Alta dos custos tem forte impacto na linha de abates

Redução no varejo deve alcançar cerca de 10,3 milhões de aves

Com dificuldades para manter os níveis de produção destinados ao mercado interno, especialmente, devido à forte alta nos preços da soja e do milho, frigoríficos do Estado vêm reduzindo os abates de aves e de suínos. Com valorizações que chegaram a superar os 100% nos insumos básicos para ração, que representam algo próximo de 60% dos custos de criação, diferentes plantas industriais estão reduzindo o ritmo para equilibrar as contas.

Os reflexos virão com elevação dos preços aos consumidores e já causam interrupções em linhas de abate e demissões no setor, de acordo com José Eduardo dos Santos, presidente da Organização Avícola do Rio Grande do Sul (Asgav/Sipargs). Segundo levantamento da Asgav, caso se intensifiquem as reduções de produção por parte das indústrias – de em média 15% -, resultarão numa diminuição de cerca de 10,3 milhões de aves a serem abatidas, o que significa que o equivalente a 21,2 milhões de quilos de aves deixarão de estar disponíveis no mercado.

Santos pondera que simplesmente repassar todo o custo da alta do milho e da soja aos preços que vão aos supermercados é complexo e que a indústria está no limite do que podia absorver.

De acordo com o executivo, há a limitação do que se pode transmitir, especialmente com a queda na renda, o desemprego e o fim do auxílio emergencial.

A retração nos abates de aves em janeiro em relação a dezembro, de acordo com a Asgav, foi de -13,12%. Em relação a janeiro do ano passado foi de quase 14% (caindo de 72,9 milhões para 63,9 milhões de cabeças). Em fevereiro, sobre janeiro, nova queda, de 4,93%; e redução de de 11,3% ante o mesmo mês do ano passado (60,2 milhões em 2021 e 67,9 milhões em 2020).

Mesmo com a elevação de cerca de 14% no preço da carne de frango ao consumidor entre fevereiro de 2020 e fevereiro de 2021, de acordo com levantamento do Iepe/Ufrgs, ainda há um descompasso em relação ao valor do milho e da soja no período.

Nestes mesmos 12 meses o milho se valorizou 75% e a soja 93%, segundo levantamento da Emater. "Estamos alertando desde o final do ano passado que haveria a necessidade de redução. Em novembro já se tinha perspectiva de cortes de cerca de 10%, cada empresa conforme suas necessidades. Algumas resolveram esperar na expectativa de que o mercado melhorasse, o que não ocorreu", diz Santos.

O executivo ressalta ainda que, em dezembro, foi solicitado ao Ministério da Agricultura que se tivesse um plano de contingenciamento para o setor. Uma das alternativas é poder importar milho dos Estados Unidos, de onde há limitações por ser grão transgênico, o que ainda não é autorizado no Brasil. "Pedimos também linhas de crédito para armazenagem. A ministra Tereza Cristina sinalizou que tentaria buscar soluções junto à CTNBio, ao Ministério da Ciência e Tecnologia e ao ministro Paulo Guedes formas de sermos atendidos em alguns destes pleitos, o que pode ser anunciado no final de março", antecipa Santos.

Entre as empresas que diminuíram os abates, comenta o executivo, estão a Cooperativa Languiru e Vibra, que realizou ajustes temporários e desligamentos na unidade de Soledade.

O frigorífico contava com 270 colaboradores na cidade, onde começou a investir em 2020, mas devido à retração do mercado e à atualização do mix de produtos teve que demitir 170. Em nota, a empresa destaca que ofertou a possibilidade de realocação aos colaboradores em outras unidades e que está implantando medidas para minimizar os impactos no quadro de funcionários da unidade.

Também em comunicado, a Vibra afirma que segue investindo na cidade, inclusive com a modernização da atual estrutura, na ampliação do frigorífico e na construção de uma nova fábrica de ração, com expectativa de retomar a operação a pleno o mais breve possível.

Fonte: Jornal do Comércio

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