Arroz integral movimenta venda doméstica do cereal

Luis Ushirobira/Valor / Luis Ushirobira/Valor
"Fazemos variações sobre o tema para nos diferenciarmos e atingirmos um público gourmet", diz Borges, da Mãe Terra

Há pelo menos uma década, o consumo de arroz no Brasil está estagnado – não cai, já que os brasileiros não abrem mão do clássico "arroz com feijão", mas tampouco cresce com a recente guinada na ingestão de carnes, leite e derivados propiciada pelo aumento de renda da população.

O país consome, no total, cerca de 8 milhões de toneladas de arroz por ano, com pequenas variações para cima ou para baixo entre um ano e outro. Por esse motivo, seria de se estranhar a proliferação de novas marcas do cereal no mercado. Mas isso vem acontecendo, sobretudo nas capitais, e com uma característica comum: os lançamentos são quase sempre de arroz integral.

"Diferentemente do arroz branco, cujo consumo é vegetativo no Brasil, o integral vem crescendo a taxas anuais de 20%", diz Marco Aurélio Amaral Jr, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Arroz Parboilizado (Abiap), com sede no Rio Grande do Sul, maior produtor nacional de arroz. Nada que já mude a cor do prato. O cereal integral, conhecido pela cor amarronzada, representa somente 1% do consumo nacional. Muito pouco, portanto, para uma população com consumo médio per capita de 40 quilos de arroz ao ano – no Nordeste são 70 quilos.

A resistência à cor – integral combina com feijão? – e o menor tempo de prateleira explicam, em parte, por que o consumo ainda é pequeno no Brasil, embora crescente. O preço, em geral 25% mais alto que o do branco, é outra razão. Para reduzi-lo, só com ganhos de escala, afirmam os beneficiadores do cereal. O cozimento lento também é um entrave, e os lançamentos do grão integral de rápida cocção mostram que a indústria está atenta.

Apesar de tudo isso, a opção pelo arroz integral tem migrado paulatinamente da mesa dos "naturebas", adeptos incondicionais, para um espectro mais amplo da população. No Grupo Pão de Açúcar (GPA), maior rede varejista do país, a guinada no consumo do produto tem sido percebida não só na bandeira de mesmo nome, que tem tíquete maior, mas também nas lojas Extra, que são mais populares.

De acordo com Fábio Prado, gerente comercial da categoria arroz do GPA, a tendência é de crescimento constante no arroz integral – de janeiro a outubro, o item registrava alta de 13% na comparação com igual período de 2012. O salto, segundo ele, ocorreu de 2010 para cá.

A participação do arroz integral no volume de arroz comercializado no GPA dobrou de 5%, em 2010, para 10% na estimativa de fechamento para 2013. O número de marcas também aumentou – são 11 atualmente, incluindo a marca própria da casa -, mas o que mais chama a atenção de Prado é o sortimento. A indústria agregou ao arroz integral outros grãos e cereais.

Caso da Mãe Terra, empresa sediada em Osasco (SP) com um portfólio de 140 itens de produtos naturais e orgânicos, que se reposicionou no segmento de arroz para driblar a concorrência dos gigantes no ramo. Isso porque todas as grandes marcas do mercado – entre elas Camil e Tio João, da empresa Josapar, líderes no ranking nacional da indústria de arroz – disponibilizam já há alguns anos a opção integral.

"Fazemos variações sobre o tema para nos diferenciarmos e atingirmos um público gourmet", diz Alexandre Borges, diretor-geral da Mãe Terra. Ao grão integral são acrescentados sete tipos de cereais, perfazendo oito linhas de arroz integral. O crescimento anual é de 20%, diz ele, a mesma média da concorrência. Otimista, Borges afirma que a tendência é que o integral se torne também uma commodity.

"Hoje, qualquer restaurante por quilo oferece a opção de arroz integral ao lado do branco", diz Borges. Segundo o executivo, o aumento no consumo é sentido dentro do restaurante da própria Mãe Terra, onde metade dos cerca de 200 funcionários passou a preferir o integral ao branco no dia a dia.

Procurada pelo Valor, a concorrência não quis conceder entrevista, alegando "questões estratégicas" e a "importância desse mercado". Ampliar a disponibilidade de arroz integral, afinal, é uma decisão industrial, pautada pela demanda. "O arroz é o mesmo. O produtor entrega o cereal com casca e a indústria decide se coloca branco (beneficiado e polido) ou integral no mercado", diz Amaral, da Abiap.

A "estratégia" virou uma "questão" porque os brasileiros passaram a enxergar o cereal integral como um aliado à saúde. Por não ser beneficiado, o produto segue para o consumidor em seu estado bruto, envolto pelo farelo que lhe confere a cor marrom, a dureza para o cozimento e também os nutrientes a mais que o do equivalente branco.

O aumento da renda no Brasil – 8,6%, em média, entre 2008 e 2012 – tem impulsionado o consumo doméstico de alimentos com maior valor agregado. Carnes e derivados de leite, além de bebidas, estão alta e não devem retroceder. A expectativa do governo é que continue por mais uma década. Por outro lado, a demanda por produtos básicos, como arroz e feijão, tem crescido por volta de 1% ao ano, associada ao aumento da população.

O que a indústria de arroz aposta é justamente no meio do caminho: o maior poder aquisitivo que permite o acesso a hábitos alimentares melhores. O arroz integral é mais caro, mas mais saudável.

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Fonte: Valor | Por Bettina Barros | De São Paulo

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