AGRONEGÓCIOS – Safra de verão começa a ser cultivada com novas regras contra a deriva

Pötter produziu sem o 2,4-D em Dom Pedrito e conseguiu colher 49 sacas de soja por hectare

Pötter produziu sem o 2,4-D em Dom Pedrito e conseguiu colher 49 sacas de soja por hectare

CORINTHI ANNA VISUALHUNT/DIVULGAÇÃO/JC

Thiago Copetti

A nova safra de verão que já está sendo preparada no Estado para o ciclo 2019/2020 começa com novas regras de aplicações dos herbicidas à base de 2,4-D em mais de 20 municípios. Em 2018, a aplicação incorreta do químico ocasionou prejuízos de pelo menos R$ 100 milhões apenas no setor vitivinícola. Com a deriva do produto para além das lavouras de soja, parreirais, pomares e oliveiras das zona Sul e Campanha foram severamente danificadas e até totalmente perdidas, em alguns casos.

Mesmo com as novas regras de aplicação valendo desde o dia 1º de agosto, o temor entre fruticultores e vitivinicultores segue elevado. Além de não terem atendido o pedido feito ao governo para que proibissem o uso do produto no Estado já neste ano, os produtores atingidos em 2018 apontam falhas nas novas regras.

O tema é tão controverso que, ao longo de 2019, causou acalorados debates que dividiram os produtores rurais em dois grupos. E a defesa da proibição do 2,4-D no Estado não é uma posição apenas de pequenos produtores ou somente de fruticultores.

Um dos maiores produtores rurais do Rio Grande do Sul, Valter Pötter, que alia vinhedos com diferentes lavouras, inclusive de soja, é um dos mais fortes defensores da proibição do 2,4-D, ao menos até que se tenha um sistema eficiente de aplicação e controle do químico nas lavouras. Até a semana passada, Pötter alimentava a esperança de que o produto ainda viesse a ser proibido – solicitação que foi encaminhada ao governador Eduardo Leite por um grupo de produtores no mês de julho. A proposta já foi descartada, segundo o secretário de Agricultura, Covatti Filho.

Sobre os novos controles, diz Pötter, há mais falhas do que acertos. O produtor afirma que, basicamente, o único fato positivo é que tanto indústria quanto governo e sojicultores estejam reconhecendo os sérios danos da deriva em outras culturas. "Até há pouco diziam que isso não ocorria, que era excesso e radicalismo dos fruticultores. Mas as medidas adotadas pelo programa nesse caso não são suficientes. Até que fosse estruturado um programa consistente para a deriva, o que não foi feito, a aplicação deveria ser suspensa", lamenta Pötter.

Durante audiência pública realizada em maio deste ano, na Assembleia Legislativa, em debates que extrapolaram em muito as duas horas previstas, favoráveis e contrários ao uso do 2,4-D confrontaram suas opiniões.

Para o vice-presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Elmar Konrad, seria inviável produzir soja no Estado, atualmente, sem o 2,4-D. "Não é possível economicamente produzir soja de uma hora para outra sem o 2,4-D. E temos um plano de controle de aplicações correta que deve, no mínimo, reduzir drasticamente a ocorrência de problemas", avalia Konrad.

Sobre a declaração de que não seria viável produzir sem herbicidas à base de 2,4-D, Pötter, porém, cita a própria produção de soja para mostrar a viabilidade. Em 2018, sem usar produtos com esse componente, o produtor diz estar colhendo, há dois ou três anos, muito acima da média da região. "Em Dom Pedrito, a média é de 25 a 30 sacos de soja por hectare. Eu colhi no ano passado 49,8 sacas por hectare, devido a um somatório de coisas, que começa com cuidados com o solo", alerta Pötter.

Esse conjunto de ações que reduzem ou até eliminam a necessidade do 2,4-D inclui não abandonar a lavoura de soja depois da colheita, mantendo cobertura verde, o que inibe a presença da buva (principal erva daninha contra a qual o 2,4-D é aplicado).

Ainda segundo Pötter, e também de acordo com Giovani Peres, engenheiro agrônomo e proprietária da Vinícola Batalha, há herbicidas alternativos que não causam malefícios às frutíferas e controlam a buva desde que não esteja exageradamente crescida e nem tenha grande infestação.

