AGRONEGÓCIOS – No campo, já não basta apenas produzir mais

Sistemas alimentares não estão adequados, diz Morrison

Sistemas alimentares não estão adequados, diz Morrison

Por muito tempo, o dilema da agricultura consistia em conseguir gerar alimentos suficientes para nutrir uma população em rápida expansão. Para especialistas na área, a maior questão, agora, é outra: adequar os sistemas alimentares de forma a colocar em primeiro plano não mais a produção, mas sim pilares de sustentabilidade nutritiva, ambiental e social. O assunto foi o tema do painel de abertura da 3ª Conferência Internacional Agricultura e Alimentação em uma Sociedade Urbanizada, realizada, neste ano, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).

Líder do Programa Estratégico de Sistemas Alimentares da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês), Jamie Morrison argumenta que os objetivos dos atores envolvidos na produção, muitas vezes, podem ser conflitantes. Há interesses mais voltados à erradicação da fome, enquanto outros se preocupam mais em garantir que os recursos naturais se mantenham para as próximas gerações, por exemplo. As conferências, argumenta, têm o papel de ajudar os tomadores de decisão a entender as complexidades do tema.

"Os sistemas alimentares não funcionam como deveriam. Estamos vendo melhoras, mas ainda há má nutrição, perda de alimentos com resíduos, incidência de doenças, uso maior do que o necessário de químicos", comenta Morrison.

Entre os paradoxos atuais, o executivo cita que há um foco em diminuir a desnutrição, com cerca de 2 bilhões de pessoas no mundo sofrendo com a falta de nutrientes fundamentais, enquanto, de outro lado, outras 2 bilhões de pessoas sofrem de obesidade.

Para Morrison, a mudança passa por articulação entre poderes público e privado. Ao público, caberia, portanto, estimular a demanda por produtos mais sustentáveis, que levaria o setor privado a investir mais em produção local e ambientalmente responsável. "Poderíamos ter indicadores atrelados a diretrizes globais, algo que instituições de crédito possam atrelar a seus empréstimos para a produção rural", sugere o executivo da FAO.

O modelo atual também é criticado pela tendência ao monocultivo voltado à exportação, que faz desaparecer os conhecimentos ancestrais e culturas de cada região, segundo a representante da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag), Vilênia Porto Aguiar. "São necessários sistemas que garantam a soberania alimentar dos povos, o direito de cada um decidir sobre a forma de consumo, de distribuição e de produção", argumenta Vilênia, que acrescenta a urgência no reconhecimento das mulheres do campo como agentes políticos e econômicos. "As mulheres são protagonistas quando se discute sustentabilidade. Paradoxalmente, são a maioria abaixo da linha da pobreza", critica Vilênia.

Presidente do Painel de Alto Nível de Peritos do Comitê de Segurança Alimentar Mundial da FAO, Patrick Caron acrescenta que é preciso deixar o século XX na produção agrícola. "A população seguirá crescendo, chegará a 9 bilhões, mas não é mais o principal motivador das mudanças", comenta. O desafio para o francês é "claro" e passa por redesenhar o destino articulado dos alimentos, garantindo a sustentabilidade.

"Será uma transformação profunda, radical, de longo prazo e intersetorial", projeta Caron, que ressalta que não há um modelo universal, que valha para todos os países, e que a mudança não acontecerá de forma espontânea.

/MARCELO G. RIBEIRO/JC

Guilherme Daroit

Fonte : Jornal do Comércio