A reinvenção do arroz

Fonte:  Globo Rural

Diante da queda do consumo, setor busca diversificar o uso do cereal com a produção de ração e de biocombustível

por Luciana Franco | Fotos Ernesto de Souza

Revista Globo Rural

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o consumo anual de arroz no Brasil despencou 40% na década passada, saindo de 24,5 quilos por habitante ao ano, em 2002, para 14,6 quilos por habitante ao ano em 2009. A queda se explica pelo aumento do poder aquisitivo de milhares de brasileiros, que migraram das classes D e E para a classe C. Com a melhoria da renda, muita gente deixa o trivial arroz de lado para consumir outras fontes de carboidratos. Talvez o recuo no consumo do grão – o terceiro mais ingerido no mundo, atrás do milho e do trigo – explique a crise pela qual passa a rizicultura brasileira, que nos últimos meses assistiu as cotações do arroz caírem a patamares inferiores aos preços mínimos estipulados pelo governo federal, em função do excesso de oferta verificado no mercado interno.
Em meados de julho, os preços do arroz chegaram a ser negociados a R$ 17 por saca de 50 quilos, enquanto o preço mínimo fixado se situa em R$ 25,80 a saca. Com a crise instalada no setor, o governo anunciou medidas de apoio à comercialização do cereal e pretende, por meio da realização de leilões, retirar 1 milhão de toneladas do grão do mercado para que o preço aumente. Além disso, o Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou em julho a prorrogação de operações de custeio, investimento e Empréstimo do Governo Federal (EGF) para os rizicultores com dificuldades de comercializar a safra 2010/2011.

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O secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), João Carlos Vaz, destacou que a prorrogação das dívidas reforça as medidas de apoio à comercialização. “Com o pacote de comercialização e a recomposição de dívidas, os preços tendem a se recuperar mais rapidamente e refletir positivamente também para todos os produtores. A prioridade, agora, é discutir medidas estruturais do setor para as próximas safras”, avalia Renato Rocha, da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz).

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A intervenção do governo no setor surtiu efeito e, em poucas semanas, os preços do grão alcançaram R$ 25 a saca, mas os problemas da cadeia devem levar mais de uma safra para ser resolvidos, já que, apesar da alta, as cotações não cobrem os custos de produção, de R$ 31 por saca, segundo cálculos da Federarroz. “Nas últimas duas décadas, o setor operou 14 anos no vermelho, o que gerou um alto índice de endividamento na atividade”, diz Rocha.
E foi o quadro de endividamento nas alturas, o consumo em queda, o aumento da produtividade das lavouras brasileiras e o crescimento das importações que geraram um volume elevado de estoques de passagem neste ano. “Encerraremos a safra com 2,54 milhões de toneladas de arroz em estoque, o mais alto nível em cinco anos”, diz Rocha. O excedente é resultado, entre outros fatores, do aumento produtivo de duas toneladas por hectare nos últimos sete anos, que, associado à redução do consumo e ao aumento das importações, provocou a atual desvalorização do produto.

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Safra 2011: escoamento da produção ocorre com apoio do governo federal

A safra deste ano deve somar 13,9 milhões de toneladas, para um consumo de 12,8 milhões. Para tentar amenizar os impactos futuros na cadeia, a Federarroz estabeleceu uma nova estratégia de valorização do cereal: propôr usos alternativos para o arroz. Dois segmentos foram definidos como prioritários: ração animal e produção de etanol. Segundo Rocha, muitos pecuaristas gaúchos já estão substituindo o milho pelo arroz na suplementação alimentar de bovinos, em razão de ser um produto abundante e mais barato. “Um saco de milho vale praticamente 20% a mais que um de arroz”, calcula.
Segundo ele, essa alternativa pode ser ainda mais viável se os centros de pesquisas gerarem variedades deprodutividade mais alta (entre 12 mil e 15 mil quilos por hectare), com características específicas para ração animal. “Hoje, as variedades têm alto rendimento de grãos brancos, vítreos, não gessados, inteiros, que cozinham rapidamente e ficam soltinhos na panela. Para ração animal, o grão pode estar quebrado, glutinoso. O importante é que tenha alta produtividade e seja facilmente transformado em carne bovina ou suína”, explica.
O mesmo se aplicaria às variedades com alto teor de óleo, destinadas à produção de biodiesel, por exemplo. A Federarroz, em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, estuda a implantação de seis biorrefinarias no estado, que, juntas, consumirão 1 milhão de toneladas de arroz e terão capacidade para produzir 40 milhões de litros de etanol ao ano. “Os usos alternativos do cereal ajudarão a movimentar as indústrias e vão gerar impostos no estado, além, é óbvio, de beneficiar os produtores de arroz no longo prazo”, avalia Rocha.

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