ARROZ – Produtores de arroz

preparam nova safra em meio a consumo incerto e custos em alta

Globo Rural acompanhou de perto trabalho no extremo sul do Brasil, próximo à fronteira com Argentina e Uruguai, onde está concentrado o plantio do cereal

Lavoura irrigada do produtor Onélio Pilecco (Foto: Carlos Stein/Editora Globo)

Lavoura irrigada do produtor Onélio Pilecco (Foto: Carlos Stein/Editora Globo)

*Publicado originalmente na edição 421 de Globo Rural (Novembro/2020)

A maior parte do arroz consumido pelos brasileiros vem do extremo sul do país, a dois passos de um território estrangeiro. É na fronteira com a Argentina e Uruguai onde esta?o concentrados 70% da produc?a?o nacional.

O cereal e? plantado em um solo jovem e raso, que fica sobre uma camada de rocha espessa, capaz de reter a a?gua na superfi?cie e formar as belas plani?cies alagadas do Pampa gau?cho. Na vizinhanc?a, rios e afluentes ajudam a irrigar as plantac?o?es e o volume de chuvas e? extremamente favora?vel ao cultivo. Nessas ilhas de arroz, a produtividade por hectare e? o dobro da alcanc?ada nas regio?es Sudeste e Centro-Oeste.

Este ano, a fronteira agri?cola do gra?o brasileiro ganhou um fo?lego ati?pico e inesperado: uma colheita boa em meio a uma pandemia, que favoreceu o consumo de arroz, com estoques baixos. Ale?m disso, a alta do do?lar beneficiou as exportac?o?es.

No entanto, todo esse cena?rio positivo na?o foi suficiente para a recuperarac?a?o total da atividade, que vinha enfrentando defasagem de prec?os, altos custos de produc?a?o e logi?stica e um endividamento acumulado de safras passadas.

Carlos Simonetti, de 58 anos, e? um exemplo da perseveranc?a dos produtores gau?chos. Formado em agronomia, ele comec?ou nos 150 hectares do pai em Uruguaiana, na fronteira oeste, e ampliou a a?rea para os atuais 3 mil hectares de lavouras de arroz irrigado, em quatro propriedades. Das u?ltimas 11 safras, oito foram de prejui?zo.

“Mesmo assim, esses prec?os considerados bons praticados agora na?o correspondem ao que a maioria dos produtores vendeu de arroz durante a colheita, que estava na faixa dos R$ 50 a saca. Na me?dia de venda ate? agora, na?o passa muito de R$ 60 a saca. Esse prec?o na?o resolve os anos de endividamento do setor, as renegociações com os bancos", ressalta Simonetti.

Carlos Simonetti, produtor que começou com 150 hectares e ampliou área para atuais 3 mil hectares de lavouras na fronteira oeste gaúcha (Foto: Fernando Martinho)

Carlos Simonetti, produtor que começou com 150 hectares e ampliou área para atuais 3 mil hectares de lavouras na fronteira oeste gaúcha (Foto: Fernando Martinho)

O produtor Leandro Friedrich, também de Uruguaiana, calcula que conseguiu sanar apenas 25% da sua dívida com bancos e que, este ano, vai reduzir sua a?rea de cultivo, normalmente de 240 hectares, em 20%, na?o apenas pelo de?ficit hi?drico, mas por na?o ter capital para investir no risco.

“Mesmo se tive?ssemos com os reservato?rios de a?gua completos, ainda iria faltar de 10% a 15% do valor necessa?rio para plantar tudo. Na minha condic?a?o, preciso de uns tre?s anos para colocar a casa em ordem para voltar a investir na lavoura”, diz.

Lucilio Alves, do Centro de Estudos Avanc?ados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP), explica que a alta atual dos prec?os do arroz se deve em parte aos baixos estoques de passagem nas u?ltimas cinco safras. Ele lembra que, em fevereiro deste ano, o estoque remanescente era suficiente para atender a? demanda nacional por apenas duas semanas e meia.

