Alta do milho pressiona as margens em aves e suínos

Francisco Turra, da ABPA: expectativa é de que o início da colheita de milho no Brasil alivie o quadro de preços altos
A disparada dos preços do milho no mercado doméstico fez soar o alerta na indústria produtora de carnes de frango e suína. Depois de dois anos em níveis bastante positivos, a rentabilidade do segmento sofreu uma deterioração em janeiro. O quadro agora é de margens já negativas na indústria de carne suína e praticamente nulas em frango.

Levantamento da MB Agro, braço agrícola da consultoria MB Associados, aponta que a margem da indústria de carne de frango baseada no sistema de integração – que inclui empresas como BRF e JBS Foods – está zerada neste momento. A reversão é considerável se comparada à margem média de 2015, de 10%. Na indústria integrada de carne suína, a situação é ainda pior. De acordo com a MB Agro, a margem do segmento está negativa em 4%, ante 11% positiva no ano passado. De acordo com o analista César Castro Alves, é o primeiro mês desde julho de 2013 em que a indústria de carne suína opera com margem média negativa.

"Estamos vivendo uma situação ímpar. Ninguém se preparou para isso", lamenta o diretor financeiro do grupo avícola paranaense GTFoods, Vitor Bellizia. Ao contrário de outros períodos em que o milho registrou forte alta – como em 2012 -, desta vez não se trata de um choque de oferta.

Ainda que possam haver relatos pontuais de escassez de milho devido à entressafra, os grandes responsáveis pela alta do cereal no país são o câmbio e o forte ritmo de exportações. Enquanto na bolsa de Chicago o preço do milho subiu 1,99% este ano, conforme o Valor Data, no mercado brasileiro a alta foi de 18%, segundo o indicador Esalq/BM&FBovespa. Em relação há um ano, o avanço no mercado doméstico é de 60%, para R$ 43,46 por saca.

Esse aumento impacta diretamente os custos de produção da indústria de carne de frango e suína. Estima-se que o milho represente 60% da composição da ração, insumo responsável por 70% do custo de produção total de carne de frango. A dependência do milho é ainda maior na indústria de carne suína, setor no qual a ração responde por 80% dos custos.

A crise econômica brasileira torna ainda mais delicada a tarefa de repassar o aumento de custos. "Começa pelos próprios compradores dos supermercados. Ninguém admite repasses", afirma Luiz Carlos Costa, superintendente do frigorífico mineiro Pif Paf, que é também um dos principais produtores de alimentos processados de Minas Gerais. Costa pondera que o mix de produtos da empresa, com mais processados, dilui os efeitos sobre as margens.

Empresas relativamente menos dependentes das carnes in natura, tais como BRF e JBS Foods, também tendem a sofrer menos. Procuradas, as duas não se pronunciaram.

Além da crise econômica, o padrão sazonal também trabalha contra a indústria de carne de frango e suína. Tradicionalmente, o início de ano, por concentrar os pagamentos de impostos e compras de itens como material escolar, é de demanda menor. O clima quente também ajuda a desestimular o consumo de carne suína, lembra o analista Augusto Maia, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), que é vinculado à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq).

Na avaliação de Maia, a situação dos suinocultores independentes – aqueles que não são integrados às grandes indústrias – é ainda mais delicada, tendo em vista que eles precisam comprar diretamente os insumos. Nos integrados, a responsabilidade de compra dos grãos fica com a indústria, que tem mais capital de giro. Hoje, cerca de 20% da produção brasileira de suínos é feita por independentes, conforme Maia. Em um ano, o poder de compra do milho pelos suinocultores caiu 40% na região de Campinas (SP), segundo o Cepea.

Com a explosão dos preços do milho e alertas de seus associados, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que representa a indústria, pediu, em encontro na terça-feira, ao Ministério da Agricultura que faça leilões dos estoques do grão para amenizar a pressão de custos, e o governo assentiu. O ministério pode leiloar até 500 mil das 1,3 milhão de toneladas que a Conab tem armazenados.

Outras medidas que poderiam ter mais impacto, como o subsídio ao frete no escoamento do milho, são mais difíceis por conta das restrições orçamentárias.

Em resposta ao pedido da ABPA, o Ministério da Agricultura ponderou que a colheita de milho está prestes a começar, o que tende a aliviar a pressão. Os estoques de passagem, em torno de 10,5 milhões de toneladas, também são suficientes para abastecer a demanda nos próximos dois meses, informou o ministério.

Depois de encontro no ministério, o presidente da ABPA, Francisco Turra, disse estar mais otimista. De acordo com ele, a situação é transitória e o início de colheita de milho deve aliviar o quadro. Além disso, o fluxo de exportações de milho, que está muito alto, deve arrefecer para dar lugar nos portos aos embarques de soja. Ainda assim, ressaltou Turra, reajustes de preços são necessários. (Colaborou Mariana Caetano)

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor

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