AGRICULTURA – Produção de azeite cresce no RS e atrai desde empresários até ex-ministra do STF

Cultivo de oliveiras no Estado, que concentra 75% da produção nacional, atinge 6 mil hectares e avança rápido com apoio da Embrapa

A ex-ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Ellen Gracie Northfleet, em sociedade com a filha Clara e o genro Mauro Eduardo Vicknevetsky Aspis, seguiu o caminho de muitos profissionais liberais que decidiram investir no plantio de oliveiras no Rio Grande do Sul para ter uma segunda renda.

Neste ano, o trio de advogados colheu sua primeira safra em Arroio dos Ratos. As 3.500 kg de azeitonas renderam 300 litros de azeite.

Propriedade da ex-funcionária pública Vani Maria Ceolin Aued e do marido, o engenheiro José Alberto Aued, que são donos da marca Olivas do Sul (Foto: Oliva do Sul/Divulgação)

O industrial metalúrgico Renato Fernandes, presidente do Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva) e produtor desde 2015, diz que, impulsionada por profissionais liberais como a ex-ministra, primeira mulher a ocupar o cargo no STF, a cultura milenar cresce a passos rápidos no Rio Grande do Sul, que já soma 6 mil hectares de oliveiras – 1 mil a mais do que em 2020.

Para a safra 2022, é esperado um novo aumento. Segundo Fernandes, médicos, advogados, engenheiros e publicitários representam hoje 80% dos produtores.

Fotos da lavoura e colheita de azeitonas da ex-ministra do STF Ellen Gracie (Foto: Arquivo pessoal)

Mauro Aspis, a esposa Clara e a ex-ministra do STF Ellen Gracie nas oliveiras em Arroio dos Ratos (RS) (Foto: Arquivo pessoal)

Todos cultivam a oliveira, também chamada de “árvore da vida”, com o objetivo de criar sua marca de azeite extravirgem, seja em lagar (equipamento para a prensa da azeitona, geralmente importado da Itália) próprio ou terceirizado.

A venda ocorre direto nas fazendas, por site ou em lojas de Porto Alegre e de algumas capitais do Sudeste. “Recebemos na Ibraoliva ligações e e-mails diários de profissionais liberais em busca de informações sobre a cultura.”

Fernandes diz que a oliveira exige sol, terreno inclinado e pedregoso e 200 horas por ano de temperaturas abaixo de 10ºC. O prazo de retorno do investimento é de cerca de sete a 10 anos, já que as oliveiras começam a produzir com três anos e meio, atingem seu vigor a partir de oito anos e podem ser altamente

Enilton Coutinho, chefe de transferência de tecnologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Clima Temperado e pesquisador da cultura desde 2004, diz que a oliveira foi reintroduzida no Estado em 2006 em Caçapava do Sul, após algumas experiências iniciais que não progrediram nas décadas de 1930 e depois em 1970 e 1980.

“A Câmara Brasil-Portugal visitou a região, que tem condições de solo e clima muito bom para a oliveira, e propôs o cultivo, já que o país importava 100% do azeite que consumia.”

O desafio foi aceito pela Embrapa, que passou a coletar materiais genéticos em praças e pequenas propriedades que tinham oliveiras, identificando os germoplasmas que eram mais produtivos. Foram importadas também mudas da Grécia, sul da França, sul da Itália e norte de Portugal.

Segundo o pesquisador, hoje, o Brasil importa 98% dos cerca de 70 milhões de litros de azeite que consome, ou seja, há muito espaço para avançar na produção. O Rio Grande do Sul concentra 75% da olivicultura, tem cerca de 200 produtores, 13 indústrias e mais de 40 marcas de azeite.

A outra região que se destaca na olivicultura graças às pesquisas da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), é a da Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais, com 160 produtores, 23 indústrias e 60 marcas.

A safra ou colheita, que pode ser manual ou com o auxílio mecânico de vibradores de tronco, geralmente acontece em janeiro e fevereiro no sul do país. Em Minas, as azeitonas são colhidas um mês depois. A floração, que pode se estender por até 30 dias, é normalmente em agosto.

Existem mais de 130 cultivares de oliveiras no mundo. As mais plantadas no Brasil são arbequina, koroneiki, frantoio e arbosana. Até o final do ano, a Embrapa deve lançar as primeiras quatro variedades genuinamente brasileiras.