Neste ano, a produc?a?o foi 7% maior que a colhida em 2019, mas a pandemia fez o consumo interno disparar. “Muita gente passou a cozinhar em casa e optou por ser mais pra?tico”, diz o pesquisador. Durante a pandemia, o prec?o da saca de 50 quilos do arroz saltou de R$ 50, em marc?o, para R$ 105, em outubro. Mas a me?dia de venda da maior parte da safra 2019/2020 foi de R$ 60.

“Neste ano, o produtor na?o aumentou o seu endividamento, mas um ano apenas na?o ajuda a pagar o passivo. Precisamos de uns dois anos de prec?os bons para equilibrar as contas”, afirma o presidente da Associac?a?o dos Arrozeiros de Uruguaiana, Roberto Ghigino.

Outro fator que contribui para a alta de prec?os do cereal foi a desvalorizac?a?o do real frente ao do?lar, que aumentou a competividade do produto brasileiro. Com o do?lar forte e o real fraco, os clientes estrangeiros puderam comprar mais. O produtor Carlos Simonetti exportou cerca de 15% da sua safra no primeiro semestre, mas diz que, com os prec?os praticados hoje no Brasil, ficou mais vantajoso vender no mercado interno.

Davenir dos Santos, de 62 anos, vinha tendo rentabilidade cada vez menor, mesmo com o aumento da a?rea de 100 hectares, quando comec?ou em 1999, para os atuais 1.000, em Eldorado do Sul, na regia?o metropolitana de Porto Alegre. No ini?cio do ano, os baixos prec?os do arroz levaram os associados da Cooperativa Mista Sulina, da qual e? presidente, a exportar cerca de 25% da produc?a?o para a Guatemala pela segunda vez na histo?ria.

A primeira vez so? havia ocorrido ha? tre?s anos. “Assim que colhemos, o arroz estava na faixa de R$ 50 e fizemos a exportac?a?o para a Guatemala a R$ 61.” O arroz foi comprado para compor a carga exportada pela Cooperativa Agropecua?ria de Tubara?o, em Santa Catarina, que foi buscar o cereal dos gau?chos para embarcar pelo Porto de Imbituba. Ele calcula que ainda tenha 20% da sua safra armazenada em silo pro?prio e garante que na?o faltara? arroz na mesa dos brasileiros ate? a pro?xima safra.

Gráfico arroz 2 (Foto: Globo Rural)

(Foto: Globo Rural)

Por outro lado, a alta do do?lar trouxe reflexos nos custos de produc?a?o. Segundo One?lio Pilecco, presidente do Grupo Pilecco Nobre Alimentos Ltda. e produtor de arroz em Alegrete, a demanda dos compradores internacionais pelo produto brasileiro tambe?m aumentou porque os custos de produc?a?o no pai?s esta?o no mesmo patamar dos estrangeiros.

“O governo deveria ter em estoque no mi?nimo 10% (cerca de 1 milha?o de toneladas). A conta da poli?tica de comida barata para sufocar prec?os chegou. Fez com que o Rio Grande do Sul reduzisse a a?rea de cultivo significativamente e tornou o prec?o do arroz brasileiro mais barato para o mercado internacional”, enfatiza Pilecco.

Ele e? filho de um pequeno produtor que comec?ou cultivando arroz nos anos 1960 em Alegrete e hoje preside o Grupo Pilecco Nobre Alimentos, empresa que beneficia 90 mil toneladas do cereal por ano, sendo 20% de pro- duc?a?o pro?pria e o restante de parceiros.

Pelo lado da produc?a?o e da indu?stria, ele defende a necessidade urgente de uma reforma tributa?ria no sen- tido de reduzir os custos de produc?a?o dos alimentos, evitando, assim, onerar ainda mais o consumidor interno

“Cada Estado tem uma legislac?a?o tributa?ria diferente. Hoje, o maior prejui?zo para o produtor de arroz e? Sa?o Paulo, que zerou o ICMS para o consumidor e permitiu que o varejo utilizasse esse cre?dito. O que precisamos para baixar um pouco os prec?os e? fazer ajustes de custos, sena?o vamos ficar com custo de produc?a?o a ni?veis internacionais e com um menor poder aquisitivo do consumidor internamente”, explica.

