AGRONEGÓCIOS – Tabelamento do frete preocupa laticínios gaúchos

Setor é um dos grandes prejudicados, pois atua apenas por rodovias

Setor é um dos grandes prejudicados, pois atua apenas por rodovias

Os laticínios gaúchos estão preocupados com o reflexo que a nova tabela de frete trará ao preço do leite ao consumidor e seu impacto sobre a inflação no Brasil. O assunto foi alvo de reunião de indústrias associadas ao Sindilat na tarde de ontem, em Porto Alegre. Segundo o presidente do Sindilat, Alexandre Guerra, a tabela divulgada mexe sensivelmente nos custos da produção e distribuição do leite no Rio Grande do Sul, com elevação que oscila entre 20% e 100% no preço do frete de acordo com a região do Estado.

"O setor do leite trabalha exclusivamente com transporte rodoviário e não tem alternativa. Desta forma, o impacto será mais expressivo no produto", pontua. O dirigente defende a livre negociação entre os players do mercado brasileiro. "Não existe hoje espaço para a adoção de tabelas de valores mínimos. Este custo quem irá pagar é o consumidor", ressaltou. A expectativa, alerta ele, é que o Supremo Tribunal Federal (STF) declare a medida inconstitucional.

Para driblar a elevação nos custos de frete, algumas empresas do setor estudam absorver a atividade de transporte ou, ao menos, parte dela. O grande dilema está na distribuição do produto acabado, uma vez que exige maior capilaridade. "A captação do leite no campo já é realizada por algumas empresas", informa. O risco, alerta o presidente do Sindilat, é que o encarecimento do frete acabe resultando na revisão de algumas rotas de coleta de leite o que, em último caso, acarretaria em abandono de áreas de pouco volume. "A indústria não quer excluir nenhum produtor, mas a elevação do frete pode tornar algumas operações inviáveis tanto no que se refere à captação quanto à comercialização", completou Guerra.

Além disso, o dirigente ainda prevê o efeito cascata da alta do frete nos insumos do setor lácteo. "Temos que pensar que o frete da madeira, do papel, das embalagens e insumos também sofrerão impacto, o que cria efeito cascata sobre a indústria e no produto que chega ao consumidor."

A Cargill também se manifestou ontem sobre o tabelamento. Para a empresa, a medida vai inviabilizar a comercialização antecipada de grãos e que avalia investir em frota própria de caminhões. "Uma alternativa a essa fixação de preços altíssimos que a empresa analisa para a próxima safra é o investimento na verticalização das operações, ou seja, aquisição de frota própria de caminhões e contratação de motoristas", disse a trading em nota. A Cargill afirma que as compras de serviços de transporte sempre ocorreram com base na oferta e na procura e agricultores, indústrias e exportadores se basearam na análise desses parâmetros para definir seu modelo operacional.

Chuva e pastagens freiam captação, e leite passa de R$ 1,30, diz Conseleite

O frio severo das últimas semanas contribuiu para um maior consumo do leite no Rio Grande do Sul e, consequentemente, para a elevação do valor de referência auferido pelo Conseleite. Segundo dados divulgados na sede do Sindilat em Porto Alegre, o valor de referência do litro projetado para julho é de R$ 1,3080, 5,9% acima do resultado consolidado de junho, que fechou em R$ 1,2350.

O levantamento considera apenas os 10 primeiros dias do mês. Segundo o professor da UPF Eduardo Finamore, a tendência é uma realidade nacional, e os dados ainda carregam reflexo da greve dos caminhoneiros que interrompeu coleta e abastecimento em diversas praças do País no final de maio. "O frio está ajudando o produtor neste momento", pontuou o presidente do Conseleite, Pedrinho Signori, lembrando que a questão cambial também conteve as importações de leite.

MARCELO G. RIBEIRO/JC

Fonte : Jornal do Comércio