A estratégia do BC para melhorar expectativas

Fonte: Valor | Cristiano Romero

O governo acredita que a inflação mensal deste e dos próximos três meses ficará bem abaixo dos resultados recentes. A queda sazonal dos preços dos alimentos e o recuo dos combustíveis devem melhorar a percepção da população quanto à carestia. Apesar disso, uma autoridade do governo assegurou ao titular desta coluna que, embora representem uma "boa notícia", os números já estão na conta e não desviarão o Banco Central (BC) da tarefa de ancorar a inflação de 2012 em 4,5%.

Isso significa que a esperada moderação dos preços nos próximos meses não impedirá o Comitê de Política Monetária (Copom) de promover novas elevações na taxa básica de juros (Selic), hoje em 12% ao ano. O objetivo do Comitê é convencer os agentes econômicos de que fará o que for necessário para trazer o IPCA, dos atuais 6,5% em 12 meses, para a meta oficial.

"As pessoas, principalmente quando a inflação estiver no pico, provavelmente em agosto, têm que ter o incentivo de olhar para a frente e não para trás. Para isso, você precisa colocar claramente o futuro numa rota consistente com a inflação ancorada em 4,5%", explicou uma fonte. "Não há por que declarar vitória agora."

Queda do IPCA não mudará política monetária

A disposição do BC em manter a austeridade monetária é importante porque, no mercado, desconfia-se que, após a colheita de bons resultados em maio e nos meses subsequentes, o Copom cairá na tentação de encerrar o ciclo de alta da Selic, colocando em risco o controle da inflação no próximo ano. Segundo autoridades ouvidas por este colunista, isso não ocorrerá porque o BC já comunicou internamente ao governo que a queda do IPCA, embora decorra também da ação do Copom, é sazonal (temporária).

Em maio, a inflação, segundo expectativas do mercado colhidas pelo governo, deve ficar em torno de 0,45%, um resultado considerado ainda "carregado", mas inferior ao dos últimos meses. Em junho, julho e agosto, deve cair abaixo de 0,3%. Há analistas prevendo, inclusive, deflação. Nesse período, o IPCA estará em linha com a meta de 4,5%, mas, ainda assim, não terá impacto na atuação do BC, segundo sustentou um auxiliar da presidente Dilma Rousseff.

"[A queda do IPCA] dá um alívio do ponto de vista da percepção. Mesmo a inflação alta pontual, quando ocorre em alimentos e combustíveis, tem um efeito sobre a percepção da população. Ainda que os núcleos [de inflação], principalmente em economias mais desenvolvidas, retirem esses dois componentes que são mais voláteis, a percepção aqui no Brasil é muito forte", explicou um técnico.

A ancoragem das expectativas depende justamente da nova postura do BC. De janeiro a março, o banco deu indicações de que não via o cenário inflacionário com o mesmo pessimismo da média dos observadores do mercado. Isso se traduziu em pouca disposição para aumentar juros e desaquecer a economia. Entretanto, na última reunião do Copom o diagnóstico mudou e o foco da política monetária voltou a ser a taxa de juros. Desde então, as expectativas melhoraram, embora de forma ainda tímida.

Em setembro, a inflação acumulada em 12 meses pode chegar a 7%, 7,5%, algo muito acima, portanto, da meta oficial. O resultado coincidirá com o período de negociações salariais relevantes. O desafio do BC é fazer com que patrões e empregados percebam que o governo está disposto a apertar as condições monetárias para reduzir a inflação nos próximos meses. O Copom quer melhorar as expectativas.

O obstáculo a ser superado nessa estratégia está no mercado de trabalho, que continua superaquecido, apesar do aparecimento de alguns sinais de desaceleração da economia. Com esse mercado pressionado, fica difícil conter as demandas por reajustes salariais. O governo acredita, no entanto, que até lá a taxa de desemprego estará mais alta do que agora.

Em março, o índice de desemprego chegou a 6,5%, depois de ter caído a 5,3% em dezembro. O governo compara o momento atual com a situação vivida em 2008, quando a economia também estava aquecida e com aceleração inflacionária. A diferença é que, naquela época, a taxa de desemprego estava girando em torno de 8%, embora a economia estivesse um pouco mais acelerada do que em 2011.

"De fato, o mercado de trabalho é o último a sentir [o efeito da política monetária], mas em agosto ele pode estar um pouco mais folgado do que está hoje. É o que se espera do que já foi feito", disse uma autoridade. "A nossa parte é mostrar consistência no processo de trazer a inflação para 4,5%. As expectativas cumprem um papel importante."

O BC também já teria deixado claro, nas reuniões internas do governo, que, por causa da política anti-inflacionária, o Produto Interno Bruto (PIB) deverá crescer abaixo ou em torno de 4% tanto em 2011 quanto em 2012, um desempenho inferior à exuberância de anos recentes (6,09% em 2007, 5,16% em 2008 e 7,5% em 2010), mas em linha com o potencial do país neste momento. A preocupação é evidenciar que, agora, a política econômica do governo não tem três objetivos, como se chegou a imaginar nos primeiros meses do atual governo – combater a inflação, manter o crescimento acelerado e evitar a apreciação da taxa de câmbio.

"O objetivo primordial no momento é o combate à inflação", assegurou uma autoridade. Essa mesma fonte disse que a política monetária é "acumulativa". Segundo ela, não houve inconsistência quando o Copom, em abril, diminuiu o ritmo de aumento da taxa Selic de 50 para 25 pontos básicos. De janeiro a março, observou, o Comitê elevou a Selic em 100 pontos básicos (um ponto percentual). Em abril, aumentou para 125 pontos, depois de ter subido 200 pontos no ano passado.

No pós-crise, portanto, o BC já moveu a taxa de juros em 3,25 pontos percentuais. Para uma boa parcela dos economistas, terá que subir um pouco mais para conter a corrida inflacionária. "O futuro muda a cada seis semanas", disse uma fonte oficial, referindo-se ao período que separa as reuniões do Copom.