Gráfico arroz (Foto: Globo Rural)

(Foto: Globo Rural)

O custo de produc?a?o do arroz no Brasil na safra 2019/2020 chegou a R$ 64,70 por saca de 50 quilos, ou R$ 10.078 por hectare. Na safra passada, foi de R$ 58,54 por saca e de R$ 8.892,62 por hectare, de acordo com o Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga).

Os itens que mais pesam nessa conta sa?o os agroqui?micos, respondendo por 13,7% ou 23,4 sacas por hectare, e os adubos e fertilizantes (9,3% ou 15,68 sacas por hectare). A a?gua e? o terceiro item mais representativo (8,9% dos custos). Nesta safra, os produtores ja? esperam uma alta ainda maior devido aos principais insumos serem comprados em do?lar.

Na u?ltima venda realizada ainda em outubro, Davenir dos Santos conseguiu vender a saca por R$ 110, o maior prec?o do ano ate? agora. Mas o custo de produc?a?o para esta safra, que segundo ele hoje esta? em cerca de 110 sacas por hectare, desanima os produtores. O adubo comprado por R$ 850 por tonelada em 2018 hoje esta? em R$ 2.200.

Caminhos da Safra

Para fazer esse produto, essencial na cesta ba?sica, chegar aos grandes centros consumidores, paga-se um prec?o alto tambe?m. Depois da secagem de gra?os, o frete e? o que mais onera o produtor nas despesas de po?s-colheita, chegando a 5% a 7% do custo total de produc?a?o.

O escoamento da safra ocorre, principalmente, por longas dista?ncias em estradas sob condic?o?es preca?rias, numa regia?o cercada por rios navega?veis e onde ferrovias caducam na obsolesce?ncia.

Na primeira etapa de viagens do Caminhos da Safra, se?rie de reportagens especiais sobre a logi?stica do agro, a equipe da revista Globo Rural percorreu cerca de 1.500 quilo?metros de estradas no Rio Grande do Sul, seguindo pela BR-290, de Porto Alegre a Uruguaiana.

A u?ltima parada foi o Porto de Rio Grande, onde o arroz e? exportado para outros pai?ses e tambe?m embarcado para abastecer o Norte e o Nordeste, em operac?a?o de cabotagem, quando o transporte e? realizado em navios que viajam pela costa do mesmo pai?s. A reportagem tambe?m trafegou pela BR-293 e pela BR-116, que liga Rio Grande a? capital, para registrar as condic?o?es das estradas usadas no escoamento da safra de arroz.

Porto de Rio Grande, que movimentou 1,6 milhão de toneladas de arroz entre janeiro e setembro deste ano (Foto: Carlos Stein)

Porto de Rio Grande, que movimentou 1,6 milhão de toneladas de arroz entre janeiro e setembro deste ano (Foto: Carlos Stein)

Uma das regio?es visitadas foi a fronteira oeste, que responde por 30% do plantio de arroz no Rio Grande do Sul e concentra as maiores plantac?o?es do pai?s: Uruguaiana (79,7 mil hectares), Itaqui (62,5 mil hectares), Alegrete (52,7 mil hectares) e Sa?o Borja (36 mil hectares). A lista dos cinco maiores se completa com Santa Vito?ria do Palmar (64,9 mil hectares), na fronteira com o Uruguai.

Transporte do arroz

Em Alegrete, o maior munici?pio gau?cho, as dificuldades logi?sticas se multiplicam por mais de 5 mil quilo?metros de estradas municipais, muitas de cha?o batido e com pontes com limites de carga que na?o comportam o tra?fego de caminho?es. Os motoristas precisam percorrer trajetos mais longos para chegar aos grandes centros urbanos.

A presidente da Associac?a?o dos Arrozeiros de Alegrete, Fa?tima Marchezan, calcula que somente o transporte tera? um peso de ate? 8% nos custos de produc?a?o da safra 2020/2021, que deve chegar ao mercado em janeiro. O custo total do plantio e? estimado em torno de R$ 7 mil a R$ 8 mil por hectare na regia?o.

