Argentina restringe volume de trigo para exportação em 2014

O governo argentino autorizou ontem a exportação de 1,5 milhão de toneladas de trigo da safra deste ano, volume muito inferior ao que foi autorizado no ano passado. Segundo o ministro da Economia, Axel Kicillof, a safra do cereal será de 9,2 milhões de toneladas e a liberação se dará em duas etapas: 500 mil toneladas para embarque imediato, e o restante, ao longo do ano, dependendo dos preços no mercado interno. O Brasil é o principal mercado comprador da Argentina.

Kicillof afirmou que o governo busca evitar a crise de abastecimento que marcou a indústria moageira em 2013. No início do ano passado, o governo fez uma previsão otimista da colheita, avaliando que poderia chegar a 12 milhões de toneladas. Houve autorização para exportação de até 5 milhões de toneladas, mas a colheita do cereal não passou de 8,2 milhões de toneladas.

Em meados do ano, as exportações foram suspensas, quando parte do estoque já estava comprometido com vendas externas. Faltou trigo e farinha ao mercado interno e o preço dos derivados disparou. Houve uma tentativa da indústria, freada pelo governo, de importar trigo do Uruguai. Na Argentina, as exportações de trigo são controladas pelo governo, e liberadas em quotas, depois de garantido o abastecimento do mercado interno, que é da ordem de 6,5 milhões de toneladas por ano. O erro de estratégia, cometido pelo então secretário de Comércio Interior Guillermo Moreno, foi um dos determinantes de sua demissão do governo argentino, em novembro.

Para consultores do setor privado, o governo está subestimando a safra de trigo deste ano. "Nossa estimativa é de 10,5 milhões de toneladas", afirmou Pablo Andreani, da consultoria Agripac. A mesma visão é compartilhada pelo empresário brasileiro, Lawrence Pih, dono de um dos maiores moinhos de trigo da América Latina, o Moinho Pacífico. "Acredito que a Argentina terá, com folga, um excedente exportável de 2,5 milhões de toneladas, pois a produção vai superar 10 milhões", disse Pih.

Para Andreani, da Agripac, a forte desvalorização cambial das últimas semanas deve estimular o produtor argentino a reter o cereal até meados do ano. "O clima é de alta, ainda que não devam se repetir os valores observados no ano passado que chegaram a US$ 750 a tonelada", disse Andreani. O preço do trigo nesta segunda-feira na Argentina valia o equivalente a US$ 240 a tonelada.

Para o economista Ricardo Delgado, da consultoria Analytica, o anúncio de uma exportação de apenas 1,5 milhão de toneladas é um sinal de que o governo está mais preocupado com a fluidez do abastecimento interno do que com a formação de superávit no setor externo. "É demonstração clara de que conter a inflação é uma prioridade maior que ampliar o saldo comercial", disse.

Até agora, os moinhos brasileiros fecharam contratos de compra de 750 mil toneladas de trigo argentino, segundo Lawrence Pih. Isso reforça sua tese de que a exportação da Argentina num prazo mais "imediato" deve superar o volume de 500 mil toneladas. "As tradings na Argentina têm crédito de imposto referentes a 1,6 milhão de toneladas de trigo que não foram embarcadas, mas para as quais houve recolhimento de imposto", lembra Pih.

Na sexta-feira, o USDA reduziu a previsão de produção de trigo argentino a 10,5 milhões de toneladas, ante as 11 milhões de toneladas do estimado em dezembro. Para as exportações, o departamento previu um volume de 4 milhões de toneladas, ante as 4,5 milhões de toneladas previstas anteriormente.(Colaborou Fabiana Batista, de São Paulo)

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Fonte: Valor | Por Cesar Felício | De Buenos Aires

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