Abengoa Bioenergia entra com pedido de recuperação judicial

A Abengoa Bioenergia Brasil, braço da espanhola Abengoa que possui duas usinas sucroalcooleiras em operação no Estado de São Paulo, entrou com pedido de recuperação judicial após dois anos arrastando dívidas de quase R$ 1 bilhão. Se o pedido for aceito pela Justiça, o número de unidades industriais do segmento no país protegidas judicialmente dos credores subirá para 54.

O pedido foi apresentado no Fórum de Santa Cruz das Palmeiras (SP), onde está a sede da companhia, e foi precipitado após o Santander, um dos principais credores da companhia, com R$ 70 milhões a receber, apresentar em junho um pedido de falência da empresa.

A dívida da companhia supera o faturamento. No exercício 2015, encerrado em 31 de dezembro (último dado disponível), a companhia registrou receita líquida de R$ 673 milhões, enquanto o endividamento líquido estava em R$ 949 milhões.

Da dívida inscrita no pedido, R$ 800 milhões são devidos àqueles que não têm garantia real (quirografários). Estão nessa categoria diversos bancos, que em parte possuem alienação fiduciária. Entre esses créditos concursais também estão R$ 10 milhões devidos a pequenas e microempresas, além de R$ 3 milhões em créditos trabalhistas. A dívida que não se submete às regras da recuperação (extraconcursal) chega a R$ 200 milhões, montante que também inclui valores devidos a algumas instituições financeiras.

A empresa, que é representada pelo escritório TWK Advogados, vinha tentando renegociar sua dívida com base em um plano de venda de ativos. O paquistanês Fatima Group chegou a fazer due dilligence nas duas unidades paulistas no início do ano para avaliar a aquisição de ao menos uma delas.

O negócio não andou porque os processos esbarraram nos problemas da empresa na Justiça e em dificuldades macroeconômicas. Segundo fontes do segmento, a existência de um inquérito a respeito da contratação de duas empresas pela Abengoa Bioenergia sem o recolhimento de impostos e da transferência de recursos da companhia para a matriz na Espanha, também sem pagamento de impostos, foi um fator decisivo.

A empresa, porém, atribuiu o desinteresse dos investidores à atual crise política e econômica do Brasil, à queda dos preços do açúcar e à falta de crédito para o segmento. As cotações do açúcar começaram a registrar queda no início do ano, pressionadas por uma safra internacional de superávit de oferta.

Em nota, a Abengoa Bioenergia informou que a recuperação judicial tem por objetivo "proteger os interesses de todos os nossos credores (…) de forma a permitir a continuidade do negócio, garantindo os postos de trabalho e evitando a desvalorização dos ativos".

"A recuperação judicial permitirá estabelecer um plano de restruturação para pagamentos das dívidas de acordo com as possibilidades do negócio e facilitará a dará segurança na entrada de investidores", acrescentou a companhia.

A unidade de negócios no mercado de bioenergia da Abengoa no Brasil foi a última do conglomerado espanhol a adotar medida judicial contra seus credores. Nos Estados Unidos, o negócio de produção de etanol recorreu à legislação de falências e a empresa conseguiu vender cinco usinas de etanol à base de milho para diversas empresas do ramo, por US$ 357 milhões. O negócio de energia elétrica da Abengoa, por sua vez, já está em recuperação judicial há mais tempo no Brasil e na própria Espanha.

A Abengoa iniciou suas atividades no segmento sucroalcooleiro do Brasil em 2007. No fim da década passada, a empresa chegou a planejar a construção de uma usina de etanol de segunda geração – feito a partir de biomassa de cana -, mas suas dificuldades financeiras travaram o investimento.

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo

Fonte : Valor

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