AGRONEGÓCIOS – Audiência reúne defensores e contrários ao uso do 2,4-D

Interrupção da venda será solicitada pelos parlamentares

Interrupção da venda será solicitada pelos parlamentares

O plenarinho da Assembleia Legislativa ficou lotado, ontem, e as salas laterais precisaram ser abertas para acomodar os interessados em encontrar um fim aos danos causados pela aplicação incorreta do herbicida 2,4-D no Estado. Representantes de produtores de uva e vinho, maçã e olivas, principalmente, lotaram o espaço em busca de uma solução para a chamada deriva (dispersão do químico pelo ar).

Além da interrupção do uso e venda do 2.4 D, os parlamentares decidiram que vão formalizar sua intenção ao Ministério Público Estadual, que, no ano passado, instigado por fruticultores de várias regiões do Estado, abriu inquérito civil para apurar os prejuízos causados pela aplicação do pesticida. Os deputados vão, ainda, enviar ao governo do Estado a ata da reunião, os estudos técnicos apresentados durante o evento e, por último, solicitar à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembleia a aceleração a discussão sobre o PL 214 2019, de autoria do deputado Edegar Pretto, que dispõe sobre a proibição da comercialização e uso do agrotóxico.

De acordo com o deputado Luiz Marenco (PDT), as perdas no setor da uva, apenas no ano passado, alcançaram R$ 100 milhões no Rio Grande do Sul. Uma das regiões do Estado onde os prejuízos foram registrados em grande escala foi na Campanha, em municípios como Dom Pedrito. Na cidade, há pequenos e grandes produtores, como Valter José Pötter, da fazenda e vinícola Guatambu, presente na audiência.

Para o deputado Edegar Pretto (PT), que já buscava enfrentar os danos da deriva desde a década passada, o problema foi tratado com descaso durante muitos anos pelos próprios deputados e pelo governo do Estado ao longo dos anos. Afonso Hamm (PP), deputado federal e produtor de uva e soja, relatou já ter registrado perda de 60% em seus parreirais recentemente devido à má aplicação do produto. "Na área onde cultivamos soja, em parceria com familiares, no ano passado já não usamos o 2,4-D. Existem alternativas ao produto e o custo para isso foi de uma saca a mais de soja por hectare", contou Hamm. Mesmo após a restrição ao uso do 2,4-D na lavoura de soja da família, Hamm disse que teve perdas de 35% em uma área de videiras, que teria ocorrido pelo uso em propriedades vizinhas, distantes entre 2,5 quilômetros e até 5 quilômetros. O deputado federal, porém, alerta que a situação não deveria alcançar uma guerra entre produtores, que, muitas vezes, estão buscando na Justiça a reposição de perdas causadas por aplicação de químicos por parte de vizinhos.

Paulo Pereira, representante da Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura, apresentou na audiência os dados de uma análise de danos feita neste ano e entregue ao Ministério Público do Estado no mês passado. Segundo Pereira, levantamento em 23 municípios coletou 81 amostras de frutas, oliveiras e até mesmo campo nativo e detectou contaminação por 2,4-D em 69 delas. Citando essa mesma análise, o vice-presidente da Farsul, Elmar Konrad, afirmou que um cruzamento de dados de CPF e CNPJ de compradores e localização dos danos estariam ligados a apenas 1,7% dos produtores.

"É impossível colher uma safra de soja sem o 2,4-D. Temos que educar para a aplicação correta, como estamos fazendo com apoio do Senar", afirmou Konrad. A defesa de Konrad de que não se pode ter uma boa safra de soja sem esse químico foi questionada, porém, por diferentes presentes na audiência, como o proprietário da fazenda e vinícola Guatambu, que vem registrando perdas em seus parreirais devido ao químico usado por vizinhos, e pelo professor da Unipampa, Norton Sampaio. Pötter também questionou a baixa taxa de registro de problemas, como citou Konrad, e ponderou que o uso e a defesa do 2,4-D acabarão com a diversificação de culturas do Estado e causarão um prejuízo de milhões de reais.

"Os dados das coletas feitas pela Secretaria da Agricultura são apenas uma pequena amostra dos danos que, hoje, vão de Vacaria a Aceguá. Eu sou prova de que existem sim melhores alternativas ao 2,4-D. Cultivo 600 hectares de soja e no ano passado não usei o 2,4-D e colhi o dobro da média do meu município", exemplificou o proprietário da Guatambu.

Pötter, que também defende a proibição do uso do herbicida no Estado, diz que as propostas de conscientização são lentas. E usou, novamente, o próprio exemplo para demonstrar a falta de interesse da maior parte dos produtores gaúchos para evitar a deriva. O produtor de Dom Pedrito disse que, tentando evitar conflitos e processo contra vizinhos, tentou diferentes ações para educá-los sobre a correta aplicação, até em propriedades distantes 10 quilômetros da Guatambu.

Foi apenas o último palestrante, o promotor Alexandre Saltz, representando o Ministério Público Estadual na audiência, que deixou claro a dimensão da dificuldade para encontrar uma solução ao caso. "O 2,4-D é um problema social muito mais amplo, com impacto econômico, do sistema produtivo do Estado, de educação do produtor, e é uma questão ambiental e de saúde. Por todos esses aspectos, é uma situação jurídica complicada", alertou Saltz.

/VINICIUS REIS/AGÊNCIA AL RS/JC

Thiago Copetti

Fonte : Jornal do Comércio