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A praga que custa R$ 35 bi ao agronegócio brasileiro

 

Os avanços da ciência e da tecnologia dedicados ao agronegócio nas últimas décadas permitiram que o setor chegasse a patamares inéditos, batendo recordes de produtividade ano a ano. A atividade é a mais representativa da economia brasileira, sendo responsável por aproximadamente 25% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, ou ¼ da soma de toda renda gerada no País, passando de R$ 1 trilhão – de acordo com dados do Cepea/USP. Isso se deve demasiadamente ao forte investimento da indústria em pesquisa e desenvolvimento de novos produtos e ferramentas, que tem sido crucial para ajudar os agricultores a enfrentar os problemas existentes no campo, como adversidades climáticas e, principalmente, a presença de pragas e doenças que atacam as culturas brasileiras.

Apesar dos progressos, a propagação da lagarta Helicoverpa armigera em escala nacional desde a safra 2012/13 e o alto índice de ferrugem asiática da soja, por exemplo, representam perdas anuais para o agronegócio equivalentes a R$ 8 bilhões e R$ 4,7 bilhões, respectivamente, segundo pesquisas recentes da Embrapa e da Aprosoja. É indiscutível que esses números simbolizam um prejuízo enorme para o setor e que os órgãos públicos e privados devem concentrar todas as medidas necessárias para minimizar esse impacto, mas os mesmos levantamentos das duas entidades também apontam danos ainda mais alarmantes de R$ 35 bilhões por ano, provocados por um parasita ainda desconhecido por muitos produtores e que não tem recebido a importância devida: o nematoide.

Ao contrário da fácil percepção que se pode ter com a presença de outras pragas nas lavouras, os nematoides são invisíveis a olho nu e vivem no solo se alimentando dos nutrientes nas raízes das plantas, o que leva ao crescimento deficiente da planta e até o descarte ou perda da produção, como acontece com 30% a 40% do cultivo de cenoura, goiaba e pimenta-do-reino, por exemplo. Para se ter uma ideia melhor do estrago que são capazes de causar na agricultura nacional, as perdas de produção somente de soja são estimadas em R$ 16,2 bilhões, de acordo com dados atuais da Sociedade Brasileira de Nematologia (SBN).

Os nematoides no Brasil estão disseminados em extensa área geográfica e uma das causas para essa ampla distribuição está no trânsito de máquinas e implementos agrícolas, como caminhões de soja, plantadeiras e colheitadeiras. Ao se mobilizarem de uma propriedade para outra, os equipamentos dão “carona” para esses patógenos que se hospedam em novas áreas rurais ou se acumulam nas beiras de estrada. Como reflexo desse cenário, 98% dos solos do Mato Grosso apresentam evidências de nematoides em praticamente todas as culturas do estado, e o problema chegou a tal ponto que agricultores da região e do Tocantins tiveram que abandonar terras que se tornaram improdutivas com a infestação.

Para controlar ou amenizar esses ataques, temos como solução o desenvolvimento de variedades resistentes que auxiliam na redução populacional de alguns tipos específicos de nematoides, pois hoje há um esforço para mapeá-los, mas a eliminação é praticamente impossível. Outra saída é incentivar os produtores a praticar o Manejo Integrado de Pragas (MIP), estratégia de controle ecológico que passa por tratamento clínico, rotação de culturas com plantas não hospedeiras e redutoras populacionais da praga e cultivo de variedades diversas de soja.

Mas esse quadro só será revertido se houver uma discussão agronômica que nunca existiu no Brasil sobre o assunto, apesar de contarmos com os melhores nematologistas do mundo. Diante de todos esses fatores, as lideranças políticas, regulatórias e ambientais do setor precisam urgentemente priorizar o tema e agilizar a entrada de novos produtos no mercado, uma vez que as opções disponíveis atualmente para fazer esse trabalho são ineficazes e apresentam alto grau de toxicidade para os agricultores e para o meio ambiente. É nosso papel evitar que uma praga tão pequena continue causando um rombo gigantesco na agricultura brasileira.

Andressa C. Z. Machado

Fonte :  O Progresso

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