AGRONEGÓCIOS – Arrozeiros enfrentam enxurrada de problemas

Custo passou de R$ 35,77 a saca, em 2014, para R$ 48,68 neste ciclo

Custo passou de R$ 35,77 a saca, em 2014, para R$ 48,68 neste ciclo

/FLÁVIO BURIN /FEDERARROZ/DIVULGAÇÃO/JC

Thiago Copetti, de Capão do Leão

Prestes a colher a safra 2018/2019, os arrozeiros gaúchos têm uma extensa lista de desafios pela frente. Os problemas a serem enfrentados incluem perdas causadas pelas enxurradas na Metade Sul e ingresso mais barato de produtos do Mercosul que avançam para pontos que devem se tornar nevrálgicos em breve. O ano de 2019 pode trazer ainda riscos nas vendas ao maior comprador internacional do arroz brasileiro (a Venezuela) e redução no desconto da energia rural noturna, que deve começar a vigorar neste ano.

A demanda mais urgente, claro, é tentar amenizar os prejuízos financeiros dos orizicultores da Fronteira-Oeste e região, onde os danos já teriam afetado entre 15% e 20% da área de 400 mil hectares semeados. Segundo Alexandre Velho, vice-presidente da Federarroz, há boa vontade por parte do Ministério da Agricultura com os pleitos do setor. Ao todo, o Estado deve colher 1 milhão de toneladas a menos do que no ciclo passado, quando alcançou 8,3 milhões de toneladas. A redução de cerca de 7% leva o volume a regressar ao patamar de 2015/2016, quando houve quebra nas lavouras devido ao El Niño.

"Pode haver a securitização das dívidas (o que aumenta os prazos para o pagamento de dúvidas) ou apoio pré-custeio, para que o produtor tenha recursos na mão e não precise vender durante a safra, quando os preços caem", diz Velho, que pretende trazer ao Estado, para a abertura da safra, entre 20 e 22 de fevereiro, além da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, também o vice-presidente, general Hamilton Mourão.

Às autoridades, será relatado que os prejuízos para o produtor são grandes e vêm se avolumando a quatro safras, segundo a Federarroz. Os custos de produção, que, em 2014, eram de R$ 35,77 por saca, passaram para R$ 48,68 neste ciclo, uma alta de 36%. Apesar de elevado, o percentual é um pouco abaixo da elevação no preço mínimo no período, que, segundo a Conab, evolui de R$ 25,80 para

R$ 36,00, alta de 39%. Apesar de aparentemente isso demonstrar que os custos acompanharam os preços de venda, o dirigente da Federarroz alega que, no cálculo da Conab, não entram itens importantes, como investimento, pró-labore de trabalhadores e arrendamento de terra.

"Neste ano, por exemplo, a energia elétrica foi estimada antes da alta de 30%, assim como os preços dos insumos, feitos fora da época de compra, em março, muito antes do período real de aquisição e antes da alta do dólar", afirma Velho. É possível que os produtores tenham que arcar com nova alta no custo de energia ainda em 2019, um dos principais insumos do setor. No apagar das luzes do governo Temer, diz o produtor, foi editada uma medida que elimina um redutor importante no custo de energia rural utilizada no período da noite, que poderá ser eliminado a partir deste ano, gradativamente, até zerar. "Precisamos reverter e já estamos trabalhando para isso", ressalta.

Ontem, em evento pré-abertura da colheita, em Capão do Leão, o executivo da Federarroz afirmou que uma possível mudança nas regras do Mercosul é um sinal positivo no horizonte. Velho diz que, em conversas recentes com a ministra Tereza Cristina, em Uruguaiana, ela teria sinalizado empenho federal nessa questão. As possibilidades seriam uma taxa maior para o ingresso dos produtos de outros países do Mercosul ou imposição de cotas, alternativa que Velho considera mais viável.

O setor também trava uma batalha com o varejo, em duas frentes. A primeira delas é com o custo excessivo do ICMS para venda de arroz gaúcho em São Paulo e Minas Gerais, de 12%, ante o imposto de 4% para o ingresso de arroz dos vizinhos do Mercosul. Outra briga é para aumentar a fiscalização de produtos de baixa qualidade (tipos 2 e 3, pelos quais o produtor recebe menos) e vendidos no varejo como tipo 1, o de melhor qualidade.

Meta é chegar ao México e à África ainda neste ano

Chuvas na Metade Sul, ingresso
de arroz do Uruguai e custo da energia prejudicam a atividade

Chuvas na Metade Sul, ingresso de arroz do Uruguai e custo da energia prejudicam a atividade

/THIAGO COPETTI/ESPECIAL/JC

Mesmo na promissora área dos negócios internacionais, existem nuvens pesadas pairando sobre a orizicultura nacional, mas também alguns raios de sol apontando novos mercados. Ao mirar para o mercado externo, no qual o Brasil conquistou um incremento de 40% nas exportações em 2018, há dois novos mercados no foco. Os embarques, que costumavam ficar em uma média de 1 milhão de toneladas ao ano, subiram para 1,4 milhão de toneladas em 2018.

"Não dá para negar que a relação do governo Bolsonaro com a Venezuela pode levar a perder vendas ao país, nosso maior comprador. Mas, de qualquer forma, precisamos mudar nosso foco de vendas externas para países que não tenham tanta instabilidade política e econômica como Venezuela e Nicarágua", diz Velho, lembrando, ainda, que, no caso das vendas à Venezuela, há grandes riscos de não receber o pagamento, caso não seja cobrado antecipadamente.

Para diversificar, a Federarroz mira no México, que importa 800 mil toneladas por ano e onde há uma barreira sanitária que estaria mais ligada a questões econômicas e aos Estados Unidos do que efetivamente sanidade vegetal. O executivo diz que novamente contará com apoio da ministra Tereza Cristina e com a diplomacia da União para derrubar esse muro. Enquanto isso, os arrozeiros gaúchos avançam para a África.

"No final de fevereiro, vamos ao Quênia, que tem interesse em substituir as compras da Tailândia pelas feitas no Brasil. Enquanto a Tailândia demora 44 dias para colocar o arroz no Quênia, nós conseguimos chegar em 15", explica o vice-presidente da Federarroz ao falar de uma das vantagens competitivas do Brasil.

Além de fazer a venda do produto em si, o Brasil também pode fechar acordo para, juntamente com o grão, fazer a transferência de tecnologia de plantio à África, já que o País tem grande interesse em desenvolver produção local, ressalta Velho.

Fonte : Jornal do Comércio

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