Alimentos em xeque na fronteira

Divulgação

Juan Luciano, CEO da ADM, não acredita em uma "guerra comercial iminente"

Os agricultores americanos exportam bilhões de dólares em milho para a terra natal do cereal. As vendas ao México englobam desde o milho amarelo, destinado basicamente às galinhas, até o milho para pipoca consumida em cinemas.

O milho lidera as exportações agrícolas dos Estados Unidos ao México, que hoje somam US$ 17,7 bilhões ao ano, cinco vezes mais do que antes de os países assinarem o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta). As exportações mexicanas aos EUA subiram ainda mais: já alcançam US$ 21 bilhões, encabeçadas por frutas como limões e abacates, entre outros vegetais.

Não por acaso, portanto, produtores, tradings e executivos do setor de alimentos dos dois lados da fronteira vêm prestando bastante atenção a Donald Trump. O presidente americano prometeu rever o Nafta, construir um muro na fronteira entre os dois países e, possivelmente, impor tarifas às importações provenientes do México. Uma das vítimas poderá ser o comércio agrícola.

"A atitude mudou nas últimas três ou quatro semanas", diz Rajiv Singh, executivo que lidera a divisão responsável pelos clientes corporativos do Rabobank na América do Norte. "Logo após as eleições, as pessoas começaram a se perguntar se haveria algum impacto no comércio com o México, mas não se preocupavam [realmente] com isso", afirmou ele. Mas, depois de o novo governo americano assinar decreto após decreto, "as pessoas realmente passaram a pensar bastante sobre isso".

Trump já tirou os EUA da Parceria Transpacífico (TPP), um tratado comercial com outros 11 países que contava com forte apoio do cinturão agrícola americano. O presidente ainda chamou o Nafta, que também inclui o Canadá, de uma "catástrofe", e o considerou "injusto".

Os comentários do presidente indicam que ele está mais preocupado com os empregos do setor industrial do que com a produção dos alimentos e sua origem. Grupos agrícolas dos EUA, no entanto, temem ser alvo de retaliações do México. "O ponto vulnerável de Trump seria um contra-ataque contra o coração dos EUA", diz Richard Feltes, corretor da RJ O’Brien baseado em Chicago. Trump teve resultados eleitorais favoráveis na maioria dos Estados do "cinturão do milho" americano.

Os investidores também mostram preocupação com os riscos. As ações da americana ADM, uma das maiores exportadoras americanas de grãos para o México, estão em queda desde as eleições. Para tentar contê-la, Juan Luciano, CEO da companhia disse ontem a analistas não prever "uma guerra comercial iminente". "Acho que vamos negociar com nossos parceiros no México."

O México é o terceiro maior destino das exportações agrícolas americanas. Além do milho, também se destacam nos embarques trigo, lácteos e xarope de milho com alta concentração de frutose.

Um eventual desmantelamento do Nafta poderia trazer complicações, porque as cadeias de produção de alimentos nos EUA e no México se tornaram entrelaçadas. Na área de carne bovina, por exemplo, bezerros criados em Estados mexicanos como Chihuahua são enviados através da fronteira ao completar cerca de um ano. Confinamentos no Texas engordam os animais e os enviam a processadores também nos Estados Unidos, onde são abatidos. Cortes de carne, então, são enviados de volta a cidades mexicanas.

Em artigo intitulado jocosamente de "Os prováveis efeitos de uma guerra comercial para a agricultura dos EUA? Tristes!", Joseph Glauber, que foi economista-chefe do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), argumenta que a imposição de tarifas sobre as importações provenientes do Canadá e do México "devastaria cadeias de abastecimento" e custaria vários bilhões de dólares por ano aos produtores".

Entre as dez maiores empresas exportadoras de alimentos dos EUA para o México estão Barlett Grain, ADM, Cargill e CHS, além de processadores de carne como Tyson Foods e JBS, conforme a Panjiva, empresa especializada em dados de comércio exterior. No sentido oposto, entre as dez maiores estão a Driscoll’s, que cultiva frutas vermelhas, o Grupo Viz, processadora mexicana de carnes, a americana Mondelez; e a Mission Produce, que planta abacates.

Nem todos os interesses dos produtores estão alinhados, mesmo dentro dos EUA. Uvas colhidas no México, por exemplo, podem concorrer diretamente com as produzidas na mesma época no Coachella Valley, sul da Califórnia, mas não com as que são colhidas mais tarde no vale San Joaquin, mais ao norte. Portanto, os agricultores em Coachella e em San Joaquin podem ter pontos de vista diferentes sobre alterações no Nafta, como chamou a atenção um especialista americano.

Alfredo Díaz Belmontes, diretor-geral da Associação Mexicana de Horticultura Protegida, diz que exporta 81% para os EUA. "[A situação está] nos tirando da zona de conforto, nos sacudindo e nos obrigando a trabalhar na diversificação de mercados de uma vez por todas". Nesse sentido, disse, União Europeia, Ásia e Rússia ganharam importância. "Estamos muito preocupados com o que pode acontecer", afirmou, embora acredite na sobrevivência do Nafta.

Para os agricultores ao norte da fronteira, a perspectiva de uma deterioração das relações comerciais com países que são grandes importadores não poderia chegar em pior momento. Seus silos estão repletos com o excesso da produção, o valor das terras mostra moderação e os preços dos grãos estão baixos. Assim, um grupo de 133 grupos agrícolas e alimentícios enviou recentemente uma mensagem ao presidente alertando-o para agir com cuidado. "Minha sensação é que isso vai levar mais tempo do que as pessoas imaginam, tendo em vista da natureza intrincada e interdependente da agricultura", Singh, do Rabobank. (Tradução de Sabino Ahumada)

Por Gregory Meyer | Financial Times, de Nova York

Fonte : Valor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *