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Votorantim eleva aposta em calcário agrícola

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Silvia Zamboni/Valor

Solla: aportes serão destinados a novas jazidas e a linhas adicionais de calcário

Mais conhecida por sua atuação na construção civil, a Votorantim Cimentos pretende consolidar-se nos próximos anos como referência também na produção de calcário para a agricultura. A divisão do grupo controlado pela família Ermírio de Moraes irá investir R$ 160 milhões para a construção e adaptação de novas fábricas do insumo no país para dobrar sua fatia de mercado no segmento, hoje de 8%, até 2021.

Até então vista como um negócio marginal para a companhia, a comercialização de calcário agrícola ganha agora status de unidade estratégica em meio aos planos de diversificação da Votorantim. A decisão foi tomada diante de duas constatações: a queda no mercado de construção civil e o avanço expressivo do campo.

"Com a expansão da fronteira agrícola, a demanda por calcário vai crescer, sobretudo no Cerrado, onde o solo necessita de maior correção. A experiência também mostra que a calagem ajuda na produtividade da lavoura", disse Laercio Solla, gerente-geral para agricultura da Votorantim Cimentos, ao Valor. O mineral é usado por produtores para corrigir a acidez do solo, além de fornecer cálcio e magnésio indispensáveis para a nutrição das plantas.

A ambição da divisão de cimentos, que em 2016 teve receita líquida de R$ 12,7 bilhões (47% da receita total do grupo), não é pequena. Há quase 30 anos na praça com a marca Calcário Itaú – referência à primeira fábrica do grupo, em Itaú de Minas (MG) -, a companhia pretende usar sua capacidade de padronização e a capilaridade geográfica de suas fábricas para se tornar líder nacional também nesse setor. Mais que isso: pretende exercer o direito de lavra em áreas ainda não exploradas. A Votorantim é hoje a maior detentora de direitos minerais no Brasil.

Solla afirmou que os aportes, já iniciados, serão destinados a abertura de novas jazidas e construção de linhas adicionais de calcário em algumas das 22 fábricas de cimento existentes. O foco está no eixo de maior expansão potencial do campo – Matopiba e Itaituba, no Pará, para onde parte dos grãos do Centro-Oeste começa a ser escoada.

Apesar do reposicionamento do calcário agrícola dentro do grupo, iniciado há dois anos, o negócio em si apresenta números minúsculos se comparado ao "core" da divisão. Em 2015, cimentos, argamassas e agregados totalizaram 65,8 milhões de toneladas em 2015 na Votorantim Cimentos – ante menos de 2 milhões de toneladas de calcário agrícola. Os R$ 160 milhões a serem investidos pela companhia também não fazem ondas frente às cifras bilionárias dos aportes gerais previstos nos relatórios anuais do grupo.

Olhado isoladamente, no entanto, trata-se de um segmento que não pode ser desprezado. "É, sem dúvida, um mercado importante na agricultura, referente a numa etapa indispensável da produção", disse Rafael Ribeiro, da Scot Consultoria. Segundo ele, diferentemente do mercado de fertilizantes, influenciado pelo dólar, o calcário não sofre grandes volatilidades nos preços por estar mais atrelado à oferta e à demanda do insumo no mercado interno.

Dados da Abracal, associação dos produtores do insumo, mostram que o Brasil produziu 31,8 milhões de toneladas de calcário agrícola em 2015, liderado por Minas Gerais e Mato Grosso, com 5,7 milhões de toneladas cada. Em 2016, a Votorantim produziu 2,8 milhões de toneladas de calcário agrícola e espera chegar a 3,2 milhões de toneladas em 2017, volume que pretende dobrar nos próximos quatro anos.

Altamente pulverizado, o setor tem hoje cerca de 200 fornecedores no país para atender a demanda doméstica – o Brasil não importa o insumo. Grandes "players" incluem os grupos J. Demito (com atuação forte em Mapitoba), Emal e Copacel (Mato Grosso) e Belocal (voltado ao mercado do Sudeste).

Segundo Solla, a Votorantim pretende criar linhas de calcário anexas à de cimento em suas unidades em Nobres (MT), Xambioa (TO), Primavera (PA) e Idealina (GO), e construir duas fábricas de calcário no Pará e Matopiba. A companhia avalia a melhor localização para os projetos nas regiões de Itaituba e Luís Eduardo Magalhães (BA). "Como a empresa detém direitos mineiros tanto no lado da fronteira baiana quanto em Tocantins, ainda estamos estudando a localização ideal, considerando logística e infraestrutura", afirmou. Os projetos terão capacidade mínima de 500 mil toneladas por ano.

Embora esteja subordinada à Votorantim Cimentos, a unidade de calcário também receberá o mineral – ainda que em menor parte – da Votorantim Metais. Além disso, a companhia quer aproveitar sua participação na Citrosuco e Fibria para usar o calcário em novos experimentos, intensificando as sinergias no grupo, disse o executivo.

Segundo Solla, cerca de 75% do calcário no Brasil é do tipo dolamítico, que não serve para cimento mas é ótimo para a agricultura. "E quem não quer agora dar foco no setor agrícola brasileiro?", indagou.

Por Bettina Barros | De São Paulo

Fonte : Valor