"Há alternativas, sim, que são os herbicidas não hormonais. Mas o produtor prefere o 2,4-D por ser um pouco mais barato. Mas o custo extra é de cerca de meio saco de soja a mais por hectare, em torno de R$ 40,00, o que não é tanto assim, mas o produtor prefere gastar menos e usar o mais agressivo e danoso", critica Peres.

O que diz a Instrução Normativa 06/2019

A Instrução Normativa 06/2019 determinou mais rigor, treinamento para aplicação e controles para o uso de herbicidas à base de 2,4-D em um total 24 municípios: Alpestre, Bagé, Cacique Doble, Candiota, Dom Pedrito, Encruzilhada do Sul, Hulha Negra, Ipê, Jaguari, Jari, Lavras do Sul, Maçambará, Mata, Monte Alegre dos Campos, Piratini, Rosário do Sul, Santiago, São Borja, São João do Polêsine, São Lourenço do Sul, Santana do Livramento, Silveira Martins, Sobradinho e Vacaria.

As regras exigem, por exemplo, cadastro dos aplicadores de produtos agrotóxicos hormonais e a necessidade de o produtor prestar informações sobre o uso do produto, sobre os dias em que serão feitas as aplicações. Assinatura de um Termo de Conhecimento de Risco e de Responsabilidade, pelo qual o produtor rural ou representante legalmente habilitado deverá assinar a receita agronômica, ficando ciente de que os produtos agrotóxicos hormonais, inclusive os produtos com ingrediente ativo à base de ácido 2,4-D, em caso de deriva, causam grandes prejuízos para as culturas sensíveis.

O que diz Valter Pötter, que na audiência pública da Assembleia Legislativa representou a Associação de Produtores de Vinhos da Região da Campanha

As novas regras para aplicação do 2,4 D incluem um termo de responsabilidade que o produtor deve assinar na hora da compra do produto na revenda caso faça uso incorreto e venha a causar danos em áreas de outros produtores. Para Pötter, porém, além do produtor, as próprias revendas também deveriam assinar o termo de responsabilidade. Ele avalia que, assim, se terá mais cuidado com a parte técnica da aplicação. Pötter também critica o fato de os cursos que estão sendo ministrados não exigirem uma prova antes de conferir ao aplicador a certificação. Outra regra que Pötter considera falha é exigir do produtor que informe à Secretaria de Agricultura a data de aplicação do produto em até dez dias depois de o trabalho ter sido feito. Ele defende que esse aviso deveria ser feito antes, informando previamente quando a aplicação será feita. Assim, vizinhos poderiam acompanhar a situação climática na data exata da aplicação e, caso não seja o ideal e a pulverização estiver sendo feita, ele poderia denunciar o fato.

O que diz o secretário da Agricultura, Covatti Filho

O secretário avalia que seria inviável eliminar o uso do 2,4-D no Estado, de um ano para outro, dada a importância da soja para o Rio Grande do Sul. Covatti acredita que as regras recentemente definidas pelo governo para controlar a aplicação, estruturada a partir de reuniões com diferentes setores, devem ser suficientes para eliminar os dados da deriva como ocorreu em 2019. Sobre a responsabilização dos revendedores de químicos para lavouras já existem regras específicas, não precisando ser incluído, como sugere Pötter, mais esse termo de responsabilidade.

O que diz Alexandre Prado, coordenador de programas especiais do Senar, que está treinando produtores e aplicadores

Prado diz que não são aplicadas provas por questão de metodologia educacional, mas que os alunos passam por avaliações ao longo de 20 horas de treinamento e que a frequência é monitorada, assim como o desenvolvimento das atividades em aula. O coordenador do curso também defende que o aviso da data de aplicação burocratizaria o processo e não garantiria mais eficiência na aplicação. Os ensinamentos privilegiam a conscientização, diz Prado. Além dos treinamentos constantemente oferecidos pelo Senar sobre aplicações corretas de defensivos, por onde já passaram cerca de 3 mil pessoas, desde o ano passado outras cerca de 400 pessoas já foram treinadas especificamente para evitar a deriva.

Fonte: Jornal do Comércio