Argentina ameaça barrar melão e melancia do Brasil

Melões são embalados para exportação no Ceará: Brasil não vê motivo para travas
O governo argentino está apertando o cerco sobre as frutas brasileiras. Um grupo de técnicos do Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar (Senasa), vinculado ao Ministério da Agroindústria da Argentina, virá ao Brasil no próximo mês fiscalizar algumas regiões produtoras de melão e melancia. As autoridades argentinas afirmam que identificaram inconformidades com o plano de trabalho e os requisitos fitossanitários acordados entre os dois países há alguns anos.

O grupo fará a visita entre 18 e 20 de maio em lavouras na Chapada do Apodi, localizada entre o Rio Grande do Norte e o Ceará, onde se concentra a maior parte da produção de melão e melancia do país, para verificar os sistemas de monitoramento de pragas na região. A Senasa informou ao Valor que o objetivo é auditar o plano de trabalho bilateral e atualizá-lo.

A região da Chapada do Apodi já é considerada por muitos países como livre de uma das principais pragas do melão, a Anastrepha grandis, uma mosca que consegue furar a casca da fruta e colocar seus ovos dentro.

Segundo uma fonte do ministério da Agricultura brasileiro, que prefere falar em condição de anonimato, a visita é uma ameaça velada de suspensão das importações das duas frutas brasileiras. A última vez que a Argentina importou os dois produtos do Brasil foi em outubro de 2015. No mês seguinte, os produtores argentinos começaram a colheita de verão, abastecendo o mercado interno com melão local, mas agora os trabalhos em campo estão próximos do fim.

No ano passado, a Argentina importou US$ 658 mil em melões e US$ 151 mil em melancias do Brasil. As vendas externas de ambas as frutas representam apenas 4% de todas as exportações da fruticultura brasileira ao país vizinho, que em 2015 somaram US$ 19,5 milhões.

Ainda de acordo com a mesma fonte, uma possível suspensão das importações de melão e melancia por parte da Argentina seria uma retaliação ao fato de o Brasil ter suspendido as importações de maçã, pera e marmelo do país vizinho durante um curto período de tempo em 2015.

"Eles têm o direito de erguer restrições às nossas frutas, mas impor suspensões só por retaliação não é um bom negócio para eles, porque o Brasil exporta pouco melão para a Argentina", diz a fonte, lembrando que a Pasta está "pronta para a briga", caso os argentinos queiram endurecer com o Brasil nessa questão.

A suspensão à importação de maçã e pera da Argentina foi imposta em março de 2015 depois que as autoridades brasileiras encontraram insetos vivos da espécie Cydia pomonella, conhecida como traça da maçã, em 15 carregamentos de maçã e pera da Argentina. A medida foi interpretada por autoridades e pelo setor produtivo como parte da disputa comercial entre os dois países por causa do embargo argentino à carne bovina brasileira, que ainda estava vigente na época. A Argentina derrubou a barreira às importações da carne brasileira em junho de 2015 e, no mês seguinte, o Brasil suspendeu a barreira às importações de maçã e pera argentinas.

Apesar da suspensão ter durado pouco tempo, os exportadores argentinos acusaram o golpe. A receita com as exportações apenas de maçã ao Brasil em 2015 caiu mais do que a metade, para US$ 22,3 milhões. Ainda assim, a maçã continuou sendo o principal produto da fruticultura argentina exportado ao Brasil. Dos US$ 205,4 milhões importados em frutas da Argentina pelo país, 11% corresponderam ao comércio de maçã. No ano anterior, a fruta havia sido responsável por 18% dessa receita.

Segundo Luiz Barcelos, presidente da Associação Brasileira de Produtores Exportadores de Frutas (Abrafrutas), a redução das vendas argentinas de maçã ao Brasil também esteve relacionada aos problemas econômicos locais, como a volatilidade do peso argentino, além das greves que interromperam a colheita.

Embora no governo a visita seja considerada uma ameaça velada, Barcelos disse esperar que os técnicos argentinos deem sinal verde para as vendas brasileiras de melão e melancia em pouco tempo, para que os produtores consigam aproveitar a janela de exportação. O Brasil costuma embarcar as duas frutas à Argentina entre abril e meados do mês de outubro, logo depois da colheita de ambas terminar no país vizinho. "Estamos tranquilos com os nossos sistemas de monitoramento", afirmou Barcelos.

Além da Argentina, os produtores de melão e melancia também aguardam uma resposta do governo chinês, que em janeiro enviou uma equipe técnica para avaliar as plantações da Chapada do Apodi e retirar as barreiras fitossanitárias para a importação das duas frutas.

Por Camila Souza Ramos e Cristiano Zaia | De São Paulo e Brasília

Fonte : Valor

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