Coutinho diz que o país tem excelentes viveiristas, com idoneidade genética e tecnologia, mas a demanda alta faz com que as encomendas de mudas tenham que ser feitas com até um ano de antecedência.

O custo de implantação de um hectare varia de R$ 20 mil a R$ 25 mil, pesando mais a correção do solo e o preço da muda, em torno de R$ 25 cada uma. O recomendado é plantar 300 mudas por hectare.

"A olivicultura é uma grande fonte de lucro. A rentabilidade no oitavo ano pode atingir 800 litros por hectare, ou seja, pelo menos R$ 40 mil. Conheço alguns olivais na Espanha que têm mais de 700 anos e ainda são produtivos"

Enilton Coutinho, chefe de transferência de tecnologia da Embrapa Clima Temperado

Coutinho diz que o Rio Grande do Sul tem cerca de 2 milhões de hectares propícios para o cultivo das oliveiras e estima que em quatro ou cinco anos dá para chegar fácil a 100 mil hectares. Após se aposentar, ele planeja aproveitar os anos de pesquisa e se tornar também produtor.

Ovelhas e abelhas

Aspis, o genro da ex-ministra Ellen Gracie, diz que, além das oliveiras, o trio investe na criação de gado angus e de ovelhas e no plantio de florestas na fazenda de 500 hectares como uma atividade suplementar aos escritórios de advocacia que mantém no Rio de Janeiro e na capital gaúcha, Porto Alegre.

“Nós somos apreciadores de azeite. Visitamos vários lugares produtores no mundo para saber o que é um bom azeite. Além da possibilidade de lucrar com a cultura, para nós a atividade agrícola é uma válvula de escape da advocacia.”

Fotos da lavoura e colheita de azeitonas da ex-ministra do STF Ellen Gracie (Foto: Arquivo pessoal)

Colheita de azeitonas na propriedade da ex-ministra do STF Ellen Gracie (Foto: Arquivo pessoal)

Eles iniciaram as atividades na fazenda há cinco anos. Plantaram inicialmente 15 hectares de oliveiras e estão implantando neste ano mais 18 hectares. Depois do crescimento das mudas, iniciaram a integração lavoura-pecuária na área das oliveiras com a criação de ovelhas e colocaram também uma caixa de abelhas nativas jataí a cada hectare. “Tivemos excelentes resultados com a polinização das oliveiras”, diz Aspis.

A colheita é manual e prensada no mesmo dia para a fabricação terceirizada do azeite La Favola. Segundo ele, Ellen Gracie visita a propriedade com muita frequência e os planos futuros do trio incluem produzir cosméticos originados do azeite e aproveitar a boa localização da fazenda, que fica na beira da estrada, a 60 km de Porto Alegre, para investir no turismo do azeite.

Fernandes, o presidente do Ibraoliva, comprou uma área em Caçapava do Sul para investir nas oliveiras. “Estava buscando uma opção de investimento, descobri o azeite nacional e me apaixonei.” Ele plantou dez hectares e construiu na fazenda uma pousada rural em estilo português para explorar o turismo de oliveiras. Já colheu duas safras, a última com 4.000 kg, para a produção terceirizada do azeite Vila do Segredo.

Lavoura de Luiz Eduardo Batalha, 74 anos, maior produtor de azeite do país Batalha, o maior produtor do país (Foto: Arquivo pessoal)

Luiz Eduardo Batalha, 74 anos, maior produtor de azeite do país (Foto: Arquivo pessoal)

Maior produtor

Formado em engenharia mecânica e há 48 anos no agronegócio e no ramo imobiliário, Luiz Eduardo Batalha, 74 anos, é o maior produtor de azeite do país. Iniciou em 2010 com 10 mil pés em 100 hectares. Hoje, possui 40 mil pés de oliveiras distribuídos em 500 hectares nos municípios de Pinheiro Machado e Candiota.

Na última safra,  colheu quase 1 milhão de kg de azeitonas, para uma produção de 136 mil litros de azeite que leva o seu sobrenome. Aliás, ele explica, que suas inúmeras atividades não incluem a produção de vinho – a Vinícola Batalha, também do Rio Grande do Sul, pertence ao amigo Gilberto Pozzan.

“O segredo do azeite é a rapidez entre a colheita e a transformação em azeite. Quanto mais rápido, menor a chance de oxidar”, explica o veterano, que tem lagar nas duas propriedades e buscou tecnologia e conhecimentos sobre a olivicultura nos Estados Unidos e Europa.

