Reforma tributária vai impactar no setor lácteo

Medidas colocam em risco a produção e podem elevar preçosA reforma tributária, em tramitação no Congresso Nacional por meio das PECs 45 e 110, precisará ser revista sob pena de comprometer a viabilidade financeira da cadeia produtiva do leite e outros alimentos, e corroer o poder de compra da população brasileira.

As medidas trazem elevação de carga tributária sobre alimentos, aumento de impostos sobre o produtor rural e maior burocracia para a prestação de contas dos tambos, que, atualmente, são tributados apenas com Imposto de Renda e, de acordo com a proposta, passarão a ser contribuintes do novo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS).

Segundo estimativa da Viva Lácteos, apresentada em reunião da Aliança Láctea Sul-Brasileira realizada em Porto Alegre no dia 13 de março, a inclusão do produtor como contribuinte do IBS elevará o custo de produção em cinco centavos por litro de leite, no caso de grandes tambos.

Já os pequenos produtores terão um impacto de nove centavos.

“Como o pequeno produtor usa menos insumos, ele terá menos crédito para compensar do que os grandes. Por esse motivo, pagarão mais imposto por litro de leite”, ressaltou o diretor-executivo da Viva Lácteos, Marcelo Costa Martins.

Pela nova regra em discussão, o produtor terá que emitir a nota fiscal de venda e destacar o imposto devido. Os tambos também terão que fazer um livro-caixa para creditarem-se da compra de insumos, o que exigirá a contratação de contadores que os auxiliem.

Na indústria, a carga tributária – hoje, em 4% – poderá chegar a 25%. Também está prevista a extinção dos créditos presumidos e, com eles, programas como o Mais Leite Saudável, que desenvolve ações de melhoria da qualidade e produtividade e vem trazendo benefícios diretos a todo setor leiteiro. “Caso a alíquota do IBS seja de 25%, inviabilizará a produção de produtos lácteos. É preciso o setor participar ativamente desse debate”, alertou o presidente do Sindicato da Indústria de Laticínios do RS (Sindilat) e coordenador da Aliança Láctea Sul-Brasileira, Alexandre Guerra.

A ideia da Aliança Láctea é buscar uma alíquota diferenciada para o leite e derivados e a manutenção de créditos presumidos (ou algum instrumento similar), duas medidas que precisarão estar expressas na Constituição. Dessa forma, acredita-se será viável manter o valor dos alimentos à população e não comprometer a sobrevivência do segmento.

O setor lácteo alerta que o impacto do aumento da carga tributária sobre a cesta básica recairá sobre as famílias mais pobres.

Isso porque a proposta de compensação por meio de elevação do Bolsa Família só contemplará uma fatia pequena da população.

Segundo a Pesquisa Orçamento Familiar do IBGE, 71% da população tem renda bruta per capita inferior a R$ 1,2 mil por mês. “Se o governo elevar a tributação, e a compensação via Bolsa Família for concedida aos 20% mais pobres, isso deixará outros 51% pagando mais pelos alimentos”, compara Martins, alertando que 40% do orçamento da população dessa faixa de renda está, hoje, comprometida com habitação, principalmente com financiamento da casa própria, e não há espaço no orçamento familiar para pagar mais pelos alimentos.

Dessa forma, o setor lácteo rechaça a elevação da carga tributária, a inclusão dos produtores de leite como contribuintes do IBS e solicita a rápida restituição de créditos da exportação, de investimentos e os acumulados no período de transição. Segundo Martins, diversas reuniões estão sendo feitas para apresentar essas demandas a lideranças e membros do governo. “O momento é de participarmos do debate para que pontos sensíveis para o setor sejam incluídos nas PECs”, ressaltou Martins.

De acordo com o presidente da Associação das Pequenas Indústrias de Laticínios do Rio Grande do Sul (Apil-RS), Delcio Giacomini, a expectativa do setor é de que a reforma tributária traga benefícios para a indústria e o produtor, porém a forma como está sendo elaborada pelo governo, trará muitas dificuldades, especialmente para os pequenos laticínios.

“Pelo menos precisamos nos igualar com as grandes indústrias em conquistas de incentivos fiscais tributários”, afirma Giacomini, lembrando que este é o momento para o setor colocar as suas propostas. “Temos pela frente um enorme trabalho. Há muito o que discutir em relação, principalmente, aos tributos.”

ENTENDA MAIS

Pela reforma tributária, serão criados tributos que incidirão sobre todas as operações de bens e serviços. As medidas foram apresentadas por meio de duas Propostas de Emenda à Constituição (PECs), que estão tramitando na Comissão Mista da Reforma Tributária no Congresso Nacional.

PEC 45/2019: Extingue cinco tributos (IPI, PIS/Pasep, Cofins, ICMS e ISS) e os substitui por outros dois (Imposto sobre Bens e Serviços – IBS e Imposto Seletivo); PEC 110/2019: Extingue oito tributos (IPI, PIS/Pasep, Cofins, ICMS, ISS, Cide, IOF e Salário Educação) e os substitui por outros três (IBS Federal, IBS Subnacional e Imposto Seletivo). Incorpora CSLL e IRPJ. Prevê alíquotas menores para alimentos.

Fonte: Jornal do Comércio