor | Por Aya Takada | Bloomberg

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