Agricultores antecipam aquisição de sementes

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José Américo Rodrigues, da Abrasem: tecnologia e novos modelos de negócio

O mercado de sementes tem crescido de forma consistente nos últimos anos, seguindo o ritmo do avanço da área plantada das principais lavouras, da incorporação de novas tecnologias, o que inclui a adoção crescente de variedades transgênicas, e do desenvolvimento de cultivares de qualidade mais elevada. Na média, segundo Gerhard Bohne, líder da divisão de crop science da Bayer no Brasil, o crescimento médio é de 5% ao ano.

Além do maior uso de tecnologias, Bohne observa alguma ampliação no número de consumidores, com atração de produtores de menor porte para o mercado de sementes certificadas.

"O pequeno agricultor também tem percebido maior valor no uso de novas tecnologias", diz o executivo, que espera o terceiro ano de aumento nas vendas em 2019.

Frederico Barreto, líder de marketing da plataforma de sementes da Corteva Agriscience para Brasil e Paraguai, igualmente relaciona o incremento recente do setor ao "aumento da tecnologia que a semente carrega", com uso de biotecnologia para assegurar tolerância a herbicidas e insetos, e ainda com o desenvolvimento de técnicas mais eficazes e "com maior espectro de controle de pragas" para tratamento de sementes.

Liderando esse processo, acrescenta Barreto, as culturas de soja, milho e algodão, que concentram praticamente 87% da área plantada, "carregam em si o principal investimento da indústria, em termos de biotecnologia e tratamento de sementes". Com dados da Agroconsult, num indicador da demanda por sementes, o executivo mostra que os Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e Goiás, pela ordem, foram os que mais ampliaram a área destinada à soja na safra 2018/19. No mesmo ciclo, a área de milho registrou maior incremento em Goiás, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Na avaliação de José Américo Pierre Rodrigues, presidente da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem), o desembarque de novos pacotes tecnológicos no campo, com o consequente desenvolvimento de novos modelos de negócios, baseados em agricultura digital, "têm se constituído em um desafio para o segmento", sacudido ainda por fusões e aquisições recentes envolvendo gigantes do setor, a exemplo da compra da Monsanto pela Bayer, da junção entre os grupos Dow e Dupont e da aquisição da Nidera pela Syngenta, entre outras operações. "O que se pode notar é que a busca por sinergia e eficiência está gerando avanços relevantes para a melhoria dos portfólios de defensivos e sementes", sustenta Rodrigues.

Embora a safra 2019/20 comece oficialmente apenas em julho, o mercado de sementes de soja "já está bastante aquecido", especialmente em Mato Grosso, constata André Franco, líder do negócio de sementes da Syngenta Brasil e Paraguai. Até o momento, a empresa já contratou vendas equivalentes a 30% do volume esperado para todo o ciclo, diante de 20% em igual período do ano passado.

Ao contrário do cenário observado nas duas últimas safras, a produção de sementes no ciclo atual, que vai alimentar o plantio na safra 2019/20, foi afetada pelo excesso de chuvas na fase de colheita da soja em algumas regiões. "O produtor está antecipando a decisão de compra para assegurar as cultivares que deseja", diz.

Há dois anos, a Syngenta decidiu investir mais fortemente no mercado de sementes e, como consequência, vieram a aquisição da Nidera no final de 2017, e mais recentemente o desenvolvimento de uma estratégia exclusiva para o setor. Entre 2018 e 2021, a empresa deverá investir US$ 100 milhões nos segmentos de milho e soja para desenvolver híbridos inovadores e sementes com índices mais altos de germinação, detalha.

O fechamento da safra 2018/19 foi "muito positivo" em termos de vendas, segundo ele, e a Syngenta espera se manter como a terceira principal marca no mercado de soja, com participação em torno de 18%. A empresa lidera o chamado "mercado vertical" de sementes da oleaginosa, com vendas duas vezes maiores do que o segundo colocado, e tem experimentado crescimento na área de licenciamento, onde as cultivares são vendidas para multiplicadores que utilizam marcas próprias.

No "mercado vertical", a empresa produz e desenvolve o cultivar, beneficia e vende a semente sob as marcas Nidera e Syngenta. Com uma fatia de 12% no segmento de sementes para a safra de verão de milho e 16% na segunda safra do grão, a Syngenta espera acrescentar um ponto de porcentagem de participação em cada um daqueles segmentos até o final desta safra.

Por Lauro Veiga Filho | Para o Valor, de Goiânia

Fonte : Valor

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