Batalha destaca que o terreno pedregoso de suas fazendas, na Campanha Gaúcha, no paralelo 31, oferece um terroir perfeito para o azeite, com sol e volume de chuvas, entre 1.000 mm e 2.000 mm, ideais para a cultura. A colheita é mecanizada e emprega 120 pessoas. Além de criar gado, produzir soja e azeitonas, Batalha tem viveiro de mudas e indústria de conservas e azeitonas de mesa.

O produtor não revela quanto já investiu nas oliveiras, mas diz que ainda é cedo para estabelecer a real rentabilidade da cultura. “Estou certo de que será um excelente negócio. Já tive árvores que deram 115 kg de azeitona, quando 30 kg já seria bem rentável.” Em cinco anos, com a maturidade de mais árvores, Batalha projeta alcançar a produção de 500 mil litros de azeite por safra.

Agora, o agroempresário que se autodeclara um inovador se prepara para lançar em Candiota um condomínio-resort com oliveiras no quintal de 60 casas de até 450 m² de área construída. “Além de ter até 40 árvores no quintal, o proprietário do imóvel terá a chance de produzir um azeite com sua marca.”

Propriedade da ex-funcionária pública Vani Maria Ceolin Aued e do marido, o engenheiro José Alberto Aued, que são donos da marca Olivas do Sul (Foto: Oliva do Sul/Divulgação)

Oliveira na propriedade da ex-funcionária pública Vani Maria Ceolin Aued e do marido, o engenheiro José Alberto Aued, que são donos da marca Olivas do Sul (Foto: Oliva do Sul/Divulgação)

Pioneiros

A ex-funcionária pública Vani Maria Ceolin Aued e o marido, o engenheiro José Alberto Aued, são os pioneiros na comercialização do azeite extravirgem. Ela conta que os dois tinham uma propriedade em Cachoeira do Sul e buscavam uma oportunidade de plantar algo mais rentável em áreas pequenas já pensando em uma renda extra para a aposentadoria.

Em 2006, optaram pelas oliveiras e iniciaram com 12 hectares. A primeira safra, em 2010, rendeu 700 litros, produzidos em um pequeno lagar importado da Itália com capacidade de prensar 40 kg por hora.

“Era tudo muito novo. Sofremos pelo pioneirismo, cometemos muitos erros, mas mandamos amostras para concurso na Itália e nosso azeite Olivas do Sul foi selecionado entre os melhores do mundo”, conta Vani.

Propriedade da ex-funcionária pública Vani Maria Ceolin Aued e do marido, o engenheiro José Alberto Aued, que são donos da marca Olivas do Sul (Foto: Oliva do Sul/Divulgação)

Ex-funcionária pública Vani Maria Ceolin Aued (Foto: Oliva do Sul/Divulgação)

Em 2012, eles implantaram na propriedade uma alameda de 66 oliveiras centenárias (130 anos), adquiridas de uma fazenda da região de Bagé. “O dono ia arrancar as árvores para plantar soja. Nós transplantamos, todas vingaram e a maioria delas voltou a produzir”, afirma Vani. Naquele ano, foi produzida uma edição limitada de azeite das centenárias.

Depois de dobrar a área plantada em Cachoeira e comprar um novo lagar, o casal decidiu buscar um local com mais aptidão para a cultura. Optou pelo município de Encruzilhada do Sul, onde o clima é mais seco e frio e o solo, mais pedregoso. Plantou 100 hectares.

Neste ano, a colheita na primeira fazenda rendeu 5 mil litros de azeite. No próximo, a expectativa é dar um grande salto na produção com o início da safra do olival de Encruzilhada. Além da produção de azeite, o casal mantém viveiro de mudas e recebe visitantes agendados para degustação. “Estamos no caminho do turismo da olivicultura.”

Lucidio Goelzer já era agricultor e mantinha em sua propriedade rural de 130 hectares chamada Quinta da Estância, em Viamão, um premiado programa de turismo ecológico e educacional quando decidiu em 2007 agregar a sua fazenda o plantio de oliveiras de 30 variedades em projeto-piloto da Embrapa que visava testar a cultura e atrair investidores. Gostou do resultado e investiu em plantio comercial.

