Abu Dhabi ‘cresce os olhos’ para o Brasil

Muneef Tarmoom aprendeu a vender ideias na Abu Dhabi Investment Authority (Adia), fundo de riqueza soberana do Emirado, onde jovens recém-formados são obrigados a defender suas estratégias de investimento em reuniões regulares.

"Tínhamos geralmente sessões intimidadoras com perguntas disparadas aos jovens recrutados. Você era contestado em relação a qualquer coisa que apresentasse em termos de investimentos e desinvestimentos. Com o tempo, acabava aguçando suas capacidades analíticas", diz Tarmoom. "A Adia foi uma escola".

Entrando para a empresa aos 24 anos, ele passou mais de dez anos no que é um dos maiores fundos soberanos do mundo, onde trabalhou com ações europeias e foi membro da comissão de investimentos de private equity.

Duas décadas mais tarde e após um curto período na Istithmar World, em Dubai, Tarmoom, um cidadão dos Emirados, está montando seu próprio negócio, longe do conforto de um governo repleto de petrodólares. Também está entrando numa arena totalmente nova para ele: finanças islâmicas.

"É totalmente diferente, no sentido de que você não tem uma rede de segurança, você está sozinho".

Os novos negócios de Tarmoom estão focados no financiamento de agricultores de médio porte no Brasil, onde se chega após um voo de 17 horas. Ao fazê-lo, ele pretende criar produtos financeiros compatíveis com a lei islâmica para investidores do Golfo Pérsico.

Os produtos destinam-se ao investimento de enormes volumes de recursos financeiros de bancos islâmicos do Golfo. Os investidores islâmicos na região têm um número limitado de instrumentos de curto prazo de gestão de liquidez para gerir seus fundos.

E o setor está crescendo: os vinte maiores bancos islâmicos do Golfo aumentaram seus ativos em 20% nos últimos 18 meses, em comparação com 9% no caso dos vinte maiores bancos convencionais na mesma região, de acordo com dados recentes da Ernst & Young.

Logo surge a pergunta: o que tem a ver os agricultores latino-americanos com finanças islâmicas? Juntamente com Juan Fernando Valdivieso, ex-sócio na McKinsey, Tarmoom criou a Abu Dhabi Equity Partners, um banco de investimento registrado nas Ilhas Cayman que oferece dois principais produtos financeiros: financiamento ao comércio de commodities agrícolas e alimentos "halal" – consumo permitido pelo Islã.

O primeiro permite que um investidor local no Golfo empreste dinheiro, por exemplo, a um produtor de açúcar brasileiro mediante a compra de sua produção, nos termos de um contrato com prazos entre três e seis meses. A commodity é, então, transferida para a titularidade do banco.

Se emprestar ao agricultor US$ 10 milhões, você recebe um valor equivalente a US$ 13 milhões em açúcar. No fim do contrato, o investidor recebe a taxa de lucro acordada e o principal, e o agricultor vende seu produto a uma companhia agrícola internacional.

Tudo isso faz parte de uma tendência, no mundo financeiro islâmico, de retornar ao básico. O setor que cumpre os preceitos da lei islâmica foi prejudicado durante a crise quando estruturas complexas acabaram revelando-se menos lastreadas em ativos do que pareciam. Agora, Tarmoom diz que os clientes podem optar por visitar e ver seus ativos físicos – não há magia financeira envolvida.

Como ele explica tudo isso a os agricultores no Brasil? Tudo o que eles veem, diz, é um financiamento a uma taxa de lucro acordada. Ele mantém as coisas em termos simples. E para os investidores, o produto oferece 450 pontos base acima da Libor durante um período de seis meses. Uma soma bastante substancial nesse tipo de mercado.

O investidor ou banco recebe um volume de produto físico superior ao valor do empréstimo, como garantia para protegê-lo contra flutuações de preços. As commodities são, então, monitoradas por terceiros em um armazém no Brasil, e por isso, se o banco quer verificar fisicamente a garantia, pode fazê-lo a qualquer momento.

Então, quando o agricultor pode obter o melhor preço, ele vende a seu produto e devolve o empréstimo ao banco ao preço previamente combinado. A vida do contrato é de até seis meses, com uma opção extensível, explica Tarmoom.

O segundo produto que a Abu Dhabi Equity Partners está oferecendo, essencialmente, um investimento em gado bovino na América Latina. O preço do boi sobe à medida que o animal vai engordando para ser então abatido, de modo que o investidor pode capitalizar em cima da engorda, mantendo a posse do gado apenas durante um período específico de curto prazo.

Tudo isso soa um pouco complicado para um pequeno banco de investimentos baseado no Golfo, mas Tarmoom está decidido a fazer a coisa funcionar – e acredita dominar as habilidades para fazer o esquema funcionar.

"Nós aspiramos representar uma nova geração de empresas de Abu Dhabi não mais dependentes de apoio governamental", diz Tarmoom, "mas que sintam-se confortáveis em competir mundialmente em nichos de mercados de alto crescimento". (Tradução de Sergio Blum)

Fonte: Valor | Por Camilla Hall | Financial Times, de Abu Dhabi

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *