AGRICULTURA – Déficit de armazenagem de grãos deve superar 100 milhões de toneladas no Brasil em 2021

Estimativa é da consultoria Cogo, que já aponta falta de 87,4 milhões de toneladas em 2020. Para Conab, gargalo pode ocorrer em cinco anos

  • ELIANE SILVA

Armazenagem e condomínios rurais no Paraná (Foto: Amanda Gaban/Divulgação)

(Foto: Amanda Gaban/Divulgação)

Em 2021, ano em que se prevê mais um recorde de produção de grãos no Brasil, o déficit de capacidade de armazenagem estática deve ultrapassar a barreira das 100 milhões de toneladas.

A estimativa é da consultoria Cogo Inteligência em Agronegócio, que já aponta um déficit neste ano de 87,4 milhões de toneladas, ou seja, o país tem capacidade de armazenar 170,1 milhões de toneladas, mas a safra 2019/20 deve fechar com 257,5 milhões de toneladas.

O cálculo para o próximo ano é feito levando-se em conta uma safra estimada de 277 milhões de toneladas e um crescimento de 4,2 milhões de toneladas na capacidade.

Carlos Cogo, diretor da consultoria, diz que a paridade entre capacidade estática e produção de grãos era equilibrada historicamente, mas se descolou a partir de 2010. Desde então, a produção cresceu a uma taxa de 5,1% ao ano, e a armazenagem teve alta de apenas 1,9% ao ano.

“Já temos um gargalo. O aumento de produção faz com que, mesmo escoando as safras rapidamente, quando o milho é colhido os silos ainda estão cheios de soja. O resultado são as imagens que vemos quase todos os anos no Mato Grosso: montanhas de milho a céu aberto por falta de armazéns", observa.

Stelito Assis dos Reis Neto, superintendente de armazenagem da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), concorda que há um descolamento e que a situação é mais grave especialmente em algumas regiões do país, mas ainda não vê gargalo.

“Isso pode acontecer nos próximos cinco anos. Diferentemente de países como os EUA, não precisamos ter armazenagem estática para 100% da produção porque temos várias safras por ano. O importante é que haja na região uma capacidade estática que suporte o fluxo de produtos até o final da comercialização", pondera.

O superintendente cita duas regiões como casos que merecem mais atenção. “No Mato Grosso, se o produtor guardar grãos em fevereiro, em abril já terá usado 80% da capacidade. No Matopiba, se for armazenar a produção por dois ou três meses nos períodos de colheita, no segundo mês já vai ultrapassar em 30% a capacidade de armazenagem.”

A Conab não tem um levantamento regional atualizado. Prevê lançar no próximo ano um perfil dividido pelas regiões em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

No levantamento da Cogo, o déficit atual no Mato Grosso é de 40 milhões de toneladas, em Goiás chega a 14,5 milhões e no Mato Grosso do Sul, 12,9 milhões.  Na região do Matopiba, são 12 milhões. “Já existe déficit até em Estados onde não havia esse problema, como o Paraná, com 12 milhões de toneladas", ressalta o consultor.

Além do déficit, outro problema do setor é que apenas 16% da capacidade estática está dentro das fazendas, o que encarece os custos de armazenagem. A maior parte dos grãos fica em tradings ou cooperativas.

Para comparar com outros exportadores, no Canadá esse índice é de 80%, nos EUA, 56%, e na União Europeia, 50%. Isso obriga a maioria dos produtores brasileiros a tirar a safra de sua propriedade logo após a colheita, quando o frete e os valores de armazenagem estão mais caros.

“O produtor tem que se livrar de sua colheita e perde nessa operação de 8% a 9% do seu lucro líquido. Nesta safra, houve uma diferença de mais de 50% no preço da saca de soja ao longo do ano. Quem teve como armazenar para vender mais tarde ganhou muito dinheiro”, pontua Cogo.

Ele acrescenta que um volume muito grande de grãos, cerca de 10,3 milhões de toneladas, acaba armazenado nos portos, que deveriam ser local apenas de fluxo dos produtos para atender aos mercados. Também ressalta que, ao assumir o Ministério da Agricultura em 2019, a ministra Tereza Cristina listou entre suas três metas o fomento à armazenagem.

Crédito

Em 2012, o governo Dilma Rousseff criou a linha de crédito rural PCA (Programa para Construção e Ampliação de Armazéns), dentro do Plano Safra, visando incentivar a construção e modernização dessas estruturas.

Na avaliação de Cogo, o programa começou muito bem, com uma promessa de liberar R$ 25 bilhões em cinco anos, mas isso só foi feito nos dois primeiros anos. “Houve um salto na capacidade em 2013, com mais 20 milhões de toneladas, mas nos anos posteriores o recurso diminuiu para R$ 2 bilhões ou menos”, diante de uma demanda de R$ 5 bilhões ou R$ 6 bilhões.”