“Meu objetivo era ter um azeite honesto na mesa. No início, erramos muito, inclusive no espaçamento. Tive que arrancar 100 plantas por hectare porque aqui as árvores crescem muito mais do que na Europa”, diz o agricultor, que hoje tem 25 hectares de oliveiras, com plantas que variam de um a 12 anos.

Neste ano, Goelzer, com a implantação de um lagar amplo e moderno que demandou investimento de R$ 2 milhões, produziu na fazenda sua segunda safra do azeite Estância das Oliveiras. Com falta de frio no ano passado e a necessidade de podas radicais, a produção foi de apenas 2 mil litros para um potencial de 15 mil a 17 mil litros. Mesmo assim, ele enviou amostras para concurso na Itália e ganhou dois prêmios, entre eles o de melhor azeite blend do hemisfério sul.

Marcelo Costi Pereira, engenheiro e dono de uma empresa de ar-condicionado, foi atraído pela olivicultura por indicação do sogro. Em 2008, comprou 20 hectares em Caçapava do Sul para iniciar o plantio pensando em renda para a aposentadoria. Plantou inicialmente 4,2 hectares, depois aumentou para 6 hectares e planeja crescer mais 1 ou 2 hectares.

“No primeiro plantio, perdi 900 mudas. Fui replantando e testando novas variedades. Em 2012, fiz a primeira colheita de 1.800 kg.” Nos anos seguintes, a produção teve muito sobe e desce, chegando a 27 toneladas em 2019 e caindo para apenas 800 kg em 2020, quando o clima não ajudou e houve atraso na adubação.

Neste ano, atingiu o recorde de 42 toneladas, que entregou para processamento na indústria Prosperato. Tirando a parte da indústria, produziu 5.000 litros de azeite Costi Olivos, edição limitada e numerada.

Ele conta que nunca havia comido azeitonas antes de iniciar o plantio e que já investiu de R$ 1,5 milhão a R$ 2 milhões na cultura. “A gente se apaixona pela oliveira, mas o negócio tem que ser viável economicamente. Preciso de mais uns três anos de boas safras para empatar o investimento. Depois, vem o lucro.”  

Concorrência internacional

Produtores e o chefe da Embrapa são unânimes ao afirmar que o alto preço do azeite nacional (a garrafa de 500 ml custa pelo menos R$ 60), comparado com as marcas importadas vendidas em supermercados, se deve ao frescor e à qualidade do produto nacional, atestada por dezenas de prêmios conquistados em concursos internacionais, e ao alto custo de produção.

Coutinho diz que os azeites importados vendidos nas gôndolas não são necessariamente da última safra e são de segunda ou terceira linha. “O preço também é uma questão de procura. Diferente do vinho, quanto mais novo o azeite, melhor.” Segundo o pesquisador, o Brasil é o quarto maior consumidor de azeite do mundo, mas o consumo per capita anual não passa de 250 ml, enquanto na Grécia é de 30 litros e em Portugal, 20 litros.

Renato Fernandes, produtor e presidente do Ibraoliva (Foto: Arquivo pessoal)

Renato Fernandes, produtor e presidente do Ibraoliva (Foto: Arquivo pessoal)

Fernandes, da Ibraoliva, diz que o brasileiro optou pela produção de um azeite mais fresco que o produto europeu e de qualidade premium, diferentemente do que fez no início da produção de vinho. “As azeitonas rendem menos óleo que na Europa, mas o sabor é incomparável. Tanto que o azeite nacional conquistou 39 prêmios neste ano e mais de 150 nos últimos anos.”

Ele sugere ao consumidor que cheire o azeite antes de provar. Se detectar ranço, é porque o azeite é velho. “O azeite tem três inimigos: a oxidação, a iluminação, que gera envelhecimento precoce, e a temperatura alta, que deteriora suas propriedades.”

Segundo o dirigente e produtor, o azeite importado chega ao Brasil em contêineres sem controle de temperatura, geralmente acondicionado em embalagens de 1.000 litros, o que favorece a fraude. Há vários relatos de apreensão de azeites extravirgem falsificados, todos importados. Para evitar as fraudes, a Ibraoliva protocolou pedido para que o governo federal proíba a importação de embalagens maiores que 20 litros.

Vani, a pioneira da cultura, acrescenta que o azeite nacional tem seu custo acrescido pela importação de 100% das garrafas. “Eu geralmente trago as garrafas do Chile, mas neste ano houve falta por lá e tive que importar da Espanha.”

ELIANE SILVA

Fonte : Globo Rural

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.