Abilio reage a fundos, mas carece de apoio para comandar virada da BRF

Leo Pinheiro / Valor

José Luiz Osório, ex-presidente da CVM: cotado para o conselho da BRF

Em silêncio durante um fim de semana no qual foi bombardeado pela ofensiva das fundações Petros e Previ, o presidente do conselho de administração da BRF, Abilio Diniz, reagiu ontem à tentativa de tirá-lo da companhia com um recado encarado por muitos como ambíguo. Enquanto vê a fileira dos adversários crescer e perde aliados inclusive nas famílias fundadoras da Sadia, o empresário criticou a maneira como Petros e Previ deflagraram o movimento contra sua gestão, mas deixou a porta aberta para uma solução negociada – ou para uma saída honrosa, na visão de alguns observadores.

Em carta divulgada ontem, Abilio convocou uma reunião do conselho de administração da BRF para a próxima segunda-feira, dia 5. A pauta é apreciar o pedido das fundações para a realização de uma assembleia extraordinária para votar a destituição de todo o colegiado. A expectativa é que o conselho dê sinal verde à assembleia, mesmo porque Petros e Previ podem exercer o direito de convocar o encontro à revelia.

Por ora, Abilio Diniz não obteve manifestação explícitas de apoio à sua continuidade à frente do conselho da BRF. Nem mesmo da gestora Tarpon, parceira em sua chegada à BRF, há cinco anos, mas com quem agora já não tem a mesma sintonia. Na sexta-feira, durante teleconferência, Abilio criticou a gestão de Pedro Faria, sócio da Tarpon, como CEO da BRF, entre 2015 e 2017. Procurada, a Tarpon não se manifestou.

Embora poucos acreditem que a Tarpon apoie os fundos de pensão, dada à forte pressão que Petros e Previ fizeram no último ano para derrubar Faria, a avaliação de fonte próxima é que a gestora não "pegará em armas" para defender Abilio.

No exterior, a gestora britânica Aberdeen Standard, que tem 5% da BRF, já declarou estar "110%" com Petros e Previ. Fundos brasileiros que têm participação menor também seguem o movimento. São os casos das cariocas Jardim Botânico Investimentos e da JGP, que confirmam oficialmente que apoiam as fundações.

Outros investidores, no entanto, ainda preferem aguardar pelo anúncio da chapa idealizada por Petros e Previ e para conhecer os planos dos fundos para o futuro da BRF. Mas, conforme o Valor apurou, os fundos de pensão defendem que o novo conselho é quem escolherá a gestão executivo e orientará a gestão da BRF. "Os fundos não têm, aparentemente, uma estratégia definida para a empresa, mas sim uma visão de como deve ser a competência, a governança e a atuação de um conselho de administração", disse uma fonte. Um nome quase certo na composição da chapa a ser apresentada pelos fundos é o do ex-presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e principal sócio da gestora Jardim Botânico, José Luiz Osório, afirmou outra fonte.

Afora isso, figuras emblemáticas como Walter Fontana, ex-presidente da Sadia, e o ex-ministro Luiz Fernando Furlan tendem a apoiar Petros e Previ. Segundo fontes próximas às famílias, a paciência de Fontana e Furlan com Abilio se esgotou, sobretudo devido à sequência de resultados negativos. Em 2017, a BRF teve um prejuízo de R$ 1,1 bilhão, o maior da história. Antes de Abilio, a empresa jamais havia fechado um ano no vermelho.

Quem conhece os bastidores da BRF leu na renúncia do vice-presidente global de operações da BRF, Hélio Rubens Mendes dos Santos, anunciada na noite de ontem, um recado a Walter Fontana. O executivo comandou as operações da Sadia quando a empresa era presidida por Fontana.

Conforme fonte próxima a Hélio Rubens, o executivo vinha apontando, "há muito tempo", erros da Tarpon e de Abilio. Mas há também quem veja em sua saída uma resposta do CEO José Aurélio Drummond, apoiado por Abilio, às críticas à reação operacional da BRF à Operação Carne Fraca – no quarto trimestre, a BRF reportou provisões de R$ 200 milhões relacionadas a estoques.

Nesse cenário, membros das famílias Fontana e Furlan poderão votar contra Abilio mesmo que não façam parte da nova chapa do conselho que vem sendo costurada pelos fundos de pensão. Walter Fontana e Luiz Fernando Furlan atualmente integram o conselho de administração da BRF e, portanto, perderão os cargos se o conselho for destituído.

Embora os mais de 50 membros das famílias Fontana e Furlan nem sempre votem unidos, a crise da BRF os une tanto por motivos financeiros quanto pelo que consideram ser um risco à sobrevivência da companhia menos de uma década depois da severa crise de derivativos que fez a Sadia ser incorporada pela Perdigão.

Os herdeiros de Atílio Fontana, fundador da Sadia e avô de Walter Fontana, e de Luiz Fernando Furlan já sentem o impacto da crise da BRF nos bolsos. O valor absoluto distribuído a acionistas vinha crescendo num ritmo médio anual de 28% entre 2012 até 2016, saindo de R$ 439 milhões no primeiro exercício do intervalo para R$ 1,17 bilhão em 2016, mesmo com um pequeno prejuízo naquele ano. Já em 2017 a remuneração direta aos acionistas foi totalmente cortada.

Para os fundos Petros e Previ, a participação das famílias tende a ser essencial para angariar mais cadeiras no conselho da BRF, que possui dez vagas. Quando a BRF foi criada em 2009, as duas famílias tinham 9% do capital. Conforme dados enviados no ano passado pela empresa à Comissão de Títulos e Câmbio dos Estados Unidos (SEC, na sigla em inglês), Walter Fontana possui 0,3% da empresa, e o ex-ministro Furlan, 0,8%.

Enquanto a disputa se desenrola, a BRF chama cada vez mais atenção de grandes fundos de participações, fundos soberanos e grandes fundações estrangeiras. Potenciais compradores "atentos" ao desenrolar dos fatos não faltam. E não é de hoje. O que todos admitem faltar é um plano para aplicar na recuperação da empresa de alimentos, um negócio de commodity quem tem se revelado mais difícil de gerir do que a lógica financeira previa.

Além de faltar uma solução estratégica para a gestão, a BRF também carece, pelo menos neste momento, de acionistas relevantes vendedores. Os protagonistas dos últimos anos preferem esperar a recuperação das cotações a vender pelos preços atuais. Assim, a chegada de um novo dono, mesmo que minoritário, não é tão óbvia quanto poderia parecer para um ativo reconhecidamente desvalorizado.

"Nenhum acionista grande quer vender nesse preço e, por outro lado, nenhum comprador vai querer pagar um prêmio astronômico em relação ao mercado", comentou um conhecido assessor de fusões e aquisições. (Colaborou Fernando Torres)

Por Luiz Henrique Mendes, Vanessa Adachi e Graziella Valenti | De São Paulo

Fonte : Valor

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