AGRONEGÓCIOS – Brasil precisa buscar novos acordos comerciais

Evento em São Paulo reuniu opiniões convergentes sobre a necessidade de o País conquistar mercados

Evento em São Paulo reuniu opiniões convergentes sobre a necessidade de o País conquistar mercados

/GERARDO LAZZARI/DIVULGAÇÃO/JC

Guilherme Daroit, de São Paulo

Cada vez mais internacionalizado, o agronegócio brasileiro observa com lupa o novo momento no comércio global. Não por acaso, os caminhos a serem tomados em um cenário de guerra comercial entre as principais potências do mundo marcaram as discussões do Congresso Brasileiro do Agronegócio, realizado ontem, em São Paulo, com opiniões que convergiram para que o Brasil busque novos acordos comerciais, exportando, inclusive, tecnologia e conhecimento a outros países em desenvolvimento.

Para o presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Luiz Carlos Corrêa Carvalho, o Brasil precisa assumir um papel pró-ativo em negociações multilaterais e bilaterais. "O País tem que se colocar no mundo com o peso geopolítico que tem, com seu papel na segurança alimentar e seu potencial de crescimento", argumenta Carvalho. O dirigente defende, por exemplo, a importância do Mercosul, que acredita estar em um momento favorável para que finalmente deslanche, com relativa convergência de interesses entre seus dois principais atores, Brasil e Argentina.

A defesa do multilateralismo, aliás, parece ser a reação brasileira ao novo panorama de países se fechando comercialmente, em especial, a postura dos EUA sob o governo de Donald Trump. "O trem passou, e a gente perdeu, mas Trump fez o trem parar. Se corrermos, podemos pegar o trem e entrar no jogo", afirma o embaixador brasileiro em Washington, Sergio Amaral. O diplomata defende avanços nas conversas entre Mercosul e Aliança do Pacífico, e também no arrastado acordo com a União Europeia, argumentando que precisa ser visto mais como uma aposta no futuro do que como discussões sobre tamanhos de cotas deste ou daquele produto.

Amaral ainda defende que o principal potencial brasileiro é a complementaridade com a China, com capacidade de produzir alimentos desejados pelo país asiático, mas ressalta que é preciso olhar para países da África e do Sudeste Asiático, que terão grandes taxas de crescimento, mas, também, buscarão melhorar as suas próprias produções. "Vamos ser espectadores ou também participar, exportando para eles know how e tecnologia? Se não, outros farão, e vamos perder essa fatia de mercado", afirma o diplomata.

Representante do Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC), o embaixador Alexandre Parola ressalta que, pela lógica do sistema, não haveria como alguém impor sua visão ao conjunto global, mas lembra que o fórum já enfrentava problemas antes de Trump. O único objetivo vencido da Rodada de Doha, diz Parola, foi o controle nos subsídios às exportações, restando indefinidos os tópicos do acesso aos mercados e do apoio interno nos países à produção agrícola. "Essas questões, assim como os impasses fitossanitários, não podem ser decididos bilateralmente, precisa ser multilateral."

Parola projeta que, independentemente do cenário, a agricultura brasileira é competitiva o bastante para manter sua importância global. "O que está em jogo é só o ritmo do crescimento", defende o diplomata. Diretor de agricultura e commodities da OMC, o ganês

Edwiki Kessie expressa mais preocupação com um possível esvaziamento da entidade, especialmente para países em desenvolvimento. Sem o multilateralismo, defende Kessie, as economias mais ricas poderiam adotar subsídios sem limites aos seus produtores. "Assim, a disputa não vai mais ser pelo potencial da terra, mas pelo tamanho do bolso de cada um", critica Kessie.

Impasse China-EUA pode ser oportuna, mas traz riscos no longo prazo

Fruto da tensão comercial entre China e Estados Unidos, com troca de sobretaxas em determinados produtos anunciadas de lado a lado, o agronegócio brasileiro pode se beneficiar, inicialmente, com o aumento na exportação de soja. No médio e longo prazos, porém, o arrefecimento no comércio entre as duas potências pode resultar em problemas ao País, na visão dos especialistas.

Contrapondo as tarifas a produtos chineses nos Estados Unidos, os asiáticos anunciaram uma sobretaxa de 25% à soja norte-americana, o que poderia fazer com que o agronegócio brasileiro aumentasse sua participação nas importações chinesas do grão.

Mas há risco até de mudança repentina nas posturas dos países, segundo o presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Luiz Carlos Corrêa Carvalho, que vê o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, levando as negociações para caminhos mais pessoais do que institucionais. "Assim, ele pode se acertar com a China de uma hora para outra, e aí nós perdemos, como já fizeram com a Europa, mandando soja para a Alemanha quando nós estávamos negociando para enviar soja para lá", argumenta Carvalho.

Outro risco é de que, caso as dificuldades se consolidem, a China resolva investir na produção do grão localmente ou em outros países mais próximos, contando com avanços tecnológicos. "Se a China resolve financiar outros países, vamos ficar apertados", continua Carvalho, lembrando que o potencial produtivo da Ásia ainda é muito grande. Consultor da McKinsey, Nelson Ferreira acrescenta que, caso a guerra comercial se estenda, há projeção de queda no PIB e na renda global, o que deve derrubar, também, a demanda por proteína animal e, consequentemente, a procura por soja para uso como ração.

Representante do Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC), embaixador Alexandre Parola, entretanto, não acredita que o quadro se mantenha por muito tempo. "A retórica é infinita, pode se ameaçar o quanto quiser, mas, quando chegam os efeitos na prática, isso cai por terra", defende Parola, projetando que os países entenderão ser benéfica a uniformidade nas regras a partir do ponto em que os produtos ficarem mais caros e os exportadores agrícolas não acharem mercado para sua produção.

Fonte : Jornal do Comércio

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