A Porto Alegre agrícola: área rural movimenta a economia do Extremo-Sul da Capital

Há mais de 15 anos, Idemar da Rocha Nunes vende nas feiras ecológicas tudo o que produz na zona rural de Porto Alegre

Há mais de 15 anos, Idemar da Rocha Nunes vende nas feiras ecológicas tudo o que produz na zona rural de Porto Alegre

LUIZA PRADO/JC

Karen Viscardi*
Há mais de 15 anos, todos os sábados, pouco depois das 6h, a banca Essência da Terra é montada no bairro Tristeza, uma das oito feiras ecológicas oficiais de Porto Alegre. Há oferta de batata, aipim in natura e descascado, tomate, temperos, couve, alface e outras folhosas, dependendo da época. Os alimentos são colhidos um dia antes no Sítio Nossa Senhora Aparecida, no bairro Extrema, na Zona Sul.
A rotina do agricultor do Idemar da Rocha Nunes de cuidar da terra, plantar e levar o alimento ao consumidor urbano se repete em outras cerca de 450 unidades de produção da Capital, segundo estimativa da prefeitura e da Emater. E permite um intervalo curto de tempo entre a coleta e a chegada na mesa da população, resultando em um produto mais fresco e nutritivo, com menor custo e impacto logístico, por exemplo.
No município, há desde criação animal – como aves, ovinos e bovinos – até horticultura, fruticultura, floricultura, florestas e lavouras. “A atividade rural promove o desenvolvimento local do Extremo-Sul e das regiões onde se localiza”, afirma Oscar Pellicioli, coordenador de Fomento de Atividades da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico (SMDE).
Considerando apenas as frutas, Porto Alegre produz, anualmente, mais de 800 toneladas. Do total, um terço é vendido diretamente ao consumidor, detalha Pellicioli. O restante é comercializado na Centrais de Abastecimento do Rio Grande do Sul (Ceasa-RS) e em pequenos mercados. Uma pequena parte é destinada às agroindústrias familiares.
Apesar de importante para os bairros localizados ao Sul do município, a produção agrícola da Capital tem baixa representatividade no total comercializado pela Ceasa-RS, por onde passam 40% dos hortigranjeiros in natura distribuídos no Estado. Porto Alegre foi responsável por 1.113,39 toneladas, ocupando a 42ª posição entre os municípios fornecedores. Em faturamento, ocupou o 31º lugar, com R$ 3.377.148,10, em razão do maior valor dos itens vendidos, como frutas. Os dados são de levantamento mais recente, realizado em 2018.
Claiton Colvelo, gerente técnico da Ceasa-RS, destaca a variedade de cultivos na Capital, a despeito do baixo volume. Entre os principais itens que saem da zona rural local estão pêssego e uva, onde a cidade colhe com mais antecedência do que no restante do Estado, além de ameixa, nectarina, melões e folhosas em geral.
Além de fornecedora de alimentos, a Região Metropolitana é o principal centro consumidor do Rio Grande do Sul, o que reforça a importância da atividade, observa o coordenador técnico no Rio Grande do Sul do Censo Agropecuário 2017, Cláudio Franco Sant’Anna: “É essencial ter a produção de hortifrutigranjeiros perto do consumidor, pois reduz custo de produção e preço de frete, além da questão social, por manter as pessoas no campo”.

Segurança alimentar e preservação ambiental

Ter dentro do município uma população que saiba plantar, que é a cultura do rural, é importante estratégia para garantir comida na mesa. “Em uma crise de abastecimento, esse alimento pode chegar à população, garantindo soberania e segurança alimentar”, ressalta Luís Paulo Vieira Ramos, extensionista do escritório municipal da Emater.

Ambientalmente, a área agrícola tem impacto menor do que espaços urbanizados, ajudando a conservar a biodiversidade, afirma Ramos, pelas exigências do Código Florestal e por manter encostas de morros e margens de arroios: “A zona rural tem matas que formam cordões, onde a fauna pode circular. Preserva, ainda, plantas nativas de dois biomas, pois a cidade está localizada na transição entre os biomas Pampa e a Mata Atlântica”.

Outro papel do verde é resfriar o ambiente e reduzir bolsões de ar quente, prevenindo enxurradas, explica Ramos. Além de as plantas fixarem carbono e produzirem oxigênio, é pela Região Sul da Capital que chega o ar oxigenado da Lagoa dos Patos e do mar. Pouco povoada, melhora a qualidade do ar até de bairros centrais. A zona rural ainda é responsável pela preservação de nascentes e mananciais hídricos, lembra Oscar Pellicioli, da SMDE, destacando.

Metodologia divergente para área rural

Emater e prefeitura estimam em 450 unidades de produção em Porto Alegre. Metodologia diferente da adotada no Censo 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mapeou 384 estabelecimentos agropecuários no município. Isso em razão de metodologia diferente: enquanto o IBGE considera duas matrículas de mesma família uma unidade, a Emater e a prefeitura de Porto Alegre avaliam como áreas diferentes.

