Análises divergem sobre qualidade do trigo

Pesquisadores atestam que 51% do cereal é indicado para panificação, mas, para indústria, esse número é de 14%

ANTONIO PAZ/JC
Reunião na sede da Farsul avaliou a última safra gaúcha do cereal, que atingiu 3,17 mi de toneladas

Reunião na sede da Farsul avaliou a última safra gaúcha do cereal, que atingiu 3,17 mi de toneladas

Das 3,17 milhões de toneladas de trigo colhidas no Rio Grande do Sul, cerca de 51%, ou seja, 1,54 milhão, estão enquadradas nas classificações de trigo melhorador e trigo pão, consideradas as ideais para a indústria de panificação. A avaliação foi apresentada nesta quinta-feira pela Embrapa Trigo, em parceria com a Universidade de Passo Fundo (UPF), durante reunião de representantes da cadeia do cereal juntamente com o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Neri Geller, na sede da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul).
Das 479 amostras colhidas da última safra, 37 são de trigo melhorador, que possui força de glúten (que é o conjunto de proteínas que ajudam no crescimento da massa do pão) entre 301 a 448, e 219 de trigo pão, com força de glúten entre 220 a 229. As demais amostras correspondem a variedades com força menor, que são direcionadas para outros usos da indústria, como biscoitos e massas.
No entanto, representantes da indústria, que também fizeram um levantamento com trigo gaúcho da mesma safra e que foi distribuído para moageiras do Estado e de regiões como Paraná e São Paulo, apresentaram números divergentes. Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), em 718 amostras analisadas, apenas 14% correspondem às variedades de trigo pão e melhorador, uma diferença de 37% dos números dos pesquisadores.
O presidente do Conselho Deliberativo da Abitrigo, Marcelo Vosnika, reconhece os esforços de produtores e pesquisadores no trabalho de atender ao pedido da indústria de variedades do trigo para panificação, mas avalia que a qualidade está abaixo do que deseja o mercado.  “A safra do Rio Grande do Sul foi boa, mas, como qualidade para panificação, ainda está um pouco aquém. Esse trigo não está ajustado à outra ponta ainda.”
O pesquisador chefe da Embrapa Trigo, Sérgio Dotto, explica que as metodologias de análise realizadas pelos pesquisadores são diferentes das que foram feitas pela indústria, que levaram em consideração outros fatores. “A análise da Abitrigo leva em consideração outros parâmetros. Eles levaram em consideração a farinografia (teste para a avaliação da qualidade de mistura e absorção de água da massa da farinha de trigo), que começou a valer a partir de 2012 na legislação brasileira. Foi uma análise mais criteriosa, de acordo com a demanda das indústrias que eles atendem”, avalia.
A maior preocupação da indústria, entretanto, é com a velocidade do mercado. Só em janeiro deste ano, a previsão da Abitrigo é de que, das mais de três milhões de toneladas disponíveis no Rio Grande do Sul, 800 mil toneladas sejam vendidas para moinhos de fora do Estado, enquanto outras 500 mil toneladas já foram compradas pelas indústrias gaúchas, o que quase chega a metade de toda a colheita do cereal em solo gaúcho. As indústrias do Estado consomem aproximadamente 1,6 milhão de toneladas ao ano, sendo que 1,2 milhão produzidas no Rio Grande do Sul, e o restante vêm de fora do país. “Os moinhos terão que comprar o ano inteiro, e a produção é concentrada em três meses”, ressalta Vosnika.

Fonte: Jornal do Comércio | Nestor Tipa Júnior

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