AGRONEGÓCIOS – China projeta reduzir importações de soja

Principal produto da pauta gaúcha, soja corresponde a 80% dos embarques

Principal produto da pauta gaúcha, soja corresponde a 80% dos embarques

/SCOTT OLSON/AFP/JC

Thiago Copetti, de Pequim

Um estudo divulgado pelo governo da China traz um alerta aos produtores de soja do Brasil, que, de janeiro a julho deste ano, comercializaram o equivalente a US$ 17,5 bilhões somente para o mercado chinês. E dado o peso das exportações de soja na balança comercial do Rio Grande do Sul, o sinal vermelho deve ser acionado também no Estado. Com a criação de um tipo de ração de baixa proteína – que não prejudica o desenvolvimento dos animais -, aliada ao aumento da área plantada com a oleaginosa em terras chinesas, a importação de soja poderá cair, já neste ano, em 10 milhões de toneladas – cerca de 10% de tudo o que é importado hoje.

No momento, a China está produzindo e já começou a utilizar uma nova tecnologia de ração de baixa proteína na criação de porcos e frangos. Zhang Haitao, encarregado da tecnologia na Guangdong Evergreen Feed Industry, afirma, segundo a agência de notícias Xinhua, que a China tem suficiente capacidade produtiva de aminoácido, e que o uso da fórmula de ração de baixa proteína pode reduzir a demanda do país pela farinha de soja entre 5% e 7%.

Como resultado, é "operável e sustentável" baixar o consumo de soja da China utilizando rações de baixa proteína, acrescentou Zhang. Além da redução na demanda pela oleaginosa na pecuária chinesa, o gigante asiático também trabalha para aumentar sua própria produção de soja. Com essas duas estratégias no horizonte tomando corpo, a redução da necessidade de importações pode afetar os negócios gaúchos.

Segundo a Fiergs, o Estado tem balança comercial positiva com a China, mas basicamente graças à soja. "Em 2017, exportamos US$ 5,35 bilhões para o país, enquanto importamos US$ 1,07 bilhão, o que gerou uma corrente de comércio de US$ 6,4 bilhões. O nosso principal produto enviado à China é a soja, que corresponde a mais de 80% do embarcado em 2017", destaca o presidente da Fiergs, Gilberto Petry, que tenta estimular a exportação de mais produtos industrializados e de diferentes setores para diversificar a pauta.

O alerta vermelho na dependência gaúcha da oleaginosa para o equilíbrio da balança está lançado e pode afetar as vendas do Estado em médio prazo. A perspectiva de redução anunciada, porém, tende a ser diluída pelo crescimento da economia e do consumo de alimentos por parte da China, avalia Antônio da Luz, economista da Farsul.

Luz também ressalta que a China poderá adotar outras estratégias para fugir da elevação dos custos da importação de soja, boa parte reflexo da guerra comercial com os Estados Unidos, reforçando o cultivo na África, um de seus grandes parceiros.

O abalo na relação entre EUA e China traz riscos de médio e longo prazos para todos, alerta Luz. O primeiro deles é que, sem a soja norte-americana, a China tende – como já está fazendo – a buscar alternativas para a oleaginosa. "Teria um custo elevado a produção de soja na África? Sim, teria. Mas o custo de colocar dinheiro na África para organizar a produção de soja pode ser menos do que pagar o custo maior pela soja brasileira ou norte-americana, com sua sobretaxa de 25%", analisa o economista.

Alternativas à oleaginosa

  • Pesquisa de Yin Yulong, da Academia Chinesa de Ciências, mostra que a produção e a qualidade de porcos não foram afetadas pela redução da porção da proteína em rações animais, com o acréscimo de quatro aminoácidos específicos em diferentes fases de crescimento do plantel.
  • Li Qiang, presidente da Shanghai JC Intelligence, disse que a importação chinesa de substitutos da farinha de soja tem enorme espaço para crescimento. "Se a China aumentar as importações de colza em 2,5 milhões de toneladas, de farinha de semente de girassol em 3,5 milhões de toneladas e de farinha de semente de palma em 3 milhões de toneladas neste ano, teoricamente, o país pode reduzir as importações de soja em 6 milhões de toneladas", disse Li.
  • A China também pode aumentar sua capacidade para a autossuficiência, com o cultivo de plantas oleaginosas. No início deste ano, o Ministério de Agricultura e Assuntos Rurais divulgou que a área de plantio de soja da China aumentaria em cerca de 666.667 hectares em 2018.
  • Fu Tingdong, professor da Universidade Agrícola Huazhong, na província de Hubei, no Centro da China, calcula que 4 milhões de hectares de terra arável inativa e zonas de entremarés na bacia do rio Yangtze podem ser usados para o cultivo de soja.

Fonte: Xinhua, agência estatal de notícias da China

Fonte : Jornal do Comércio