Ambiente atrativo

Com o compromisso de colocar o Rio Grande do Sul de volta na rota do desenvolvimento, o advogado Tarso Genro, do PT, elegeu-se governador no primeiro turno em 2010. Tirar a promessa do papel é uma tarefa dura. A perda de participação da economia gaúcha nos últimos anos é comprovada em números. Levantamento da Fundação de Economia e Estatística (FEE) mostra que, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 36,5% de 2002 a 2010, o do Estado avançou bem menos, 25,1%. A fatia nas exportações brasileiras passou de 10,9% em 2001 para 7,17% em 2012, e o Rio Grande do Sul caiu do segundo lugar no ranking nacional para a quinta colocação.

"Nos anos 1950, o Rio Grande do Sul tinha um protagonismo forte na indústria e na agricultura. Com o correr dos anos, outros Estados melhoraram seus indicadores e perdemos importância relativa", diz o presidente da Agência Gaúcha de Desenvolvimento e Promoção do Investimento (AGDI), Marcus Coester. A globalização e a crise econômica mundial agravaram a situação. A indústria calçadista gaúcha, por exemplo, perdeu espaço para os asiáticos no mercado internacional. Além disso, a economia local tem uma forte dependência do setor primário, o que a torna mais vulnerável a problemas climáticos, que afetam não apenas o agronegócio, como a indústria de transformação, os serviços e o comércio.

"O Estado precisa desempenhar um novo papel, renovar o sistema produtivo para voltar a crescer", diz Coester. Para enfrentar a batalha, a administração Tarso Genro desenhou um sistema de desenvolvimento, que tem na política industrial sua linha mestra. Lideradas pela Secretaria de Desenvolvimento e Promoção do Investimento (SDPI), aproximadamente 600 pessoas, entre representantes de diversas secretarias, da iniciativa privada e da academia, participaram de cerca de 200 reuniões para discutir os pontos fracos e fortes do sistema produtivo e ações para torná-lo mais eficiente. A política industrial listou 22 segmentos considerados estratégicos para fazer o Rio Grande do Sul retomar o crescimento.

Além de atrair empresas de setores em ascensão – indústria oceânica, petróleo e gás, semicondutores -, a política industrial quer reter e facilitar a expansão de companhias já instaladas no Rio Grande do Sul ligadas a setores tradicionais – agronegócio, automotivo, bens de capital, móveis -, além de fortalecer os arranjos produtivos locais. Também enfatiza a importância da inovação como o grande diferencial competitivo e estimula a criação de novos parques tecnológicos. Resultado: 12 deles estão em fase de implantação.

"Temos a ambição de ter uma espécie de Vale do Silício de bombacha, tomando chimarrão", diz o governador Tarso Genro. "A participação do Estado é fundamental para criar um ambiente de inteligência, de inovação."

O governo também reformulou o Fundo Operação Empresa do Estado do Rio Grande do Sul (Fundopem), uma arma estratégica para atrair novos investimentos e estimular a inovação. "Para a concessão do benefício, a companhia precisa estar alinhada com a política industrial", diz Ivan de Pellegrin, diretor de planejamento, programas e captação de recursos da AGDI. A grande novidade do Fundopem é permitir abater do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) as despesas com o pagamento do salário dos funcionários dos centros de pesquisa, assim como os investimentos em ativos fixos. "Os benefícios superam as expectativas", reconhece o presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), Heitor José Muller.

É cedo para avaliar o impacto das medidas, mas os resultados começam a aparecer. Os investimentos privados anunciados desde o lançamento da política industrial, em 2011, até o fim do ano passado são de R$ 29,2 bilhões. Levantamento da AGDI mostra a existência de 198 projetos ativos, envolvendo R$ 21,6 bilhões e a criação de 47.207 empregos diretos. As maiores aplicações concentram-se nos setores automotivo e de implementos rodoviários (R$ 4,5 bilhões), indústria oceânica e polo naval (R$ 3 bilhões), biocombustíveis (R$ 1,3 bilhão) e petroquímica, produtos de borracha e material plástico (R$ 1,2 bilhão).

No fim do ano passado, a Celulose Riograndense anunciou um investimento de R$ 5 bilhões, o maior já feito pela iniciativa privada em toda a história do Rio Grande do Sul. A ampliação da fábrica de Guaíba permitirá aumentar a capacidade anual de produção de 450 mil toneladas para 1,75 milhão de toneladas. O empreendimento deverá entrar em operação em abril de 2015, quando vai oferecer cerca de 4.100 empregos diretos – atualmente, são 2.800. "Do ponto de vista ambiental, nenhuma planta será melhor do que a nossa", diz o presidente Walter Nunes. A celulose produzida em Guaíba será exportada para a Ásia, Europa e outros mercados.

Com tantos projetos em andamento, a corrida em busca de financiamentos intensificou-se. O Badesul Desenvolvimento S. A. liberou no ano passado R$ 1 bilhão em créditos, o mesmo valor concedido ao Estado pelo Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), um recorde. Já o saldo da carteira de crédito para pessoas jurídicas do Banco do Estado do Rio Grande do Sul (Banrisul) foi de R$ 8,4 bilhões, expansão de 17,4%.

Para retomar o crescimento, o Estado conta com a capacidade do setor privado de investir, uma vez que o pagamento de uma dívida de aproximadamente R$ 45 bilhões consome 12% do que é arrecadado – um total de R$ 2,4 bilhões em 2013. Os problemas não se limitam ao tamanho da dívida. "O pagamento dos servidores inativos consome R$ 5 bilhões por ano", comenta o secretário de planejamento, gestão e participação cidadã, João Motta.

A saída tem sido negociar, principalmente com o governo federal. Atacando em várias frentes, o Rio Grande do Sul conseguiu amealhar aproximadamente R$ 11 bilhões. A lista dos financiadores é grande: Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), entre outros. Com os recursos, alguns gargalos logísticos estão sendo resolvidos e cerca de R$ 1,55 bilhão será destinado neste ano às estatais gaúchas. A maior parte, R$ 809 milhões, irá financiar a área de geração e distribuição de energia. "A ideia é fazer os investimentos das estatais chegarem a R$ 10 bilhões nos próximos quatro anos, por meio de recursos orçamentários e de convênios com o governo federal", diz Motta.

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Fonte: Valor | Por Jane Soares | Para o Valor, de Porto Alegre

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