Alerta vermelho ambiental

Em pé, o senhor de 66 anos de rosto avermelhado típico dos habitantes dos países nórdicos deslizava, entusiasmado, o dedo indicador pelo mapa-múndi que decora a Comissão de Relações Exteriores do Senado. Havia apenas uma hora, o norueguês Jorgen Randers falava sobre o mesmo assunto que o pauta há quase cinco décadas: o futuro do planeta. Eis que veio a pergunta: "Qual é a sua expectativa sobre a Rio%2b20?". O especialista deu as costas ao painel, cruzou os braços e encarou o repórter: "Nenhuma". Quarenta anos após lançar o polêmico best-seller Os limites do crescimento, o acadêmico está cético quanto à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, que ocorre em junho, na capital fluminense. Em entrevista ao Correio, detalhou as previsões que faz em seu novo livro, 2052: previsões globais para os próximos 40 anos. E sentenciou que o consumo excessivo e a visão a curto prazo podem acabar com o planeta.

Para fundamentar as afirmações, Randers não recorre só ao baú de previsões. Ao contrário de 1972, tem agora um arsenal científico bem mais completo à disposição, com pesquisas detalhadas e a participação de 30 pensadores da área. Foi o material que lhe permitiu afirmar no livro, por exemplo, que as concentrações de dióxido de carbono na atmosfera deverão continuar crescendo até provocar um aumento de 2ºC em 2052 e 2,8°C em 2080, o que deverá aprofundar ainda mais as mudanças climáticas. Ou que a população global crescerá muito mais lentamente que o esperado, devido à redução do aumento da produtividade nos países ricos, mas chegará ao pico de 8,1 bilhões em 2040. E mais: em 2052, o mundo terá 3 bilhões de pobres.

"Não tínhamos muitas informações em 1972 para dizer quais seriam os verdadeiros problemas com água, agricultura ou poluição nas cidades. Apenas dizemos que aquele ritmo de crescimento causaria esses ou outros problemas. Agora, não. Podemos precisar que, no ritmo atual, vamos ter sérias mudanças climáticas na segunda metade deste século", vaticina. O aumento das temperaturas globais será causado por crescentes emissões de gases de efeito estufa, cujo auge deverá ser em 20 anos. Hoje, diz, já emitimos duas vezes mais gases do efeito estufa a cada ano além do que é absorvido pelas florestas e oceanos. "Já vivemos de uma maneira que não pode ser sustentada por gerações sem uma grande mudança. Haverá colapsos locais antes de 2052."

O acadêmico credita sua falta de esperança com a Rio%2b20 ao fato de não acreditar que os governos adotem a regulamentação necessária para forçar os mercados a alocar mais dinheiro em soluções climaticamente corretas. O trabalho da ONU, por exemplo, seria muito mais eficaz se houvesse recursos fartos. "Os países do G77 (coalizão informal de nações em desenvolvimento) deveriam chegar à Rio%2b20 e dizer: os meus cidadão têm o direito de emitir a mesma quantidade per capita de CO2 dos cidadãos dos países ricos. A negociação deveria ser por aí", sugere.

Desigualdade social

Convidado à comissão pelo senador Cristovam Buarque (PDT-DF), Randers já tinha debaixo do braço um exemplar do livro do senador Eduardo Suplicy (PT-SP) sobre o projeto renda mínima, que prevê o repasse mensal de uma quantia a todo cidadão. "Não acho que as mudanças climáticas serão resolvidas antes da desigualdade social. O Brasil devia liderar isso."

Integrante do Clube de Roma, organização fundada em 1968 e cujos membros incluem personalidades políticas, empresariais e do mundo científico para analisar problemas como os limites do crescimento econômico, Randers credita grande parte dos entraves para uma mudança de postura dos governos à fixação no imediatismo. "Eles pensam a curto prazo e pensam só na reeleição", critica.

"Já vivemos de uma maneira que não pode ser sustentada por gerações sem uma grande mudança. Haverá colapsos locais antes de 2052"

Jorgen Randers, especialista em questões climáticas

Os vilões

Jorgen Randers acredita que o aumento do consumo e o crescimento da população mundial serão os grandes vilões do meio ambiente no futuro. E esses fenômenos só ocorrerão nos países emergentes, como China, Índia, Brasil e África do Sul, já que os desenvolvidos deverão, em breve, estagnar tanto no crescimento da população quanto da economia. À China, Randers dedica uma atenção especial. Até 2052, o consumo per capita do país será equivalente a pelo menos 60% do verificado nos EUA, enquanto o desenvolvimento econômico médio de 14 nações emergentes deve triplicar nesse período. "O diferencial da China é que o governo deles têm poder de decisão. Lá, existe uma semelhança muito grande entre as aspirações da população e as da elite. O partido comunista sabe que pode cair fora se as duas coisas não coincidirem", defende. Ao Brasil, caberia o papel de liderar a discussão sobre conservação das florestas, biocombustíveis e inclusão social.

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Fonte: CORREIO BRAZILIENSE – DF | Jornalista(s): GUILHERME AMADO