Após 1º tri forte, economia volta a acumular estoques

Fonte: Valor | João Villaverde e Arícia Martins| De São Paulo

Claudio Belli/ Valor

Goldfajn, do Itaú Unibanco: "Desaceleração começou neste segundo trimestre"

A economia brasileira passou por forte aceleração no primeiro trimestre, mas, se não fossem as medidas macroprudenciais do Banco Central (BC) e os apertos fiscais realizados pelo governo, o ritmo da atividade teria sido muito mais acelerado. A avaliação é de Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco e ex-diretor do BC, para quem o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) entre o quarto trimestre de 2010 e os primeiros três meses deste ano será de 1,4%, feito o ajuste sazonal, mas poderia ser de até 2% não fossem os apertos.

O efeito esperado pelo Banco Central, contudo, pode ter começado em abril. Um sinal de que a atividade já começou a perder força é o recuo da produção industrial entre março e abril, apontado ontem pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). A atividade no setor se manteve, pelo quinto mês consecutivo, abaixo do usual para o mês, na avaliação dos empresários.

Em nota, a CNI destacou que os estoques em abril estavam acima do nível planejado pela indústria, indicando que a demanda não acompanhou a oferta nos primeiros meses. O índice de 51,4 pontos no nível de estoques mostra que eles cresceram em abril e, em relação ao planejado, a pesquisa revela que os estoques estão acima, registrando 51,8 pontos. O acúmulo de estoques indesejados é maior nas grandes empresas, que registraram 53,4 pontos no indicador.

Para Goldfajn, do Itaú Unibanco, as medidas de restrição à concessão de crédito foram mais efetivas, nestes primeiros meses, às famílias, o que reduziu o ímpeto de consumo, mesmo com a contínua expansão do mercado de trabalho. "Esse patamar de consumo, menos acelerado, atingirá os investimentos, especialmente a partir do segundo semestre", afirmou. O Itaú Unibanco estima em 3,3% a alta dos investimentos e em 0,8% do consumo das famílias no primeiro trimestre, em relação ao último trimestre do ano passado, com ajuste sazonal.

Segundo estimativas dos economistas do Itaú Unibanco, a composição do PIB neste primeiro trimestre terá invertido a verificada no último trimestre do ano passado – quando, em comparação com o trimestre anterior, o consumo das famílias cresceu 2,5% e os investimentos apenas 0,7%. "A composição do crescimento, neste primeiro trimestre, foi ótima", disse Aurélio Bicalho, especialista em atividade do Itaú Unibanco, "mas deve arrefecer já neste segundo trimestre".

Assim, para Goldfajn, as perspectivas para a inflação são "as melhores em muito tempo", uma vez que as commodities apontam "refresco", e o consumo também pressionará menos. O papel da política monetária, portanto, será diferente. Segundo Bicalho, o BC deve elevar os juros básicos em 0,25 pontos percentuais na próxima reunião, no início de junho, e estacionar a Selic em 12,25% ao ano até o fim de 2012.

"A economia está desacelerando. Se isso ficar claro nos próximos meses, como imaginamos, o BC ficará confortável para uma política monetária mais suave", disse Goldfajn, para quem tanto 2011 como próximo ano registrarão crescimento do PIB abaixo do potencial – 3,6% e 3,8%, respectivamente – o que não justifica uma política monetária tão apertada. "Teremos dois anos de crescimento mais modesto porque é preciso conter a inflação. Então o Copom vai subir os juros só mais uma vez e vai se convencer de que será suficiente", afirmou.

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