Acesso a ‘arsenal’ contra lagarta ainda é difícil

André Romeu/Folhapress / André Romeu/Folhapress
A famigerada helicoverpa, que deixou prejuízos de R$ 2 bilhões na safra 2012/13 e já causa mais perdas em 2013/14

A mobilização de importantes Estados produtores para que o Ministério da Agricultura declarasse emergência fitossanitária em função do ataque da Helicoverpa armigera até agora não foi suficiente para garantir o acesso dos agricultores ao benzoato de emamectina, defensivo considerado mais eficaz no combate à lagarta.

Obrigados a seguir uma extensa lista de regras para a aquisição e o uso do inseticida – que é proibido em condições normais no país e só foi liberado por causa da emergência -, muitos produtores estão descrentes sobre a possibilidade de utilizá-lo a tempo de proteger a safra atual (2013/14).

"É uma situação emergencial que já não é mais de emergência. Para a soja, pouco ou nada do produto será usado. Para o algodão [plantado mais tarde], talvez os produtores consigam aproveitar melhor", afirmou Nery Ribas, diretor técnico da Aprosoja/MT, que representa os produtores de grãos de Mato Grosso.

A helicoverpa tem afetado principalmente lavouras de soja, milho e algodão no Brasil. Estima-se que os prejuízos causados por ela tenham somado R$ 2 bilhões na temporada 2012/13. Contudo, o temor cresceu na temporada atual, uma vez que a proliferação da praga tem sido mais rápida do que na safra passada.

"O benzoato de emamectina não é a salvação da pátria. É mais uma ferramenta do manejo integrado de pragas, que se une ao controle biológico, por exemplo. Mas é importantíssimo que esteja disponível aos produtores o quanto antes", defendeu Ribas.

No último mês, além de Mato Grosso, o oeste da Bahia, Goiás e parte de Minas Gerais obtiveram o reconhecimento de situação de emergência. Mato Grosso do Sul e Piauí buscam o mesmo. A praga também chegou ao Rio Grande do Sul, mas para o chefe do serviço de sanidade vegetal do Estado, Jairo Carbonari, o monitoramento está em fase inicial e ainda não é hora de solicitar tal enquadramento.

A declaração de emergência é fundamental para que seja permitida a importação do benzoato de emamectina, mas outras exigências acabaram por envolver os agricultores em um emaranhado burocrático que só interessa à lagarta.

Uma portaria de 6 de novembro do Ministério da Agricultura definiu que os órgãos estaduais de defesa agropecuária devem realizar um estudo para identificar as áreas e as culturas que têm sofrido com a helicoverpa, para então declarar a zona "interditada" e requerer, junto ao governo federal, o sinal verde para a importação do inseticida.

No processo, são exigidos detalhes sobre a quantidade de produto que será usado para combater a lagarta na região em questão. Por fim, os agricultores precisam procurar um importador e fazer o pedido. Ao chegar ao porto, o Ministério da Agricultura tem de autorizar a compra após analisar o plano de manejo e constatar que as quantidades são mesmo necessárias.

"Não é permitido importar uma grande quantidade para fazer estoque. Será dada autorização para o uso necessário no momento imediato", disse Ricardo Cavalcanti, diretor do Departamento de Produtos de Origem Vegetal (Dipov) do Ministério da Agricultura. Ele sugere que a aquisição seja feita por meio de sindicatos rurais. "Ao invés de centenas de pequenos e médios produtores realizarem o processo, é mais fácil que peçam uma quantidade que atenda a todos".

No oeste da Bahia, essa foi a opção dos agricultores. A Agência de Defesa Agropecuária do Estado (Adab), em parceria com outras instituições locais, mapeou a praga e preparou uma solicitação conjunta. "Vamos pedir ao Ministério da Agricultura autorização para a compra de 900 toneladas do defensivo, além da liberação das 44 toneladas que já estão na Bahia, importadas no início do ano e apreendidas pelo Ministério Público", afirmou Armando Sá, diretor de defesa vegetal da Adab.

Segundo ele, há sinais de que a importação pode ser liberada ainda esta semana, e a previsão é que o volume requerido chegue à Bahia até o fim de janeiro.

No caso de Goiás, os problemas começam já na identificação da praga. "Estamos precisando confirmar a incidência da lagarta com exames laboratoriais. A fila hoje é de 90 dias para análises. No caso da safra de soja, já não há mais tempo viável", contou Luiz Zapparoli, presidente da Associação Goiana dos Produtores de Algodão (Agopa).

De acordo com Zapparoli, o clima chuvoso contribuiu para evitar um surto da lagarta, mas a sorte pode mudar. "Qualquer veranico trará grandes prejuízos. Já estamos tentando mudar a exigência de análise de laboratório para a identificação visual de um agrônomo".

Com o inseticida ideal nas prateleiras ou não, o fato é que a helicoverpa deve provocar uma nova elevação nos custos de produção. Em Mato Grosso, o Imea, instituto de economia ligado à federação dos produtores do Estado (Famato), prevê que a lagarta contribua para uma alta de 36% nos custos da soja em 2013/14, para R$ 2.607 por hectare. Na Bahia, a projeção é de um gasto adicional de R$ 300 por hectare, alcançando R$ 2 mil por hectare.

"Nos primeiros 30 dias da safra, já há casos de três aplicações de defensivos, quando o normal seria uma, ou duas", disse Luiz Stahlke, assessor de agronegócio da Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba). (Colaborou Sérgio Ruck Bueno, de Porto Alegre)

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Fonte: Valor | Por Mariana Caetano e Tarso Veloso | De São Paulo e Brasília

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