Agricultura mira expansão com novas redes

A digitalização é uma tendência no campo. Sistemas que melhoram práticas de cultivo, fornecem informações precisas sobre clima, monitoram pragas e automatizam transações já estão disponíveis aos agricultores. Mas o advento da rede 5G pode potencializar o uso de outras ferramentas, transformando a fazenda um ambiente conectado.

Qualidade do sinal de internet, velocidade de conexão e capacidade de transmitir grandes volumes de dados são as vantagens proporcionadas pelo 5G. Por aumentar o desempenho da rede, a tecnologia abre caminho para incorporar novas funcionalidades nas ofertas destinadas ao setor.

A expectativa é alimentada por desenvolvedores de soluções tecnológicas para o setor agrícola, as chamadas agritechs, que são muitas vezes pequenas empresas nascentes (startups) que estão ocupando espaço no mercado brasileiro no rastro da e-Agricultura.

Segundo o relatório E-Agricultura na América Latina, publicado pela associação 5G Américas, o uso da tecnologia contribui para o avanço rumo à agricultura sustentável. O documento destaca, ainda, a facilidade de acesso aos mercados e o intercâmbio de informações em tempo real.

A conectividade desempenha papel fundamental nesse contexto. O desafio, porém, consiste em garantir a amplitude da rede quando a tecnologia 5G estiver disponível no Brasil. Atualmente, muitas propriedades rurais não têm cobertura de internet e nas que existem conexão 3G ou 4G o sinal funciona precariamente, limitando o uso das soluções.

O 5G pode mudar essa realidade, acredita Alexandre Borges, sócio da Grão Direto, que tem clientes no Triângulo Mineiro e em Goiás. “Muitas coisas não conseguimos fazer por falta de rede de alta performance”, diz, fazendo referência à plataforma de negociação que a empresa desenvolveu para conectar produtores e compradores de grãos.

A plataforma automatiza uma operação que atualmente é feita por telefone ou mesmo pelo aplicativo WhatsApp. Além de oferecer segurança e permitir o controle da transação, as vantagens são a ampliação do universo de agentes que podem interagir nesse ambiente virtual e a garantia de realização de melhores negócios.

Segundo Borges, com uma rede de alta performance, como o 5G, seria possível melhorar a classificação de grãos e monitorar a qualidade do armazenamento nos cilos. As informações geradas e transmitidas em tempo real a partir de sensores instalados nas máquinas poderiam ser integradas ao sistema de venda.

Ativa desde 2016, a Produtor Agro ampliou o seu portfólio de ofertas para o mercado agrícola com o desenvolvimento de um software que moderniza o manejo de pragas. O processo atual, feito manualmente e com uso de fichas de campo, é considerado pouco eficiente e com risco de perda de dados.

Embarcado em um tablet, fornecido pela empresa aos cliente, o software faz o monitoramento e a contagem georregerenciada da população de pragas a partir de um mapa de calor. Recursos de modelagem estatísticas garantem a precisão dos dados coletados e processados para suportar embasam a decisão sobre a aplicação de defensivos agrícolas.

A restrição da internet no campo impede que a transmissão dos dados ocorra em tempo real, observa Mateus Borges, sócio da Produtor Agro. “Com o 5G poderíamos ter uma solução mais robusta, que permitisse utilizar um software de inteligência artificial para ajudar no processo de reconhecimento de pragas”.

Para Raphael Ivan, diretor de produtos da E-Agro, o produtor agrícola se torna mais competitivo e aumenta as suas margens quando utiliza tecnologias que integram que permitem acompanhar as atividades diárias da propriedade rural.

Além de atender esse objetivo, o software de gestão agrícola da empresa permite integrar soluções de outros fornecedores, como sensores climáticos, sistema de telemetria, software contábil e fiscal, entre outros, que facilitam a tomada de decisões dos usuários.

Para tanto, a E-Agro formalizou parcerias com seis fornecedores e estuda um acordo com a plataforma eletrônica de compras Agro Mercador, que contabiliza mais de 1 milhão fornecedores cadastrados, para permitir que seus clientes façam cotações.

Localizada em Ribeirão Preto, a E-Agro tem uma base de 470 clientes ativos no mercado brasileiro, um na alemanha e outro em Portugal. A meta de Raphael Ivan, dretor de operações da empresa, é fechar outros contratos na América Latina, Europa e Estados Unidos a partir do próximo ano.

Por Inaldo Cristoni | Para o Valor, de São Paulo

Fonte: Valor