AGRONEGÓCIOS – Formação do preço da soja vai além da China

Clarissa Black adverte para os fatores que afetam as cotações da principal commodity agrícola do Brasil

Clarissa Black adverte para os fatores que afetam as cotações da principal commodity agrícola do Brasil

Patrícia Comunello

Mais cautela ao colocar na conta da desaceleração da economia chinesa a principal causa da queda dos preços internacionais da soja nos anos recentes e ainda mais em 2015. O alerta é da economista e pesquisadora da Fundação de Economia e Estatística (FEE) Clarissa Black, que tem estudado a fundo o impacto das commodities na economia brasileira e as razões que podem explicar o comportamento da cotação do grão. Clarissa atenta para o alinhamento entre os preços do petróleo e os da soja desde os anos de 1980, além da atuação de fundos financeiros, que podem turbinar a cotação ou derrubá-la. Para o Estado, o tema é sensível. Nunca se exportou tanta soja como em 2015, mas a renda é menor, efeito da cotação da tonelada que não rompe a barreira dos US$ 400 há mais de um ano.

Jornal do Comércio – O Brasil ganhou com a valorizaçãodas commodities?

Clarissa Black – Sim, mas é preciso pontuar que o impacto de preços no crescimento não é automático. A economia brasileira, diferentemente da de outros países latino-americanos (como Chile e Peru, cujo peso das commodities no PIB alcança 16%), depende menos, com 6% da riqueza vinda do segmento. Isso decorre de uma atividade mais diversificada e um mercado interno mais robusto. Mas as commodities foram importantes para as contas externas. De 2003 a 2011, com fluxo e preços positivos, o País pode adotar políticas para o crescimento. Mas agora as exportações não crescem tanto, e não há maior capacidade de importar, o que está relacionado com o baixo crescimento.

JC – O que tem influenciado o preço da soja nas últimas décadas?

Clarissa – Há diversos fatores, entre eles a própria demanda chinesa (maior demandante no mundo), que é importante, mas não é a única determinante dos preços. Se formos olhar após 2012, que registra redução de preços, depois de chegar aos históricos US$ 622,91 por tonelada, não houve queda das importações chinesas. Tivemos ainda o tombo dos preços da crise internacional de 2008, que evidencia o efeito do mercado financeiro. Não há confirmação, mas o período registra redução de posições para cobrir perdas financeiras. Depois, o setor reaquece, e ocorre a recuperação dos preços. E tem ainda a relação entre as commodities agrícolas e o petróleo, que é bem sincrônica. O Banco Mundial reforça o impacto do petróleo e gás nos fertilizantes, usados nas lavouras.

JC – A demanda ascendente da China só intensificou isso?

Clarissa – O consumo do país cresce desde a década de 1990, com efeito na valorização de preços após 2006. Agora continua a subir os embarques, mas os preços caem. Há ainda a ociosidade de 50% das indústrias processadoras. Tudo indica que a demanda por proteína continuará, o que eleva o uso da ração. A compra de minério também se mantém. Não há indicação de queda brusca.

JC – O produtor aqui reclama que o fertilizante pesa mais no custo?

Clarissa – O petróleo e fertilizantes caem no mercado internacional, mas o câmbio subiu, elevando os custos já que se importa muito o insumo. Mas na trajetória internacional reforça-se a relação entre preço de soja e petróleo. O Banco Mundial (Bird) indica que, quando o barril atinge US$ 50, a relação fica mais evidente. Em 2006, quando a cotação do óleo atingiu este nível, tivemos o início do chamado boom das commodities agrícolas, reforçando a tese. O preço do barril está abaixo de US$ 90 desde outubro de 2014.

JC – A tonelada da soja a US$ 622,91 (agosto de 2012) pode voltar um dia?

Clarissa – (risos) É difícil fazer uma previsão dessas! Lá foi uma conjunção de fatores – preços recordes, câmbio valorizado. Evidências indicam que, naquele ano, a guerra da Líbia gerou repique dos preços do barril e influenciou a elevação.

JC – Qual é o problema em ignorar tantos fatores?

Clarissa – A maior parte dos estudos não vai fundo, indica a China como resposta para tudo. Olhar só para isso pode surpreender quem não está atento. Mesmo que o mercado de derivativos em commodities seja pequeno em relação ao de ações, a atuação de grandes fundos internacionais pode gerar maior influência. Negligenciar essas variáveis pode pegar de surpresa os formuladores das políticas na área, obstinados em dar uma resposta rápida e simples a um fenômeno que se mostra mais complexo do que se imagina.

ANTONIO PAZ/JC

Fonte : Jornal do Comércio

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *