Ameaça no Sul, La Niña deverá poupar demais regiões do país

Roberto Witter/Ag. RBS/Folhapress / Roberto Witter/Ag. RBS/Folhapress
Quinto maior produtor de milho do país, RS é o Estado que mais sofre com a seca

Novamente sob influência direta do fenômeno La Niña, provocado pelo resfriamento das águas do Oceano Pacífico, o clima para a agricultura brasileira tende a registrar chuvas dentro da média para a maior parte das áreas produtivas nos primeiros meses de 2012. A exceção é o Sul do país, que deve seguir castigado pelo clima seco. A estiagem extrapola as fronteiras brasileiras e afeta também lavouras de grãos da Argentina e do Uruguai, o que tem colaborado para sustentar as cotações de produtos como milho, soja e trigo nas principais bolsas do mundo nas últimas semanas.

De acordo com previsões da Somar Meteorologia, as lavouras gaúchas continuarão a sofrer mais com a escassez hídrica, mas a luz amarela permanece acesa para o Paraná e, já no Centro-Oeste, também para Mato Grosso do Sul. Na Argentina e no Uruguai também não há previsão de chuvas significativas nessas primeiras duas semanas de janeiro.

Desde novembro com precipitações bem abaixo da média, o Rio Grande do Sul é o terceiro maior Estado produtor de grãos do país. No ranking do milho, a cultura gaúcha mais afetada até agora, está na quinta posição, segundo dados da Conab. A tendência, segundo a Somar, é que o Rio Grande do Sul continue com baixo índice de chuvas nos primeiros 15 dias de janeiro.

Em Passo Fundo (RS), uma das regiões gaúchas mais importantes na produção de grãos, deverá chover apenas entre 20 ou 30 milímetros (mm) na primeira quinzena deste mês, bem abaixo da média histórica mensal de 145 mm. "Essa região está há cerca de 30 dias sem chuvas, quadro que mudará pouco nessa primeira quinzena", diz Paulo Etchichury, diretor da Somar.

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Além do milho, a falta de chuvas vem prejudicando soja precoce, pastagens e lavouras de feijão, batata e outros hortifrutis, segundo boletim da Emater-RS, a empresa de pesquisa e extensão rural do Rio Grande do Sul.

O Paraná, maior produtor nacional de milho, e Mato Grosso do Sul, produtor de grãos considerável e novo polo canavieiro, tambem padecem com a estiagem. Chuvas entre 20 mm e 30 mm são esperadas para a região de Cascavel (PR) e para Dourados (MS) até 15 de janeiro, mas não em patamares que tragam tranquilidade ao produtor, segundo a Somar. Isso porque, explica Etchichury, esses Estados tiveram forte seca em dezembro, que se prolongou por mais de 20 dias.

A Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar) já admite perdas em algumas regiões produtoras do Estado, mas ainda não tem estimativas do volume afetado na safra.

Já em Mato Grosso o clima tende a não prejudicar a colheita de soja, que está começando. Maior produtor nacional da oleaginosa, o Estado deve receber as típicas chuvas de verão, mas intercaladas com largos períodos de ocorrência de sol, condição propícia para a entrada das máquinas de colher no campo. Sorriso, um dos municípios mais importantes na produção do grão, terá na primeira quinzena do ano chuvas entre 130 mm e 150 mm, com potencial de atingir a média mensal de 350 mm.

Uma das culturas mais prejudicadas pelo clima nos últimos dois anos no Centro-Sul, a cana tende a se desenvolver em um clima mais favorável no primeiro semestre deste ano. As chuvas de verão devem ser regulares, o que favorece o desenvolvimento das plantas, e tendem a cessar no começo da segunda quinzena de abril, justamente quando começa a colheita começa na região.

A notícia ruim é que novamente há chances de ocorrência de geadas no inverno, a partir de julho. De acordo com Etchichury, na referida estação o fenômeno La Niña deve perder força e o clima, assim, deve voltar à "neutralidade". "A ocorrência de geada no inverno de algumas regiões de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Paraná é o padrão climático, não é atípico", explica. "A cana é que se expandiu para essas áreas que têm risco natural de geadas", diz o meteorologista.

Apesar de chuvas abaixo da média em dezembro nas regiões tradicionais de cana, a tendência é de precipitações mais regulares a partir deste mês. Em Ribeirão Preto, por exemplo, tradicional região canavieira de São Paulo, a previsão para os primeiros quinze dias de janeiro é de chuva de 200 mm, o que mostra grandes chances de a região atingir a média histórica para o mês que é de 300 mm.

No cultivo de grãos, o alerta da Somar recai sobre os produtores rurais adeptos da chamada "safrinha" (segunda safra). Segundo Etchichury, de forma geral as chuvas do primeiro semestre do ano dificilmente se estendem até maio nas regiões de grãos do Centro-Oeste. Devem parar na primeira quinzena de abril.

Com isso, não é recomendado, segundo ele, extrapolar a janela de plantio da segunda safra nem para milho e nem para algodão, prática comum em regiões mato-grossenses. "O risco climático será grande", avisa o especialista.

Em 2011, os produtores de algodão de Mato Grosso tiveram perdas na segunda safra pois "esticaram" a janela de plantio. As chuvas desejadas não ocorreram nem no fim de abril e nem em maio, derrubando a produtividade e a qualidade da fibra.

De forma geral, a meteorologia prevê um primeiro semestre de clima muito semelhante ao mesmo intervalo de 2010. "No entanto, vemos ainda indefinições sobre o que ocorrerá no segundo semestre", diz Etchichury.

Fonte:  Valor | Por Fabiana Batista | De São Paulo

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