Arroz brasileiro ultrapassa fronteiras e amplia espaço no mercado interno

Beneficiado pelo dólar na casa dos R$ 5,00 e pelo aumento do consumo global, o arroz brasileiro ganhou espaço e competitividade no mercado externo, ao mesmo tempo em que foi essencial para abastecer os consumidores nacionais ávidos por manter suas despensas cheias nos primeiros tempos da pandemia, temendo um desabastecimento geral.

A corrida inicial aos supermercados entre março e abril – quando o temor de desabastecimento se espalhou pelo Brasil -, o aumento das ações públicas e particulares de distribuição de cestas básicas à população de baixa renda e a retomada por parte da população do hábito de preparar as próprias refeições são outros fatores que favoreceram o desenho do cenário positivo.

Os resultados obtidos até agora animam o setor responsável por 50 mil empregos diretos, distribuídos por 184 indústrias e 8 mil propriedades rurais instaladas no Rio Grande do Sul, e ajudam a salvaguardar parte da abalada economia gaúcha, que conforme análises recentes divulgadas pelo governo do Estado deve encolher, no mínimo, 10% este ano.

O Sumário Executivo do Arroz, divulgado pelo Ministério da Agricultura em julho, indica que, no primeiro semestre do ano, as exportações chegaram a 953 mil toneladas ao valor de US$ 266 milhões. Isso representa um aumento de 40% com relação ao mesmo período do ano passado, quando 679 mil toneladas deixaram o País movimentando US$ 169 milhões.

Somente em junho, o volume exportado chegou a 316,1 mil toneladas, o que representou um incremento de 1.108% na comparação com o mesmo mês de 2019 e, conforme os dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério da Economia, superou o recorde mensal de embarques registrado em dezembro de 2018 quando foram negociadas 287,1 mil toneladas. A composição das vendas para o exterior em junho deste ano foi de 27,8% de arroz quebrado, 30% de arroz em casa e 42% do grão beneficiado – os principais destinos foram países da América Latina como Costa Rica, México e Venezuela.

Aliado a este contexto favorável, os primeiros meses do ano encontraram os estoques nacionais baixos devido aos bons resultados das exportações no ano anterior, o que causou uma valorização quase imediata do produto. A saca de 50 quilos de arroz irrigado, por exemplo, começou o ano vendida a R$ 54,00 em Pelotas e, nos dias atuais, está cotada em R$ 67,00.

Na indústria, a valorização foi semelhante: em fevereiro, o saco de 60kg de arroz tipo 1 Agulhinha era comercializado a R$ 115,00 no Rio Grande do Sul, e, agora, custa R$ 157,00.

"A pandemia colocou o arroz em um outro patamar e, apesar de todo o contexto, é um ano muito bom para a cadeia como um todo e que favorece a recuperação do setor", comenta Marco Aurélio Amaral Júnior, presidente da Associação Brasileira das Indústrias do Arroz Parboilizado (Abiap).

O fato de o Brasil não ter paralisado a indústria de alimentos nos primeiros meses de ajuste das regras de isolamento social é apontado pelo executivo como mais um ponto a favor do grão. Com liberdade para trabalhar, as fábricas mantiveram a produção a pleno e puderam buscar ampliar suas carteiras de clientes dentro e fora do País.

Porém, afora o vírus e seus efeitos devastadores, nada disso soa como novidade aos integrantes da cadeia produtiva que já viveram dias de preços em alta, mercado em expansão e otimismo espraiado. "Em 2008, tivemos um cenário semelhante, com a tonelada do arroz vendida a US$ 1 mil e nos enganamos achando que seria um momento duradouro, mas não aconteceu a esperada corrida pelo produto e os preços despencaram", lembra Amaral Júnior.

A partir disso, o executivo defende um olhar mais crítico sobre o cenário futuro de curto prazo especialmente fora do País, pois em setembro os Estados Unidos -principal concorrente brasileiro na América Latina – começa a colher sua safra e isso irá reduzir o número de compradores em países como México, Costa Rica, Nicarágua e Porto Rico, por exemplo.

"Estamos imaginando estar subindo a ladeira, mas não houve um aumento real de consumo, somente aumentos pontuais. Acredito que o mercado está começando a voltar aos patamares anteriores então precisamos aproveitar para trabalhá-lo e ver como manter os patamares atuais sem depender da especulação", avisa.

Fonte: Jornal do Comércio

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