Abilio diz ‘desentortar’ BRF; ações despencam

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Abilio: BRF nunca foi uma companhia global, apesar de se apresentar como tal

Os resultados abaixo do esperado da BRF no terceiro trimestre deste ano afetaram não apenas o humor dos investidores. Ontem de manhã, em encontro com analistas em São Paulo, no BRF Day, o presidente do conselho de administração da companhia, Abilio Diniz, disse não querer saber de explicações [das pessoas da empresa]

sobre o resultado do terceiro trimestre. "Queremos resultado, e o resultado não veio", afirmou.

Ele também voltou a criticar, em tom duro, a antiga gestão da BRF. Segundo Abilio, a BRF estava "torta" e a nova gestão está "desentortando" a companhia. Ele disse que a empresa era empurrada da produção para o consumidor, uma lógica que a nova administração busca inverter. "A BRF nunca foi lá no consumidor e no cliente perguntar o que eles queriam", disparou. "Essa companhia tem de ser puxada pelo consumidor", acrescentou. Além disso, afirmou, a BRF não conseguiu capturar as sinergias da união entre Perdigão e Sadia.

Para Abilio, após os números fracos do trimestre – segundo ele, já esperados – o momento é de avaliar o que aconteceu para corrigir os erros cometidos. No terceiro trimestre, a empresa teve um lucro líquido de R$ 287 milhões. Entre instituições financeiras, a expectativa era que a empresa tivesse um lucro entre R$ 299 milhões e R$ 401 milhões.

O presidente do conselho afirmou que o terceiro trimestre foi afetado por eventos não recorrentes, "coisas naturais numa companhia em reestruturação". Mas reiterou não haver preocupação com o curto prazo e disse que os investidores podem cobrar resultados da companhia em 2014.

Num dos temas que lhe é mais caro – a internacionalização da BRF -, Abilio também foi crítico em relação à gestão Nildemar Secches/José Antônio Fay. Segundo ele, a BRF "nunca foi uma companhia global", apesar de se apresentar como tal. "Essa companhia, que se diz global, nunca foi uma companhia global. Ela sempre foi exportadora", afirmou. Atualmente, as vendas para o mercado externo representam 43% da receita líquida da BRF. Ser global, disse, "significa ser uma companhia capaz de atuar em vários mercados, e não apenas exportar".

Em evento com investidores, à tarde, no Rio, o vice-presidente de finanças da BRF, Leopoldo Saboya, indicou discordar da avaliação. "A empresa já é global, mas ainda não avançou na cadeia completa [de produção no exterior]", disse.

Desde que assumiu a presidência do conselho de administração da BRF, Abilio definiu a internacionalização como uma prioridade. A empresa pretende ampliar suas unidades produtivas ao redor do globo, inclusive com aquisições. A BRF tem fábricas no Brasil, Argentina, Holanda e Inglaterra e constrói unidade em Abu Dhabi.

O CEO global da BRF, Cláudio Galeazzi, disse, também no encontro em São Paulo, que a internacionalização pode acontecer por meio de aquisição de empresas que tenham produção local e marca regional. "Gostaríamos de entrar com [as marcas] Sadia e Perdigão, mas o custo de entrada é muito alto", afirmou.

Ainda que em tom menos duro que o de Abilio, o CEO global da BRF também criticou a antiga administração da companhia. Conforme Galeazzi, dentro do processo de reestruturação da BRF, as áreas de vendas da empresa estão sendo consolidadas e há uma maior atenção ao "branding", pois isso permite a precificação devida, que não vinha sendo feita. Ele também disse que praticamente não houve investimentos em merchandising em mercados importantes para a BRF, como o Oriente Médio, em períodos recentes. "Estamos surfando no que foi feito no passado", afirmou.

Aos investidores, Galeazzi afirmou ainda que a mudança da companhia de uma empresa industrial para uma comercial implica tomadas de posições que "requerem coragem". Citou como exemplo, a decisão de reduzir em cerca de 200 mil toneladas os volumes para exportação em 2014, com o objetivo de evitar queda de preços e formação de estoques.

Sobre o resultado no terceiro trimestre, o CEO global disse que a "falta de planejamento" da empresa contribuiu para a queda dos preços internacionais dos produtos exportados, sobretudo carne de frango. Segundo ele, a BRF e suas concorrentes ajudaram a criar "uma oferta acima da demanda". A BRF culpou os altos estoques de frango no Oriente Médio pelos resultados aquém do esperado nas exportações – os volumes caíram 3%. Galeazzi defendeu, porém, que não há motivos para "auto-flagelo". "Apesar de nossas ineficiências, ainda estamos fazendo break-even [equilíbrio], em que pese abaixo da expectativa", acrescentou.

A readeaquação da companhia "está longe de ser concluída", avisou o CEO global da BRF, depois de afirmar que a administração está identificando investimentos que devem ser reduzidos. "Isso não significa que não vamos investir, mas que vamos redirecionar para coisas mais imediatas", disse sobre o Capex de R$ 1,5 bilhão.

Um segmento que é alvo de atenção da nova gestão da BRF é o de lácteos. Segundo Galeazzi, após "uma análise profunda", a direção está "menos crítica" em relação à area e uma avaliação de produtos está sendo feita. Ele não descartou parcerias "relevantes" no segmento com companhias estrangeiras de lácteos. "Investidores fora do país estão de olho no nosso mercado". O executivo garantiu, no entanto, não haver negociações em curso.

Apesar do discurso incisivo de Abilio e Galeazzi, persistiu o mau humor entre os investidores, que parecem não ter sido convencidos pelas explicações para o resultado. Desde a divulgação do balanço, na segunda-feira, as ações da BRF caíram 6,95% na BM&FBovespa. (Colaborou Guilherme Serodio, do Rio)

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Fonte: Valor |  Por Luiz Henrique Mendes e Alda do Amaral Rocha | De São Paulo

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