A desinflação em 2017

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Finalmente a inflação cedeu na economia brasileira.

Depois de dois anos consecutivos de forte contração da atividade econômica, com desemprego em níveis bem elevados e ociosidade em diversos setores da economia – como indústria, serviços e construção -, observa-se, no acumulado em 12 meses até agosto de 2017, um IPCA atingindo o patamar de 2,46%. É uma notícia extremamente positiva.

O movimento de desinflação é tão contundente que há, inclusive, boas chances de o IPCA fechar o ano de 2017 abaixo do piso estabelecido no regime de metas de inflação, que é de 3%. Seria a primeira vez em quase duas décadas desse arcabouço institucional de política monetária que o presidente do Banco Central escreveria uma carta aberta explicando os motivos de a inflação ficar abaixo de seu limite inferior. Tal fato seria impensável há alguns anos.

A queda não antecipada da inflação é, de maneira inequívoca, um choque positivo para economia brasileira, pois fez com que o poder de compra dos salários fosse maior do que o esperado no momento das negociações salariais. Essa trajetória benigna da inflação, aliada ao fator pontual da liberação das contas inativas do FGTS – cujo montante total atingiu cerca de R$ 44 bilhões – impulsionou a recuperação do consumo das famílias no segundo trimestre de 2017 e foi fundamental para sustentar o PIB, mesmo que modestamente, no terreno positivo. Contudo, esse comportamento recente da inflação não veio livre de polêmicas.

Um debate que vem sendo travado entre os economistas é se o BC está ou não "atrás da curva". Em outras palavras, a questão que se coloca é se a autoridade monetária não poderia ter cortado a taxa básica de juros (Selic) de maneira mais rápida do que o efetivamente implementado.

Alguns defendem que sim, particularmente em função do forte hiato negativo do produto (PIB efetivo bem abaixo do PIB potencial) e dos mais de 13 milhões de desempregados. Outros defendem que não, pois a recessão vivenciada pelo país já havia sido contratada no passado, fruto de erros anteriores de política econômica. Caberia, portanto, ao BC, para amenizá-la, simplesmente reconstruir sua reputação, sobretudo combatendo o forte componente inercial da inflação, que se tornou elevado ao longo dos últimos anos à medida que o IPCA se afastava do centro da meta inflacionária.

Visando contribuir com esse debate, é importante mencionar que o processo de desinflação em curso no Brasil ao longo de 2017 não se restringe apenas a uma única causa, mas a um conjunto de fatores, como, por exemplo: i) a manutenção de uma postura austera do BC, visando reconstruir sua credibilidade e reancorar as expectativas de inflação; ii) a forte recessão de 2015 e 2016 e seus efeitos defasados sobre os preços; iii) a Emenda Constitucional do Teto de Gastos; iv) o movimento de apreciação da taxa de câmbio, fruto de um cenário internacional bastante benigno e do ajuste das contas externas brasileiras; e, por fim, v) o choque deflacionário de gêneros alimentícios.

É inegável que, dentre os fatores mencionados, a dinâmica dos preços dos alimentos chama muito a atenção. Analisado seu comportamento ao longo dos últimos 20 anos, o que vem ocorrendo desde o final de 2016 é algo sem precedentes. O IPCA de alimentos apresentou deflação em nove dos últimos 12 meses. Com isso, em bases anualizadas, saiu de uma inflação de 16,8% em agosto de 2016, para uma deflação de 5,2% em agosto de 2017.

Além disso, uma análise rápida dos preços agrícolas de oferta (no atacado) mostra uma dinâmica ainda mais impressionante. Em agosto de 2016, com dados acumulados em 12 meses, o índice IPA-M Agrícola apontava para uma inflação de 28,7%, ao passo que em agosto de 2017, a deflação já atingia impressionantes 18,5%. Se pensarmos que os preços de oferta, mesmo com alguma defasagem, tendem a se transmitir para os preços no varejo, a deflação de alimentos ao consumidor continuará por mais algum tempo. Trata-se, portanto, sem dúvidas, de um choque agrícola de grandes proporções.

Com choque agrícola de grandes proporções, deflação dos alimentos continuará por mais algum tempo

Mas, afinal, qual a contribuição direta da dinâmica dos preços dos alimentos para desinflação no Brasil ao longo dos últimos 12 meses? Visando responder a essa pergunta realizei um exercício simples, simulando uma trajetória alternativa para o IPCA de alimentos que seguisse, mês a mês, seu padrão sazonal médio ao longo de uma década, entre 2006 e 2015. Nessa trajetória alternativa, ao invés de uma deflação de 5,2% em agosto de 2017, o IPCA de alimentos teria tido um alta de 8,1%. Como os alimentos tem um peso aproximado de 17% na composição do IPCA, é possível verificar qual teria sido a trajetória alternativa para o próprio IPCA.

O gráfico mostra que o IPCA ao invés de estar em 2,46% estaria rodando no patamar de 4,77%, ou seja, 2,31 pontos percentuais acima do efetivamente ocorrido. Esse é, portanto, o tamanho do benefício proporcionado pelo comportamento dos preços dos alimentos.

Dessa forma, acusar o BC de estar "atrás da curva" parece exagerado. No regime de metas de inflação recomenda-se que a autoridade monetária não reaja a choques primários na economia, mas sim combata seus efeitos secundários, evitando, assim, sua propagação para os demais preços da economia.

Mas cabe ressaltar que os movimentos do BC devem ser simétricos, tanto na ocorrência de choques primários positivos – suavizando o movimento de queda dos juros – quanto negativos – suavizando o movimento de alta dos juros.

Gilberto Borça Jr. é mestre em Economia pelo IE-UFRJ e membro do Grupo de Conjuntura do IE-UFRJ.

Por Gilberto Borça Jr.

Fonte : Valor

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