São quase 210 unidades rurais dedicadas à criação animal

Caprinos e ovinos têm ganhado espaço entre os produtores rurais

Caprinos e ovinos têm ganhado espaço entre os produtores rurais

/JOEL VARGAS/DIVULGAÇÃO/PMPA/JC

O maior número de unidades rurais existentes na Zona Sul de Porto Alegre é dedicado à criação animal. De 165 estabelecimentos em 2006, passou para 209 em 2017, conforme o Censo Agropecuário do IBGE. Há produção de aves (frango ovos e codornas), ovinos, caprinos, equinos, bubalinos, asininos, coelhos, abelhas e piscicultura.

Um dos setores que vêm recebendo investimentos é a criação de ovinos, que reúne em torno de 40 produtores na Capital, com foco em genética e desenvolvimento de animais. Cleber Vieira, da Cabanha CV, ex-presidente da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos Naturalmente Coloridos, é um entusiasta da espécie.

Há 50 anos na atividade, nos últimos anos, Vieira qualificou o plantel e mudou o perfil de produção. Antes, criava ovinos para vender; hoje, cria para competir. Mantém 100 animais, entre matrizes, cordeiros e carneiros em duas propriedades, uma de seis hectares e outra de 80 hectares, localizada no Morro São Pedro.

“Criou-se um mercado de ovinos, que está em situação muito cômoda. A lã tem preço razoável, assim como a carne. Quem tem cordeiro está com dinheiro no bolso”, propagandeia Vieira, que cria ovelhas pretas.

Sobre a zona rural de Porto Alegre, Vieira também destaca a criação de cavalos crioulos e quarto de milha, e o impacto que gera em outros negócios relacionados. “Hoje, um cavalo de competição no laço vale tanto quanto um automóvel zero quilômetro. Tem ainda fábricas de ração, serviços veterinários, venda de suplemento e pastagem, para citar outros fatores.”

Mais unidades produtivas em área menor

Luiz Carlos Rossato dedica-se ao cultivo da ameixa e planta aipim para consumo próprio

Luiz Carlos Rossato dedica-se ao cultivo da ameixa e planta aipim para consumo próprio

LUIZA PRADO/JC

Enquanto alguns produtores investem em novos cultivos e buscam alternativas para permanecerem na área rural, muitos estão abandonando a atividade. O espaço ocupado pela produção agropecuária vem caindo em Porto Alegre. Hoje, são 7,34 mil hectares, conforme o Censo Agropecuário 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), redução de 20,48% sobre o Censo 2006. Ao mesmo tempo, pela pesquisa do IBGE cresceu o número de estabelecimentos agropecuários, passando de 341, em 2006, para 384 em 2017, indicando redução no tamanho das unidades.

Para o coordenador técnico no Rio Grande do Sul do Censo Agropecuário, Cláudio Franco Sant’Anna, houve uma expansão imobiliária para a Zona Sul. “Há um uso diferente do solo, uma migração da produção agrícola para construção civil. A atividade rural também conta com menos mão de obra contratada e da própria família, com a saída dos jovens. Assim, avança a idade média do produtor, que ainda tem de lidar com a questão da insegurança”, detalha.

“Muitos desistem da agricultura em razão das dificuldades, é uma atividade mais insalubre, sujeita à umidade, à insolação, com trabalho penoso. Por isso, está centrada nos membros da família, mesmo que muitos jovens busquem outras atividades, dificultando a sucessão”, observa Luís Paulo Vieira Ramos, da Emater.

Os irmãos Luiz Carlos Rossato, 70 anos, e Rui Rossato, 69 anos, já não têm a mesma disposição para passar o dia abaixo de sol, tratando os pomares, mesmo com ajuda de trator, e diminuíram a área de cultivo nos últimos anos, vendendo uma chácara de 15 hectares onde plantavam pêssego. Ambos aposentados, cultivam ameixa pela menor exigência de cuidados, além de criarem gado bovino e plantarem aipim e feijão para consumo próprio no sítio de nove hectares da família, no bairro Extrema.

Mesmo assim, não descuidam da produção. No inverno passado, foram plantadas 200 mudas de ameixa para reposição, que, hoje, ultrapassa 3 mil árvores, distribuídas em seis hectares. “Produzíamos muito mais. Tínhamos pomar de pêssego, mas, agora, temos apenas algumas mudas. Aqui, havia melão, pimentão, repolho etc.”, conta Luiz.

A aposta é na continuidade por meio do filho de Luiz, Carlos Eduardo, de 37 anos. Há pouco mais de um ano, começou a plantar maracujá, e, no ano passado, implantou as primeiras mudas de pitaia, acerola e banana, e sementes de milho.

