Ambev busca a autossuficiência em cevada

Região do Planalto gaúcho é considerada estratégica, mas área plantada no Rio Grande do Sul precisaria triplicar

Luiz Eduardo Kochhann, de Passo Fundo

ALEX BERGMANN/DIVULGAÇÃO/JC

A produtora Celi Webber, de Coxilha, defende a cultura devido às garantias de compra

A produtora Celi Webber, de Coxilha, defende a cultura devido às garantias de compra

O agronegócio gaúcho terá um papel decisivo para que os planos da Ambev para a indústria cervejeira saiam do papel. A empresa quer obter autossuficiência em cevada brasileira, evitando a necessidade de importação para processamento nas suas duas maltarias localizadas em solo nacional, uma em Passo Fundo e outra, em Porto Alegre. Cerca de 20% da matéria-prima precisa ser buscada no Uruguai e na Argentina, principalmente. Atualmente, o Rio Grande do Sul, que representa quase que a totalidade da produção brasileira de cevada, planta 55 mil hectares por ano. Para obter uma quantidade segura mesmo em anos de clima desfavorável, os técnicos da companhia apostam em triplicar essa área, chegando aos 150 mil hectares.

Nesse cenário, a região do Planalto Médio é considerada estratégica. Uma das maltarias da Ambev – fábrica que processa a cevada utilizada na elaboração da bebida – foi inaugurada, em 2013, na cidade de Passo Fundo, com investimento na casa dos R$ 140 milhões. Desde então, o plantio cresceu 25% em área. Anualmente, a planta fornece 110 mil toneladas de malte, obtidos a partir de 135 mil toneladas de cevada, para a indústria cervejeira. A estrutura possui potencial para duplicação. “Nossa demanda cresce ano a ano e temos planos para novas fábricas. Nesse sentido, o fato de termos construído aqui em Passo Fundo mostra que essa é uma região preferencial. Ainda que não possa precisar quando a duplicação acontecerá”, revela o diretor agroindustrial da Ambev, Marcelo Otto.

A meta, em 2015, é agregar cerca de 15 mil hectares a atual área plantada. Entretanto, o foco está na qualidade, tendo em vista que a germinação deve apresentar um índice próximo aos 95% para ser aproveitada. “Já tivemos o dobro da área no País. Mas queremos, em primeiro lugar, fazer de modo sustentável, ou seja, nos locais e solos corretos”, resume Otto. Para isso, a empresa quer se aproximar dos produtores, oferecendo assistência técnica, premiações por excelência e condições especiais de pagamento. Em relação ao preço, por exemplo, o produtor pode optar por duas modalidades: recebimento pelo preço mínimo – no momento, estabelecido em R$ 560,00 por tonelada – ou fixação do valor via cotação na bolsa de Chicago. Caso o cereal, avaliado pela Emater antes de entrar na fábrica, não tenha “qualidade cervejeira”, pode ser destinado ao consumo animal, mas com preço mais baixo.

A produtora Celi Webber, de Coxilha, conta com 130 hectares de cevada e optou pelo pagamento por meio do preço mínimo, o que deve render entre R$ 70,00 e R$ 80,00 a mais por tonelada em comparação com a cotação variável. Mesmo projetando queda na produtividade nesta safra, Celi defende a cultura, entre outros fatores, devido à garantia de compra. “A chuva castigou do início ao fim, do plantio ao trato da terra. Mas é uma cultura importante que, quando tem boa colheita, ajuda a diluir os custos de produção total da propriedade”, completa.  No total, existem duas mil famílias de agricultores dedicadas ao abastecimento da indústria.

Clima prejudica a qualidade e deve forçar a importação do cereal

Os planos de crescimento da participação da cevada nacional na produção de malte pela indústria cervejeira foram abalados pelo clima do inverno de 2014. Afinal, o ceral sofreu o mesmo impacto das outras culturas típicas dos meses frios do Rio Grande do Sul. Não bastasse a umidade elevada, a temperatura média nas regiões produtoras esteve dois graus acima da média histórica para o período. Ou seja, exposto a chuva e ao calor, o grão não se desenvolveu satisfatoriamente. “Esses dois fatores, além da falta de luminosidade, afetaram gravemente a qualidade do grão, que será menor e com mais incidência de doenças”, explica o agrônomo da Ambev, Dércio Oppelt. Uma vez confirmada a quebra da produção, a Ambev precisará aumentar a participação da matéria-prima importada, principalmente da Argentina, que hoje corresponde por 20% da cevada utiliza na planta de Passo Fundo.

A produtividade média esperada reflete em números o que está sendo observado pelos técnicos em visitas às lavouras na região do Planalto Médio. Em 2013, foram pouco mais de três toneladas por hectare. Se o clima for favorável nos próximos dias, a projeção para este ano é de que a margem fique abaixo de 2,5 toneladas por hectare. Dados mais precisos serão conhecidos no decorrer desta semana, quando a colheita será intensificada, e cargas maiores chegarão à indústria. Neste momento, a cevada passa por uma avaliação da Emater para verificar se possui qualidade cervejeira. Caso contrário, pode ser utilizada como forrageira, mas com valor de mercado menor para o produtor. Segundo técnico da Emater de Erechim, Waldir Machado, 40% do volume total pode estar comprometido.

Eloi Fruhauf, por exemplo, plantou 20 hectares de cevada por dois anos seguidos. O produtor acredita que conseguirá colher, em 2014, a metade – 37 sacas por hectare – do que foi obtido em 2013, quando a produtividade foi de 75 sacas por hectare, acima da média estadual de 51 sacas. “Vai dar bem menos, sem dúvida. Não vamos ter 50% da rentabilidade da última safra”, lamenta Fruhauf.

Fonte: Jornal do Comércio |

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