Fátima Marchezan, Presidente da Associação dos Arrozeiros de Alegrete (Foto: Marcelo Curia)

Fátima Marchezan, Presidente da Associação dos Arrozeiros de Alegrete (Foto: Fernando Martinho)

O produtor e industrial One?llio Pilecco defende a diversificac?a?o do modal de escoamento do arroz para gerar mais eficie?ncia e reduzir os custos da atividade. “Na fronteira oeste, o custo ferrovia?rio sempre foi cerca de 30% a 35% menor do que o rodovia?rio e nos ajudaria muito, mas na?o temos uma malha que nos interligue em ni?vel nacional. A malha ferrovia?ria do Brasil foi regionalizada e precisa de uma integrac?a?o nacional.”

A participac?a?o das ferrovias na matriz logi?stica e? de aproximadamente 6% no Rio Grande do Sul, segundo a Age?ncia Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). A malha e? de aproximadamente 3.259 quilo?metros de linhas e ramais ferrovia?rios, utilizados quase exclusivamente para o transporte de cargas, com a maior parte apresentando bitola de 1 metro (apenas 5 quilo?metros apresentam bitola mista, com o objetivo de realizar a integrac?a?o com as malhas argentinas e uruguaias).

"Somente o transporte terá um peso de até 8% nos custos de produção da safra 2020/2021, que deve chegar ao mercado em janeiro"

Fátima Marchezan, Presidente da Associação dos Arrozeiros de Alegrete

Para Andre? Ziglia, diretor de suprimentos e come?rcio exterior da Camil Alimentos, a logi?stica concentrada no modal rodovia?rio e? um entrave que precisa ser reformulado no pai?s. A Camil beneficia cerca de 790 mil toneladas de arroz no Rio Grande do Sul, Tocantins, Maranha?o, Pernambuco, Goia?s e Rio de Janeiro.

Parte do produto que sai das unidades da empresa em Rio Grande, Camaqua? e Capa?o do Lea?o e? escoada para o Norte e o Nordeste via cabotagem, o que representa 25% do volume total produzido no Estado pela companhia. Isso porque, segundo levantamento da indu?stria, a cabotagem e? entre 40% e 45% inferior ao modal rodovia?rio.

Para o mercado interno, o arroz, que e? um dos produtos agri?colas de menor valor agregado, utiliza a cabotagem como meio para escoar a produc?a?o para locais mais distantes do pai?s.

O diretor executivo da Federac?a?o Nacional das Age?ncias de Navegac?a?o Mari?tima (Fenamar), Andre? Zanin, afirma que a cabotagem e?, de longe, um dos modais mais baratos no Brasil e em qualquer pai?s do mundo baseado em diversos itens quando se compara com o rodovia?rio.

Zanin explica que a cabotagem tem outras vantagens, como a maior previsibilidade de tempo de chegada e o menor risco de sinistros na carga (roubo e/ou avarias), que sa?o custos muitas vezes intangi?veis, mas que tambe?m precisam serem considerados.

“O transporte rodovia?rio e? imbati?vel ate? a dista?ncia entre 600 e 800 quilo?metros. Apo?s isso, perde para o ferrovia?rio e a cabotagem onde houver rotas de atendimento. Considerando que a produc?a?o de arroz precisa chegar ao nordeste e norte do nosso extenso pai?s, de certo na?o ha? comparac?a?o quando o cereal e? embarcado em navios em comparac?a?o com o modal rodovia?rio”, afirma Zanin.

No entanto, o economista Luiz Anto?nio Fayet avalia que o custo da cabotagem no Brasil ainda e? caro comparado com o frete para outros pai?ses. “O custo da cabotagem no Brasil e? proibitivo. Alguns produtos, a?s vezes, sa?o transportados por cabotagem ou porque aproveitam o frete de retorno ou por algum fator que permite isso. Mas a cabotagem no Brasil tem um prec?o maluco, com uma se?rie de reservas de mercado que destroem a cabotagem”, diz.

Segundo Fayet, os custos com tripulac?a?o no Brasil podem ser de duas a tre?s vezes mais caros e um navio que a empresa brasileira precisa comprar custa duas vezes mais do que na China ou no Japa?o. “Se voce? tem uma estrutura de custos duas a tre?s vezes mais cara, e? claro que a tarifa vai explodir. Com a pandemia, houve ainda uma desestruturac?a?o de todos esses custos, com os problemas de falta de conte?ineres.”

ALANA FRAGA

Fonte : Globo Rural

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