Alta nas vendas de soja não deve se manter

Compra de mais oleaginosa norte-americana pela China pode retrair exportações brasileiras no próximo semestre
Ainda que tenha ampliado a compra de soja brasileira entre janeiro de março deste ano em relação ao mesmo período do ano passado, a China deverá reduzir as aquisições por aqui especialmente no segundo semestre de 2020.Uma das razões seria a retomada das compras nos Estado Unidos.

Uma das moedas de barganha norte-americana na guerra comercial contra o gigante asiático, a compra de soja norte-americana passou a ter prioridade nas importações chinesas em acordo assinado no final de 2019. Segundo o especialista em mercado da soja na consultoria Safras & Mercado, Luiz Fernando Roque, apesar de a soja brasileira se tornar ainda mais competitiva com o dólar em alta no Brasil, a retração nas vendas é dada como natural neste cenário.

O dólar valorizado, diz Roque, reduz o preço pago pela oleaginosa brasileira em relação ao grão norte- americano, o que impede que os prêmios pagos nos portos sejam elevados – como ocorre quando o real está valorizando. Mas de qualquer forma, os embarques por aqui devem retroceder como reflexo do acordo entre Estados Unidos e China, divulgado no final de 2019, que prevê a compra preferencial de US$ 50 bilhões em produtos agropecuários norte-americanos pelos chineses, entre os quais a soja. “Isso deve ser sentido mais no segundo semestre de 2020.

Creio que esse volume menor pode ficar entre 5 milhões e 10 milhões de toneladas, em um cenário mais pessimista, elevando os estoques internos”, opina Roque.

Além do preço competitivo, porém, pode ajudar a fazer com esse número fique mais próximo dos 5 milhões o fato de a Argentina ter imposto taxação extra às suas exportações agrícolas recentemente.

Como o país forma a trinca de maiores exportadores do grão, avalia o especialista, a perda brasileira pode ser amenizada. Roque avalia que a redução nas compras não viria como retaliação à “brincadeira de mau gosto” feita pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, sobre os interesses e responsabilidades chinesas na pandemia global. “Os chineses são pragmáticos, e a soja brasileira está mais barata”, sintetiza Roque.

Para o presidente da Associação dos Produtores de Soja do Brasil (Aprosoja), Bartolomeu Braz, a qualidade do grão nacional também seria um diferencial brasileiro, além do valor. Braz defende que soja produzida aqui tem proteína de melhor qualidade, alimentando e engordando mais rapidamente os plantéis chineses de aves, por exemplo, e com maior teor de óleo em relação à norte-americana.

“Os números do mercado mostram que o Brasil exportou, até o início de abril, 35 milhões de toneladas de soja para China entre janeiro e março, um recorde e acima de 40% em relação ao ano passado.

Em abril, outras 13,6 milhões de toneladas, segundo projeções de especialistas, já estariam sendo preparadas para embarque, outro recorde”, assegura Braz. Apesar de defender que no curto prazo não há uma preocupação com as exportações, Braz diz que para o futuro, sim, existem mais incertezas.

Parte delas devido à nova safra norte-americana de soja, que começa a ser semeada em área maior do que no ciclo anterior.

Os embarques de soja para a China entre janeiro e março deste ano totalizaram, em receita, US$ 6,2 bilhões, alta de 9,4% na comparação com o mesmo período de 2019, de acordo com a Confederação da Agricultura do Brasil (CNA).

No Rio Grande do Sul, de acordo com a Fiergs, do grupo de produtos mais exportado no primeiro trimestre do ano a soja foi o segundo item em valores (US$ 350 milhões), atrás apenas de carnes (US$ 452 milhões).

Fonte: Jornal do Comércio