Abilio monta chapa e reabre disputa no conselho da BRF

Após sinalizar que renunciaria à presidência do conselho de administração da BRF na quinta-feira, o empresário Abilio Diniz mudou tudo de última hora e moveu peças no tabuleiro para assumir a ofensiva no jogo. Quer liderar a definição de como e quem será eleito para o conselho da companhia.

O empresário está à frente do colegiado desde abril de 2013 e tornou-se alvo das fundações Petros e Previ – maiores acionistas da empresa. Os fundos de pensão iniciaram, em fevereiro, um movimento para troca do conselho de administração na assembleia geral deste ano. O objetivo era encerrar a gestão de Abilio.

Como o empresário apresentou forte resistência nos bastidores, os fundos de pensão decidiram buscar um acordo para que fosse feita uma transição de consenso.

Quando esse acordo com os fundos de pensão parecia consolidado, com minutas de documentos prontas a serem assinadas, Abilio levantou divergências de última hora. Em uma tática com a qual atraiu as famílias fundadoras da Sadia, busca agora dividir as fundações. Juntas, Previ e Petros têm 22% do capital da BRF, e Abilio, 4%.

Na sexta-feira, Abilio se valeu de sua posição majoritária no atual conselho da BRF e propôs uma chapa concorrente à apresentada por Petros e Previ. Na cabeça dessa chapa, está o ex-ministro Luiz Fernando Furlan, membro da família fundadora da Sadia. Furlan, que parecia rumar com as fundações e demonstrava desconforto com o acúmulo de prejuízos da BRF na "era Abilio", integra a chapa proposta pelos fundos de pensão como um membro comum.

Do modo como está hoje, haverá uma disputa na assembleia do dia 26. O grupo proposto por Abilio, por meio do conselho de administração, contém sete dos nomes da chapa apresentada pelos fundos de pensão. Mas a semelhança para por aí. A ordem dos nomes é diversa – e dá pistas dos conflitos que estão em jogo.

Enquanto Furlan encabeça a chapa de Abilio, o executivo Augusto Cruz, presidente do conselho da BR Distribuidora, é o nome das fundações para presidir o conselho da empresa de alimentos após a assembleia de acionistas.

O time montado por Abilio também tenta desidratar a participação da Petros, fundação com a qual o empresário teve sérias divergências – sobretudo com o vice-presidente do conselho da BRF, o advogado Francisco Petros (indicado para a função pelo fundo de pensão dos funcionários da Petrobras). Na chapa dos fundos, Francisco Petros segue na vice-presidência. Na última quinta-feira, durante as dez horas de reunião do conselho da BRF, Abilio tentou tirar esse conselheiro da chapa para fechar o acordo e renunciar, mas as fundações resistiram. Agora, na chapa alternativa, o advogado não aparece como um dos dez nomes.

Em contrapartida, Abilio tenta afagar a Previ. Walter Malieni, vice-presidente do Banco do Brasil e indicado pela Previ, teve seu nome proposto para a vice-presidência do conselho.

Na sexta-feira, Malieni votou contra essa proposta. Mas a avaliação dos articuladores de Abilio é que o vice-presidente do Banco do Brasil só foi contra porque a Previ ainda não conseguiu convencer a Petros a aceitar as alterações. "Mas eles gostaram e vão tentar convencer a Petros", disse uma fonte. Procurada pelo Valor, a Previ não quis comentar a proposta de Abilio.

Para observadores das negociações, há risco de o Palácio do Planalto interferir no imbroglio. Abilio poderia pedir ao ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, para influenciar os fundos de pensão. Em função do embargo às exportações de carne da BRF, o governo teme que a crise que afeta a empresa se alastre pelo setor. Abilio foi procurado pelo Valor, mas não se pronunciou. (Colaboraram Graziella Valenti, de São Paulo, e Cristiano Zaia, de Brasília)

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor

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