AGRONEGÓCIOS – Perdas na soja podem aumentar sem chuva

Fase atual, de floração nas lavouras de soja, é crucial para o desenvolvimento da planta

Fase atual, de floração nas lavouras de soja, é crucial para o desenvolvimento da planta

MARIANA CARLESSO/JC

Marcelo Beledeli

Esta semana deve ser decisiva para a cultura da soja no Estado. Com várias regiões produtoras sem receber chuvas fortes há cerca de 20 dias, e com a oleaginosa em estágio crítico de desenvolvimento, a falta de precipitações volumosas pode aumentar muito as perdas das lavouras da soja.

O quinto levantamento de estimativa de safra da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para o Estado, divulgado nesta terça-feira (11), prevê uma perda de 5,9% nas lavouras de soja do Rio Grande do Sul, com a produção caindo para 18 milhões de toneladas. No entanto, os números devem ser ainda piores quando a colheita começar. "Se não chover nos próximos dias, as perdas irão aumentar", alerta o superintendente regional em exercício da Conab, Carlos Roberto Bestetti.

"Nenhuma lavoura deve alcançar os resultados obtidos no ano passado. Mesmo em áreas irrigadas o forte calor afeta o desenvolvimento", afirma Bestetti. Segundo a Conab, no momento, a produtividade esperada das lavouras gaúchas para esta safra é de 3.059 quilos por hectare, uma redução de 7,9% em relação ao ciclo 2018/2019.

"Quem plantou a lavoura em novembro deve saber se vai colher nesta semana", destaca Elmar Konrad, vice-presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) e coordenador da comissão de grãos da entidade. Konrad lembra que a última chuva forte, uniforme em todas as regiões produtoras gaúchas, caiu entre 20 e 22 de janeiro.

Desde então, ocorreram apenas precipitações esparsas, que ajudaram em algumas zonas específicas, mas não em todo o Estado. "A soja aguenta uns 20 dias sem chuva. Mas essa fase em que as lavouras estão, de floração e começo de desenvolvimento de vagem, é crítica. Sem água, os grãos não se desenvolvem e vamos ter quebras relevantes", destaca.

Konrad lembra que, mesmo que o preço da soja suba com a menor oferta, um aumento das perdas na colheita impacta também a rentabilidade dos produtores. "Quem perder mais de 10% da lavoura pode perder todo o lucro esperado", afirma o representante da Farsul.

A meteorologia, no entanto, não dá bons sinais para os produtores. Segundo a empresa Metsul, não deve chover no Rio Grande do Sul até sexta-feira, e as temperaturas devem subir até 34 ºC em algumas regiões. "No fim de semana pode chegar uma nova frente fria, mas, como as outras mais recentes no Estado, deve ter passagem rápida e com precipitações irregulares. Não será aquela chuva constante que as lavouras precisam", destaca Estael Sias, meteorologista da Metsul.

Segundo a especialista, a partir do dia 18 de fevereiro deverão ocorrer novas precipitações no Estado, mas também ainda não há previsão de chuvas persistentes, como as que as lavouras necessitam. "O cenário é preocupante, e não acredito que esse quadro seja revertido em breve", afirma.

Redução na safra gaúcha deve alcançar 6,2%

Não é apenas a soja que está sofrendo com o clima. De acordo com a Conab, todas as lavouras do Estado devem sofrer perdas nesta safra. O levantamento da companhia prevê uma colheita total de grãos de 33,37 milhões de toneladas na safra 2019/2020, queda de 6,2% ante 2018/2019.

A maior perda está na lavoura de milho, a mais atingida pela estiagem de verão. A safra deve apresentar queda de 12,4%, alcançando 5 milhões de toneladas. Essa situação preocupa o superintendente regional em exercício da Conab, Carlos Roberto Bestetti, uma vez que o grão é muito utilizado em outras cadeias do agronegócio gaúcho, especialmente para a alimentação de aves, suínos e gado de leite. "O Estado consome 6,5 milhões de toneladas de milho. Devemos ter um déficit relevante para esses setores", alerta.

No arroz, a quebra esperada é de 1,2%, com uma colheita de 7,3 milhões de toneladas, segundo a Conab. A cultura, que já enfrentou problemas na época do plantio, devido à chuva em excesso, agora também possui áreas que sofrem com a falta de precipitações. "Várias lavouras tiveram de ser semeadas depois da época ideal. Devido à seca, os produtores tiveram que usar, durante o período de emergência da planta, a água que estava armazenada, e agora precisam aguardar novas precipitações", destaca Bestetti. Além disso, o dirigente da Conab lembra que, devido ao atraso no plantio, há o risco de algumas lavouras sofrerem com possíveis geadas antecipadas perto da colheita, depois do mês de março.

No Brasil, produção é estimada em 251,1 milhões de toneladas

Apesar da queda da safra gaúcha, a produção brasileira de grãos deve somar na safra 2019/2020 251,1 milhões de toneladas, 3,8% mais que na temporada anterior. De acordo com o quinto levantamento realizado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), soja e milho impulsionam o resultado. A área total avança 2,5% nesta safra, para 64,8 milhões de hectares.

"O que marca esta previsão são as boas condições climáticas que favorecem a recuperação das lavouras, abatidas na última temporada pela estiagem nos estados de maior produção. As culturas de primeira safra estão respondendo por 45,6 milhões hectares, enquanto que as de segunda, terceira e de inverno, por 19,3 milhões", disse a Conab em nota.

Conforme a Conab, a produção de soja é estimada em 123,2 milhões de toneladas, recorde da série histórica, "graças à melhoria da distribuição das chuvas que sacrificaram a semeadura no início do plantio de muitos estados". Já a produção total de milho chega a 100,5 milhões de toneladas, com um crescimento de 0,4%. Na primeira safra, em fase de colheita, a área cresceu 3,4%, para 4,25 milhões de hectares.

"O impulso deve-se às boas cotações do cereal. No Rio Grande do Sul, apesar do aumento de área, o rendimento deverá ser 1,8% menor, devido à estiagem que atinge a região", diz a estatal. "Na segunda safra, Mato Grosso já adiantou 20% da semeadura, bem à frente de outros estados. A expectativa é de um bom crescimento de área, graças à rentabilidade produtiva e às boas condições do tempo", acrescenta a Conab.

Em relação ao algodão, a Conab espera crescimento de 5,3% da área em 2019/20, para 1,7 milhão de hectares. "A produção também bate recorde da série histórica, alcançando 2,82 milhões de toneladas de pluma."

Fonte: Jornal do Comércio