Agricultores veem riscos para soberania alimentar

Pequenos produtores rurais criticaram políticas governamentais de apoio à monocultura exportadora em detrimento da produção de alimentos para consumo no país

Senador Requião (4o à esq.) coordena debate com representantes de trabalhadores rurais, de empresários e do governo Foto: Alessandro Dantas

As políticas econômica, agrária e agrícola do governo federal que têm privilegiado o agronegócio exportador em detrimento da reforma agrária e da produção de alimentos para consumo interno põem em risco a soberania alimentar do país. A constatação foi feita por representantes de pequenos agricultores e de trabalhadores rurais em audiência realizada ontem pela Comissão de Direitos Humanos (CDH). No debate, foram apresentadas denúncias de descumprimento das leis trabalhistas e de precariedade nas condições de trabalho no setor.

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Pequenos produtores e movimentos sociais alegam que, apesar de os camponeses serem responsáveis por mais de 70% do alimento consumido no Brasil e por 70% dos empregos gerados no campo, o governo insiste em privilegiar o agronegócio focado no cultivo de monoculturas voltadas para exportação. A desoneração tributária concedida às empresas do agronegócio também foi criticada.

— O Brasil importa feijão preto da China porque não há produção [suficiente] no Brasil. Dá mais lucro produzir soja e exportar para a Europa para virar ração de gado do que alimentar o povo brasileiro. O que não pode ocorrer é que tudo está sendo feito com apoio do Estado brasileiro — criticou o representante da Central Sindical e Popular, José Maria de Almeida.

A concentração da produção alimentícia do país nas mãos de empresas estrangeiras também foi apontada como um risco para a soberania alimentar por Jean Carlo Pereira, da Via Campesina. Ele defendeu a mudança na estrutura de produção agrícola, para que passe a priorizar a produção de alimentos, em benefício de toda a população.

— Quem mais obtém lucro hoje não são nem os grandes latifundiários. Quem obtém realmente são as grandes transnacionais, que, na hora que o país der um sinal de crise, vão embora — disse Pereira.

O representante do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Antonio Luiz Moraes, afirmou que não existe conflito entre produção de alimentos e bens exportáveis. Ele sustentou que o agronegócio é responsável por parte significativa do PIB, beneficiando também os trabalhadores rurais.

— Não estou contestando as reivindicações de vocês, mas, em que pese as possíveis distorções, o crescimento da agricultura beneficia a todos — argumentou.

Jornal do Senado

(Reprodução autorizada mediante citação do Jornal do Senado)

Fonte: Jornal do Senado

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