AGCO deve investir em fazendas-modelo para fincar os pés na África

Silvia Costanti/Valor / Silvia Costanti/Valor
Carioba: presença marcante no continente em um período de três a cinco anos

A AGCO, um dos grandes grupos multinacionais que atuam no segmento de máquinas agrícolas, traçou uma estratégia ousada de inserção no mercado africano. Para incentivar a mecanização no continente, que deverá ganhar importância na produção agrícola nas próximas décadas, a empresa com sede nos Estados Unidos participará da implementação, ainda no segundo semestre deste ano, de fazendas-modelo em quatro países: África do Sul, Marrocos, Zâmbia e Etiópia.

O projeto é desenvolvido em parceria com a Bayer CropScience, braço agrícola da gigante alemã de produtos químicos e com uma agência de fomento ligado ao governo da própria Alemanha. Em Zâmbia, a fazenda que será utilizada pertence à AGCO; na África do Sul, há um sócio local na propriedade; em Marrocos e na Etiópia, as unidades serão desenvolvidas por meio de parcerias público-privadas que terão o reforço de empresários desses dois países.

A AGCO argumenta que, além de a África caminhar para se transformar em uma "fronteira agrícola" mundial importante, a população do continente tende a dobrar em 30 anos, para cerca de 2 bilhões de pessoas, o que torna ainda mais importante o incremento de sua produção de alimentos. E há muito a ser feito nesse sentido, já que faltam assistência técnica especializada e funcionários preparados para operar o maquinário.

"Algum erro pode parar a transmissão na máquina e ela fica "encostada" no campo, sem utilidade", diz André Carioba, vice-presidente sênior da AGCO para a América do Sul. Segundo o Ministério de Agricultura da Alemanha, a idade média de um trator na África é de oito meses, enquanto no Brasil é de, no mínimo, cinco anos. Em cerca de dois meses, a AGCO deverá inaugurar seu primeiro escritório na África do Sul. Nas fazendas e nesse novo escritório, a multinacional de máquinas calcula investimentos totais da ordem de US$ 100 milhões. Contar com uma linha de montagem na África no futuro também faz parte dos planos.

Carioba defende a participação do Brasil em iniciativas como essa, já que o clima nas regiões produtoras da África é semelhante ao de áreas brasileiras, e adianta que a estratégia também poderá ser replicada em Angola e Moçambique, onde o idioma não chega a ser um problema, já que são países de língua portuguesa. Carioba acredita, porém, que o mercado africano para máquinas agrícolas só vai se desenvolver com subsídios dos governos locais para facilitar a aquisição dos equipamentos.

O executivo nota que os produtores africanos em geral usam máquinas muito básicas, que existiam no Brasil há 40 anos. O perfil dominante é formado por agricultores familiares, cuja demanda é por implementos mais simples, puxados por tratores pequenos. E mercado, existe. Puxadas por tratores, mas com algumas colheitadeiras incluídas, as exportações da AGCO para a África, de todas as origens, mais do que dobraram de 2010 para 2011, para quase 1,3 mil unidades. Da plataforma brasileira, saíram 436 equipamentos. De janeiro a abril, foram, no total, 497 máquinas, 218 do Brasil.

As empresas associadas à Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) exportaram 2.079 unidades para 26 países da África em 2011, ou 11,3% das vendas totais ao exterior no ano passado. É verdade que houve queda de 27,3% em relação a 2010, mas também é preciso lembrar que em 2002 foram apenas 771. Mesmo assim, a indústria reclama de falta de competitividade em relação a outros exportadores. Além da distância geográfica, custos como frete interno, tempo de porto e frete marítimo no Brasil são maiores que os de países como Índia, Turquia e Polônia, outras plataformas de exportação das múltis para a África, de acordo com Milton Rego, diretor da Anfavea. E a China, que tem um mercado atualmente dez vezes maior, ainda concentra a maior parte das atenções.

As vendas externas de implementos agrícolas brasileiros para a África também continuam limitadas, segundo Celso Casale, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). Ele acredita que o mercado amadurecerá com o apoio do governo brasileiro. "O programa Mais Alimentos vai contribuir para aumentar o volume de vendas consideravelmente". A Abimaq trabalha para divulgar o "Portal África", parceria com a Embrapa que reúne o portfólio de máquinas brasileiras voltadas à agricultura tropical.

Fonte: Valor | Por Carine Ferreira | De São Paulo

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