Stelito afirma que, nos dois últimos planos Safra, houve avanço com mais recursos e juros menores para construção de armazéns rurais. Neste ano, o valor anunciado em junho foi de R$ 2,23 bilhões, mas o PCA foi suspenso pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em 4 de novembro “em razão do nível de comprometimento dos recursos disponíveis".

De julho a novembro foram feitos 606 contratos de PCA, que somaram R$ 800,52 milhões. Os juros são de 5% ao ano para construções capazes de guardar até 6 mil toneladas e 6% acima desse volume. O prazo para pagamento é de até 13 anos, com carência de 3 anos.

agricultura_armazenagem_silos (Foto: Ernesto de Souza/Ed. Globo)

(Foto: Ernesto de Souza/Ed. Globo)

Elisangela Pereira Lopes, coordenadora de assuntos estratégicos da CNA, diz que o agricultor está preocupado com a falta de infraestrutura para armazenar os grãos, mas vem fazendo bem sua parte que é produzir. “O fato é que as linhas de crédito são burocráticas e de difícil acesso e as obras demandam altos investimentos, licenças ambientais e maturidade dos empreendimentos", avalia.

Ela conta que a questão vem sendo estudada na Câmara Logística do Ministério da Agricultura, que deve apresentar um plano em 2021. “Sabemos que, com a expansão das novas fronteiras agrícolas, houve um desequilíbrio muito grande. Em 20 anos, a nossa capacidade estática subiu 87,3 milhões de toneladas, mas a produção cresceu 174,8 milhões de toneladas, ou seja, o dobro.”

A coordenadora conta que a Conab tem um plano de repassar 28 de suas 65 unidades para a iniciativa privada por alienação, leilão ou PPP (parceria público-privada). Essas unidades, distribuídas pela região Centro-Oeste (13), Sudeste (5), Norte (4), Nordeste (4) e Sul (2), consomem R$ 6,2 milhões em manutenção. “Mas nós desconhecemos o Estado em que estão esses armazéns”, afirma.

Uma alternativa aos recursos escassos do crédito rural do governo é o financiamento por bancos privados. “O problema é que o investimento é muito alto. O silo representa apenas 50% do custo e o juro do banco privado é muito superior ao do crédito subsidiado”, diz Cogo, estimando o juro privado em 12% ao ano.

Segundo o consultor, o “payback” do empreendimento é baixo, já que o custo se paga em seis ou sete anos, mas, também por uma questão cultural, o produtor ainda não colocou o item armazenamento no topo de suas prioridades .

Ele acredita, entretanto, que agricultor e bancos privados terão de se ajustar para construir novas estruturas porque os recursos públicos devem acabar logo. “Acredito que a pandemia da Covid-19 salvou o último Plano Safra. Será muito improvável o governo manter o plano em 2021 ou 2022”, ressalta.

Silo-bag e condomínios

Por causa do déficit e dos altos custos de construção de silos, tem se disseminado pelo país o armazenamento de grãos em silos-bag (ou silos-bolsa) nas fazendas produtoras. Segundo Cogo, cerca de 35 milhões de toneladas estão guardadas nesses dispositivos.

Essas estruturas são, no entanto, uma solução provisória porque só permitem uso único por até um ano e meio e precisam ficar em áreas protegidas para não serem alvos de mordidas de animais ou de vandalismo.

Armazenagem e condomínios rurais no Paraná (Foto: Amanda Gaban/Divulgação)

(Foto: Amanda Gaban/Divulgação)

Outra solução que vem crescendo nos últimos anos são os condomínios de armazéns rurais, especialmente no Paraná. A engenheira agrônoma especializada em agronegócios Amanda Cristina Gaban Filippi pesquisou o assunto em teses de mestrado e doutorado para a Universidade de Brasília (UNB) e a Universidade Federal de Goiás (UFG).

Ela conta que pequenos e médios produtores se unem para obter financiamento e construir os silos. Cada um tem uma cota de armazenagem de acordo com sua produção. “Os agricultores têm várias vantagens, como redução de custos de produção e de custos logísticos nos picos de safra, aumento do lucro, eliminação de intermediários na comercialização estratégica de seus grãos e melhor acesso a condições de financiamento.”

Segundo a pesquisadora, só em Palotina (PR), desde 2015, o número de condomínios dobrou para seis unidades. Em média, essas estruturas são cotizadas entre 16 produtores, ocupam área de seis hectares e têm capacidade de guardar cerca de 450 mil sacas de grãos.

Argentina

A Argentina tem uma situação totalmente diferente da brasileira na questão da armazenagem, segundo Cogo, que morou e trabalhou no país vizinho alguns anos. Ele diz que lá a maioria dos produtores são arrendatários e não têm interesse em construir estruturas fixas nas terras que pertencem a outros.

“Eles têm de 110 a 120 milhões de toneladas de capacidade de armazenagem de soja, milho, silagem para gado e outros grãos nos silos-bags. Já a capacidade estática é de 75 milhões de toneladas.”

Fonte : Globo Rural

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