Mas o tempo para o cuidado dos pomares é pouco. Carlos se divide entre o trabalho na cidade, onde atua em uma empresa de engenharia, e o apoio nas atividades do campo. Hoje, a fonte de renda da propriedade é a produção de ameixas, na qual Luiz cuida do pomar e Rui, da venda.

Se depender dos projetos de Carlos, a propriedade não apenas seguirá como vai mudar de perfil. Excetuando-se a ameixa, os demais cultivos não utilizam agrotóxicos. A ideia é fazer a conversão agroecológica aos poucos. Para isso, o sítio conta com a assessoria técnica do escritório municipal da Emater.

Tendência de encolhimento da produção agrícola

Antigamente chamada de cinturão verde, a região ao Sul da Capital tem, agora, menos propriedades com áreas menores. Isso porque a delimitação e a proteção da zona rural de Porto Alegre foi extinta por lei em 2000, e só voltou a ser reconhecida em 2015, já em território reduzido, hoje de 4,318 mil hectares. Como a área e o número de agricultores estão em queda, a tendência é a produção rural diminuir. Mas isso não significa perder sua importância. “Quem tem papel definitivo na manutenção e na preservação da função da zona rural são os cidadãos, que entendam o valor de ter uma paisagem rural, uma biodiversidade conservada, de ter ar puro e água. É uma troca. Se a população quiser que se mantenha, não haverá especulação imobiliária ou gestor que mude isso”, afirma Ramos, extensionista da Emater.

Vivência desde o plantio até o consumo dos alimentos

Gabriel Malinski já coloca em prática os conhecimentos da faculdade de gestão ambiental

Gabriel Malinski já coloca em prática os conhecimentos da faculdade de gestão ambiental

/LUIZA PRADO/JC

A bordo do ônibus da linha Turismo de Porto Alegre pela Zona Sul ou visitando um dos empreendimentos do roteiro Caminhos Rurais, é possível conhecer parte da produção agrícola da cidade e aprender sobre agroecologia e criação animal. Há, ainda, eventos em época de colheita e de Páscoa, como as festas da Uva e da Ameixa e a mais antiga do município, a Feira do Peixe.
Essa aproximação entre o urbano e o rural é fomentada pelo escritório municipal da Emater, que assessora empreendedores a estruturarem a produção e a desenvolverem produtos turísticos. Luís Paulo Vieira Ramos, extensionista da Emater, reforça que “o turismo rural é uma atividade a mais na propriedade, caso contrário, torna-se um turismo de contemplação”, sem valorizar a cultura do rural. Entre os assessorados está Gabriel Malinski, 21 anos, da Chácara Malinski, no bairro Lageado.
Em uma área da propriedade, ele começa a colocar em prática o que aprendeu na faculdade sobre gestão ambiental. Reformou galpão e organizou espaços para receber grupos de alunos e famílias para turismo rural, pedagógico e vivência. As atividades incluem trilha, plantio de árvores e palestra.
A ideia de disseminar informações sobre o ciclo produtivo dos alimentos começou com a mãe, Alessandra, falecida há seis anos. Na época, a decisão foi manter a propriedade aberta a visitas. Hoje, o jovem conduz os grupos junto com o pai, Ezequiel, compartilhando conhecimentos sobre os cultivos e a importância da agroecologia.
Gabriel também instalou uma horta ecológica, onde não aplica agrotóxicos, ao lado da produção convencional mantida pelo pai. Mas, por não ser certificada, os alimentos não podem ser classificados como orgânicos.
Na parte da chácara cultivada por Ezequiel, que divide, ainda, os cerca de oito hectares da propriedade com outros membros da família, os principais produtos são alface, rúcula, salsa, cebolinha e couve-verde. Planta, também, rabanete, beterraba, tomate, cenoura, mostarda e chicória. Os alimentos são vendidos na própria propriedade e enviados para lancherias, restaurantes, supermercados e revendedores.
Apesar da pouca idade, Gabriel já traçou planos futuros, que incluem a instalação de um túnel verde e a adoção de colha e pague, horta vertical e jardim sensorial. O planejamento, em 10 anos, é tornar rotineiras as visitas à chácara, com uma boa estrutura, incluindo o pomar consolidado, para oferecer aulas teóricas e vivências sobre plantio, colheita, higienização e consumo dos alimentos.
“Aos poucos, meu pai vai confiando mais, porque estou conseguindo valorizar a terra, vendo que estou empenhado. Hoje, é um pequeno espaço, mas tenho noção que, seguindo a lei da vida, as terras que são do meu pai serão cuidadas por mim, já que minha irmã trabalha em outra área”, finaliza Gabriel.
*Karen Viscardi é formada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica (Pucrs). Atuou como editora no Jornal Zero Hora entre 2015 e 2020 e editora e repórter no Jornal do Comércio, de 2000 a 2013. Entre as premiações, destaque para Troféu Mulher Imprensa, onde ficou em primeiro lugar na categoria repórter de jornal em 2008.

Fonte: Jornal do Comércio