AGRICULTURA – Taxa de juros do Plano Safra fica acima do esperado e decepciona setor

Redução de apenas 1,5% é criticada por produtores, por prejudicar competitividade em momento em que câmbio favorece exportação. Tabelamento de frete também preocupa

Colheita de soja: aumento do frete pode limitar escoamento e impactar faturamento de produtores

Colheita de soja: aumento do frete pode limitar escoamento e impactar faturamento de produtores

FOTO: ESTADÃO CONTEÚDO

RICARDO CASARIN • SÃO PAULO

As taxas de juros das linhas de crédito rural ficaram acima do esperado pelo setor. Nesta quarta-feira (06), o governo federal anunciou R$ 194,37 bilhões reservados ao Plano Safra 2018/19, com redução de 1,5% nos juros em relação ao ano passado.

“O setor esperava por juros menores porque, historicamente, é abaixo da taxa Selic. Em algumas linhas de crédito, ficou até acima”, aponta o economista e pesquisador do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas, Felippe Serigati.

As taxas de custeio ficaram em 6% para médio produtores (com renda bruta anual de até R$ 2 milhões) e 7% para os demais. Já as taxas para financiamento de investimentos ficaram entre 5,25% e 7,5% ao ano. A atual taxa da Selic é de 6,5%.

O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) e da Aprosoja-GO, Bartolomeu Braz Pereira, considera como ponto negativos não só tamanho dos juros, mas a falta de acesso às linhas de crédito. “Era esperado que os juros fossem bem mais baixos. Está alto e não traz competitividade ao setor. Também não adianta ter volume se o produtor não consegue acessar esse crédito.”

O valor total do plano corresponde a um aumento de 3,2% sobre os R$ 188,4 bilhões de 2017/18. A inflação acumulada nos últimos 12 meses corresponde a 2,76%. “A verdade é que não houve nenhuma grande novidade no plano. A taxa poderia ter sido menor, mas temos um problema fiscal. Foi uma vitória para o setor, diante desse contexto, ter garantido praticamente os mesmos recursos do ano passado”, avalia Serigati da FGV.

Do total de recursos liberados, R$ 151,1 bilhões serão para crédito de custeio, dos quais R$ 118,8 bilhões com juros controlados a taxas fixadas pelo governo e R$ 32,3 bilhões com juros livres, ou seja, negociados entre a instituição financeira e o produtor. O crédito para investimento ficou em R$ 40 bilhões. Uma das novidades do plano é a integração da psicultura nos financiamentos de custeio com juros de 7% ao ano.

O presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), João Martins, declarou que o volume de recursos ficou praticamente igual ao volume pleiteado pela entidade. “As taxas anunciadas estão coerentes com os nossos pleitos, levando em conta o cenário para a economia, incluindo as incertezas de mudanças do governo. O plano atende as prioridades dos produtores rurais brasileiros.”

Tabelamento do frete

Pereira destaca que a tabela de frete, instituída por medida provisória para atender pedido dos caminhoneiros, tem um enorme impacto negativo para o setor agrícola. “Nós apoiamos a pauta da greve, que era reduzir combustíveis. Mas esse tabelamento atrapalhou muito. Negócios que já estavam fechados estão sendo refeitos e prejudica o setor em um momento em que a moeda está favorável para exportação.”

O presidente da Aprosoja Brasil garante que os produtores estão buscando alternativas para lidar com o prejuízo. “Não concordamos com esse tabelamento, acreditamos que o mercado deve ser livre. Essa medida só vai trazer perdas para toda a cadeia.”

Para Serigati, o País deve atingir uma safra de grãos pelo menos no mesmo patamar do ano passado, quando foi recorde. Porém, o aumento do frete vai atingir a margem do produtor. “Em termos de quantidade, vai haver crescimento. Mas de toda a renda gerada, quanto vai ficar no bolso do produtor? Com o frete desse tamanho, vai ser uma fração menor.”

O economista explica que o setor terá de arcar com prejuízos, porque tem dificuldades de repassar seus custos para o consumidor. “O petróleo ficou mais caro e, por consequência, o diesel também. Dado a mobilização dos caminhoneiros, parte da conta vai ser paga pelo agronegócio. O setor tem dificuldade de repassar custos, pois é mais competitivo, tem poder de barganha menor, ao contrário do mercado de mineração, por exemplo. Vai haver impacto no bolso do produtor.”

Fonte : DCI