AGRONEGÓCIOS – Inovação é caminho para campo gaúcho mais sustentável

Denardin criticou falta de formação no uso de técnicas

Denardin criticou falta de formação no uso de técnicas

Potencializada nas últimas décadas pelo aumento na produtividade, a agricultura brasileira precisa continuar a trajetória nos próximos anos, crescendo a produção sem depender da expansão de área cultivada. O caminho para isso passa, como sempre, pela inovação. O termo, entretanto, não é necessariamente sinônimo de tecnologia, podendo significar, inclusive, a retomada de métodos abandonados com o tempo. O tema foi debatido na sexta-feira no Fórum Regional da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), realizado na Capital.

Professor de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Pedro Antônio Selbach lembrou dos ganhos da agricultura brasileira desde 1960. Na época, eram plantados 22 milhões de hectares, que rendiam 17,2 milhões de toneladas de alimentos. Com o avanço das práticas e da tecnologia, em 2017 já eram 232,6 milhões de toneladas, aumento de 1.250% sobre um avanço de apenas 180% na área, para 61,5 milhões de hectares. Uma outra mudança, porém, foi o surgimento de outras discussões. “Não há como fugir da sustentabilidade, que caminha junto com a produção atualmente”, afirmou o professor.

Também agrônomo, o pesquisador da Embrapa Trigo, José Denardin, foi mais enfático e crítico quanto ao uso da tecnologia no campo, por conta, principalmente, da falta de formação para o uso das novas técnicas. “Tecnologias não param de ser lançadas. Mas é preciso saber manejar, ter conhecimento para isso”, defendeu Denardin. O pesquisador comparou a situação com dar uma receita de bolo para pessoas diferentes. Mesmo com igual orientação, provavelmente nenhum bolo sairia igual aos demais. “Falta a operacionalidade da coisa”, continua o pesquisador.

Denardin ainda criticou a importação de tecnologias criadas na Europa e nos Estados Unidos, ou mesmo exitosas no Cerrado, para o Rio Grande do Sul, sem a real integração com as características gaúchas. Um exemplo é o plantio direto, trazido ao Brasil nos anos 1970 e que, segundo Denardin, já nos anos 1980 foi visto como insuficiente, dando origem ao sistema de plantio direto (adaptação do modelo ao Brasil). “Viu-se que precisava diversificar o sistema, e aí veio o milho, a integração lavoura-pecuária, surgiu a rotação”, rememora o agrônomo, argumentando, entretanto, que muitas medidas conservacionistas foram sendo abandonadas desde lá. Atualmente, 61,8% da área cultivada no País tem apenas uma safra, demostrando a falta de cuidado com as práticas do sistema.

O agrônomo salientou também que, desde 2001, os custos de produção crescem duas vezes mais rápido do que a produtividade, muitas vezes, inclusive, pela compra de tecnologias que são inertes. “O produtor compra coisas que nem precisa, gerenciar o produto é mais importante do que o processo”, defendeu Denardin. O efeito de tudo isso é o adensamento do solo, com as raízes pouco profundas e sem capacidade de transporte de água e nutrientes “Por isso que hoje em dia cinco dias sem chuva é estiagem”, sustenta o pesquisador, que defende que, segundo práticas diferentes – muitas delas antigas e abandonadas, a produção se torna menos instável e dependente do clima.

No que toca especificamente à tecnologia no campo, o destaque do Fórum ficou por conta do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural do Rio Grande do Sul (Senar-RS), que vem buscando a integração dos agricultores com o segmento das startups. “Fizemos um mapeamento, com a lista de problemas a serem enfrentados, e vamos buscar soluções nesse mercado da inovação”, conta o assessor de Estudos Avançados de Inovação da entidade, Renan Hein dos Santos. Entre os temas que serão lançados como desafios às empresas tecnológicas estão a perda de solo, a ineficiência de defensivos, o melhor aproveitamento de recursos hídricos e o uso de dados para a gestão da empresa rural.

JONATHAN HECKLER/ARQUIVO/JC

Guilherme Daroit

Fonte : Jornal do Comércio