Agronegócio sustentável

Com mais de 90% do seu território encravado no semiárido, onde as chuvas se distribuem de maneira irregular no espaço e no tempo, o Ceará vive sob o constante dilema de aliar crescimento econômico e desenvolvimento social diante da escassez de água, realidade que atinge diretamente milhares de comunidades rurais. O desafio, portanto, é encontrar alternativas para a convivência com a seca que proporcionem o desenvolvimento sustentável e includente da produção local com o aumento da produtividade no campo e a consequente melhoria da qualidade de vida da população.

Nesse contexto, o estado tem no conhecimento uma arma importante para vencer os desafios. Um dos exemplos principais é o da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). No Ceará, a Embrapa Agroindústria Tropical, uma das duas unidades temáticas da instituição, viabiliza, por meio de pesquisa, desenvolvimento e inovação, soluções para a sustentabilidade de cadeias produtivas da agroindústria tropical.

"Nossa intenção é fazer a utilização de toda a potencialidade da matéria-prima existente, o que chamamos de aproveitamento integral da biodiversidade do semiárido", define Genésio Vasconcelos, supervisor de Prospecção e Avaliação de tecnologias da empresa. Segundo ele, a Embrapa Agroindústria trabalha na agregação de valor aos recursos genéticos existentes no semiárido, proporcionando o surgimento de novas oportunidades de crescimento econômico para a sociedade.

Um dos principais desafios da pesquisa científica é fazer com que as tecnologias sejam apropriadas por empresas, governos e instituições em benefício da coletividade. Pensando nisso, a instituição desenvolve desde 2005 uma iniciativa que estimula o surgimento de novas empresas a partir de tecnologias iniciadas ou desenvolvidas em seus laboratórios. O projeto, que nasceu como experiência-piloto nas unidades de Fortaleza, São Carlos (SP) e Brasília (DF), foi ampliado em 2008 para todas as Embrapas do país, e ganhou o nome de Programa de Incubação de Agronegócios da Embrapa (Proeta).

Com quatro anos de existência, o programa começa a colher frutos no Ceará. No último mês de abril, as empresas cearenses BioCclone e Sabor Tropical, incubadas na Embrapa, foram "graduadas" em sessão solene. A Bioclone, por exemplo, acaba de instalar no município de Eusébio, região metropolitana de Fortaleza, a primeira biofábrica de produção de mudas clonadas do estado. Com capacidade de produção de 5 milhões de mudas por ano, a empresa recebeu aporte de R$ 1,2 milhão do Criatec, fundo de investimentos de capital destinado à aplicação em empresas emergentes inovadoras.

A empresa virou uma S.A. e agora tem o Criatec como sócio. Com 80% do capital do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e 20% do Banco do Nordeste (BNB), o fundo tem como objetivo obter ganho de capital por meio de investimento de longo prazo em empresas em estágio inicial (inclusive estágio zero), com perfil inovador e que projetem um elevado retorno.

"O Criatec coloca recursos e profissionais para alavancar o negócio, e depois de alguns anos vende a parte dele dentro da empresa", acrescenta Vasconcelos. 

A história da BioClone se confunde com a do seu fundador, Roberto Caracas, e começou há alguns anos, quando ele fez mestrado na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen), em Brasília, período em que iniciou o trabalho com a tecnologia de clonagem de mudas. Após um período na Secretaria de Agricultura do Ceará, Caracas trabalhou na maior produtora de bananas do Brasil. "Lá, tivemos que plantar mais de mil hectares de banana e abacaxi, tudo com mudas de fora do país, porque não tinha quem fornecesse", conta ele, que teve então a ideia de abrir um negócio no ramo.

A Bioclone deu tão certo que nos últimos anos captou mais de R$ 1,5 milhão em projetos de pesquisa subvencionados por instituições como a Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap). Com 21 funcionários e cinco pesquisadores, a BioClone produz mudas de abacaxi (ornamental e comestível), cana-de-açúcar, banana e algumas espécies de flores tropicais, vendidas para todo o país. Para este ano, a previsão é que o faturamento fique entre R$ 800 mil e R$ 1 milhão, com perspectivas de crescimento de 20% para o próximo ano. Segundo Roberto Caracas, a estimativa é de que o Brasil tem um deficit de 64 milhões de mudas/ano de banana, que importa de países como Costa Rica, Israel e África do Sul. "Antes de a gente entrar no mercado, o Ceará importava quase 80% das mudas clonadas de fora do país", lembra Caracas.

Fonte: CORREIO BRAZILIENSE – DF