Alta do óleo de palma oferece sustentação à cotação da soja

Problemas derivados do El Niño prejudicaram a produção de palma na Malásia
O mercado global de soja, até pouco tempo atrás adormecido em meio ao excesso de oferta, voltou à vida graças ao óleo de palma, cujos preços subiram depois que a produção foi prejudicada pelo fenômeno climático El Niño. Essa alta serviu para valorizar o concorrente óleo de soja e, por tabela, também o grão.

"O mercado de soja vem recebendo impulsos de alta do óleo de palma, apesar da falta de força do mercado das rações", afirma Kona Haque, chefe de pesquisa na trading de commodities agrícolas ED&F Man. O processamento de soja em grão resulta em óleo e em farelo, este último muito demandado na alimentação animal.

Como cerca de 80% do esmagamento resulta em farelo, os preços do grão guardam estreita relação com as cotações de outras matérias-primas que também podem ser usadas nas rações, como milho e trigo. E uma vez que as produções e os estoques do trio têm se mostrado robustos nas últimas safras, suas cotações recuaram para patamares bem mais baixos do que os da segunda metade da década passada.

Ocorre que a alta acumulada de 45% das cotações do óleo de palma desde o piso de 2015 (2.685 ringgits malasianos por tonelada) aqueceu o mercado de óleo de soja e, consequentemente, também o do grão. Desde o início deste ano, o óleo de soja subiu 10% na bolsa de Chicago, para cerca de 33,60 por libra-peso, enquanto o grão registrou ganho da ordem de 5% no período e superou US$ 9 por bushel naquele mercado.

A escalada do óleo de palma foi impulsionada pelos problemas causados por adversidades climáticas à produção da Indonésia e da Malásia, países do Sudeste Asiático que lideram a oferta do produto. Em janeiro, a produção na Malásia caiu 19% em relação ao mês anterior, para 1,13 milhão de toneladas – o menor patamar em 11 meses e a produção mais baixa para um mês de janeiro em quatro anos.

Dorab Mistry, veterano especialista em oleaginosas e diretor da Godrej Industries, empresa química indiana, projeta uma queda em torno de 4% na produção conjunta de Indonésia e Malásia em 2016. No primeiro, a baixa prevista é de 32 milhões para 31 milhões de toneladas, enquanto no segundo, de 20 milhões para 19 milhões.

"O mundo está inundado por grãos de soja e, nesse contexto, os compradores vêm trocando o óleo de palma pelo de soja, também para refazer estoques", afirma Mistry. Os volumes de óleo de palma importados pela Índia, que é um dos principais consumidores do produto no mundo, subiram 25% nos últimos quatro anos, mas os de óleo de soja quadruplicaram.

Como houve chuvas na Indonésia e na Malásia nas últimas semanas, analistas dizem que a produção de óleo de palma vai se recuperar a partir de meados deste ano, o que tende a tirar suporte da alta de seus preços e de outras oleaginosas – que, para muitos, pode ter sido exagerada. "O preço do óleo de soja para a segunda metade deste ano e para o início de 2017, de cerca de 34 cents por libra-peso, é demasiado alto", afirma Stefan Vogel, chefe de pesquisa de mercados de commodities agrícolas do Rabobank.

Contudo, até que a produção de óleo de palma comece a se recuperar, a partir de julho, haverá espaço para novas altas, do produto e de seus concorrentes. "Os preços do óleo de palma vão subir pelo menos mais 10% a 15% e quase certamente vão chegar a 3.000 ringgits", diz Mistry, da Godrej Industries. Mas por quanto tempo o óleo de palma vai continuar impulsionando os preços da soja em grão?

Com a Argentina e o Brasil em época de colheita da safra 2015/16, o expressivo ritmo das exportações dos dois países poderia começar a corroer os ganhos observados neste ano. "As safras estão grandes, as moedas estão fracas e as exportações estão muito, muito fortes", afirma Vogel, do banco Rabobank.

Os preços estão especialmente suscetíveis aos embarques da Argentina, onde o novo governo reduziu o imposto sobre as exportações em 5 pontos percentuais, para 30%. Guillermo Rossi, analista especializado em oleaginosas e grãos na Bolsa de Comércio de Rosário, observa que as projeções para a colheita argentina de soja em 2015/16 variam de 58 milhões a 60 milhões de toneladas, pouco abaixo dos 61,4 milhões de 2014/15. E agricultores ainda retêm a produção como forma de segurança, de forma que os estoques de grãos e farelo do país seguem cheios.

"A Argentina foi, de longe, a maior exportadora de farelo e óleo de soja nos últimos meses", afirma Rossi. As remessas platinas de farelo de soja chegaram a 5,5 milhões de toneladas do primeiro bimestre, em comparação às 3 milhões de toneladas do mesmo período do ano passado. "Os embarques argentinos de derivados de soja deverão ser muito fortes nos próximos meses. Estou otimista", diz.

Para essas e outras informações, de forma geral o mercado espera com ansiedade o próximo relatório de oferta e demanda de grãos do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), cujas estatísticas balizam os preços internacionais dos principais grãos e seus subprodutos. Será o último cujo foco maior será a América do Sul. Mais para a frente, as atenções já estarão voltadas aos reflexos do clima sobre a próxima safra (2016/17) americana.

Anos em que o El Niño é forte, como 2015, costumam ser seguidos por outros em que o destaque é o fenômeno La Niña, que pode provocar estiagens no Meio-Oeste dos EUA. Em 2012, foi o La Niña que abalou o mercado americano de grãos. A NOAA, agência meteorológica americana, projeta atualmente chance de 50% de que o La Niña de fato faça diferença neste ano. Mas pode ser cedo para previsões. (Tradução de Sabino Ahumada)

Por Emiko Terazono | Financial Times

Fonte : Valor

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